Caro leitor: você já imaginou o quanto de informação chega até você todos os dias? Vamos imaginar que você leia o jornal de manhã, ou assista a um jornal da televisão de manhã. Mesmo que não assista ou leia completamente, a caminho de seu trabalho ou estudos, você deve receber um bocado de informação: através do rádio (ou mp3 player) que envia notícias ou música (música também é informação?), cartazes nas ruas e eventualmente nos ônibus e metrôs, ou jornais e revistas em táxis (hoje em dia em São Paulo todos os táxis têm alguma coisa para ler). Ou ainda, se estiver indo trabalhar ou estudar na companhia de alguém, na conversa trocada pode haver muita informação. Em seguida, ao chegar no local de trabalho ou estudo: internet, emails, informações impressas, informações vindas de outras pessoas, chegam a você o tempo todo. Na hora do almoço, na conversa com colegas e/ou amigos. Telefone celular. Depois do almoço, mais internet, emails, papéis, discussões. Na volta para casa já não estamos prestando atenção em mais nada. Muitos nem assistem jornais à noite, no horário entre 19:00 e 21:00 h (muitos de meus amigos e colegas não assistem). Às vezes, porém, mais internet, mais emails. Ao ir para cama, uma pequena leitura para relaxar: um bom livro, mas do qual você mal consegue ler ½ página, e tudo fica escuro até o dia seguinte. Porém, muitas vezes os sonhos são implacáveis.
É muita informação? Ou não?
Para conhecer a resposta destas perguntas, artigo publicado na revista Science do dia 10 de fevereiro último traz cálculos realizados por dois pesquisadores de quanta informação somos capaz de acumular, comunicar e computar.
Os números são grandes:
– Considerando-se a memória digital e aparelhos analógicos, os pesquisadores calcularam que os seres humanos são capazes de acumular pelo menos 295 exabites de informação (2,95 x 1022 bites; quase o número de Avogadro, 6,02 x 1023, que foi o centro de uma certa polêmica há pouco tempo). Este número corresponde a 315 vezes o número de grãos de areia de todo o mundo. Mas é menos do que 1% de toda a informação acumulada em todas as moléculas de DNA de uma única pessoa.
– O ano de 2002 pode ser considerado o ano do início da era digital, pois foi o ano em que a quantidade de informação digital ultrapassou a quantidade de informação analógica. Em 2007 quase 94% de toda a informação acumulada na forma de memória já era na forma digital.
– Em 2007 a humanidade enviou 1,9 zettabites (1021) de informação através de tecnologias de transmissão, como televisão e GPSs. Tal quantidade de informação corresponde à que uma pessoa leria em 174 jornais/dia.
– Em tecnologias de troca de informação (ida e vinda), como telefones celulares, a humanidade trocou 65 exabites de informação através de telecomunicações em 2007 (o que corresponde ao conteúdo de 6 jornais/dia trocados por cada uma de todas as pessoas do mundo).
– Em 2007, todos os computadores de uso geral do mundo computaram 6,4×1018 instruções/segundo, na mesma ordem de magnitude que os impulsos nervosos executam em um único cérebro humano. Se estas mesmas instruções fossem realizadas manualmente, levariam o tempo de 2.200 vezes o tempo da existência do universo (cerca de 16 bilhões de anos).
– De 1986 a 2007, o período compreendido pelo estudo realizado pelos pesquisadores, a capacidade mundial de computação cresceu em média 58% por ano. Enquanto isso as telecomunicações cresceram em média 28% ao ano, com uma capacidade de acúmulo de informações crescendo de 23% ao ano.
Embora tais números impressionem, ainda é uma quantidade de informação muito pequena quando se leva em conta a quantidade de informação que a natureza contém. Em comparação com a natureza, a quantidade de informação manipulada pelos humanos é ridiculamente pequena. Porém, a quantidade de informação da natureza não cresce – tende a permanecer constante. Enquanto isso, no nosso dia a dia tecnológico a capacidade de processamento de informação cresce em taxas exponenciais.
Haja cérebro.
Hilbert, M., & Lopez, P. (2011). The World’s Technological Capacity to Store, Communicate, and Compute Information Science DOI: 10.1126/science.1200970
Categorias:ciência, informação
“Mas é menos do que 1% de toda a informação acumulada em todas as moléculas de DNA de uma única pessoa.” – isso não está bem correto. Eles calculararam – pelo que deduzi, não consegui o artigo original – na base de 3 bilhões de pares de base por molécula de ADN por célula vezes 10 trilhões de células e 1 bit por posição nucleotídica (mas acho que teríamos que elevar ao quadrado considerando-se que o ADN é quaternário e não binário).
Ocorre que a maior parte da informação nas células é repetida – essencialmente (salvo mutações puntuais) as células são clones umas das outras. Não dá pra falar que é 1% da informação efetivamente acumulada. Mas da *potencialmente* acumulável – se todas as moléculas fossem diferentes umas das outras. (E ainda sem considerar que boa fração do genoma é de ADN repetitivo.)
Eu ainda faria a distinção entre dados e informação – com informação correspondendo a dados “úteis” (os que se encaixam na definição shannoniana de informação – a que reduz a incerteza sobre um dado sistema).
O interessante é que com os dados do artigo podemos extrapolar a quantidade de informação armazenada para 2011: 747,25 exabytes. To the zetta and beyond!
[]s,
Roberto Takata
Realmente, Takata, tuas observações fazem sentido.
Vou conferir amanhã.
abraços,
RB
Roberto, impressionante! Especialmente quanto saber que sabemos quase nada…scratching the surface! Legal mesmo!
Robertos, se me permitem… interessante porque me parece que a análise do paper (o qual tenho a impressão que não entenderia patavinas) referida por de Roberto Takata considera apenas o potencial de conteúdo de informação na sequencia do DNA e não considera a possibilidade das informação codificada na estrutura secundárias e terciarias da molécula de DNA, e as tais chamadas modificações epigenéticas das bases; e ainda outras funcões celulares como a transdução de sinal, mesmo porque a informação não inicia no DNA, e sim flui em um “loop” aonde a informação contida no código genético talvez seja apenas uma camada (layer) de um dos “modulos” da rede.
De fato…a visão mais adequada do DNA é de uma molécula bastante plástica, e não algo estático, alem de vários elementos que migram (plantas, leveduras, etc), mudam de posição, são amplificados, deletados etc, as estruturas secundária, terciaria e quaternária do DNA são altamente dinâmicas e assim participam na regulação de vários processos celulares.
Levando em conta tais pontos, isso representaria uma variação (aumento ou diminuição) de informação (relativa àquela apresentada no artigo) de quantas ordens de grandeza?
Roberto
Também concordo com o seu xará. É preciso distinguir dados de informação, conforme Shannon.
E dados, dados, dados, lembram muito aquela música do Iron Maiden, adaptada de um poema de Coleridge, “Rime of The Ancient Mariner”:
“Water, water, everywhere,
Nor any drop to drink“