(Des)Conhecimento da biodiversidade brasileira

Notícia publicada pelo jornal O Estado de São Paulo no último dia 17 de fevereiro conta que:

Estudo alerta para desconhecimento da biodiversidade brasileira

Técnicos do Ipea, por meio de estudos de variabilidade genética, constataram que preservação de espécies mais ameçadas fica comprometida

Técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constataram, por meio da análise de estudos de variabilidade genética, que há, no Brasil, desconhecimento sobre as espécies e o meio ambiente em todas as regiões, o que afeta as possibilidades de preservação de animais e plantas, inclusive os mais ameaçados. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, 17, e fazem parte do Comunicado Ipea, Série Eixos do Desenvolvimento Brasileiro, intitulado Sustentabilidade Ambiental no Brasil: Biodiversidade, Economia e Bem-Estar Humano.

O Ipea reconhece que “o conhecimento e a conservação dos biomas brasileiros têm avançado bastante nos últimos anos”, conforme constatado no capítulo que traz o levantamento dos biomas brasileiros, onde há referência ao início recente do monitoramento por satélite do desmatamento no Cerrado e na Caatinga. Em outro trecho da publicação, os técnicos, no entanto, constatam que há um profundo desconhecimento sobre genes e espécies, o que inviabiliza a proteção. “O fato é que aproximadamente 75% das espécies da fauna e da flora ameaçadas de extinção não são objeto de quaisquer medidas de manejo”. Na conclusão, os técnicos sugerem que “o potencial da perda de biodiversidade seja considerado, efetivamente, no âmbito decisório, quando da implementação de políticas e ações, nas esferas pública e privada, de forma a evitá-la ou mitigá-la. Merecem destaque as obras de infraestrutura e o uso do solo para as chamadas atividades produtivas, por serem importantes vetores associados a essa perda”.

A pesquisa, no entanto, não calcula o valor do “capital natural” da biodiversidade sob ameaça em território brasileiro, porém compila a estimativa de estudos anteriores de que 30% dos fármacos disponíveis em todo o mundo derivam diretamente de fontes naturais.

A ignorância científica que afeta a atual produção de remédios, se associada ao problema de extinção de espécies, pode comprometer a cura de doenças, conforme registra a publicação. “Entre essas perdas, podem estar as chaves para a cura de doenças, o aumento da produção de alimentos e a resolução de muitos outros problemas que a humanidade já enfrenta ou enfrentará”.

Segundo os dados apresentados pelo Ipea, os estudos genéticos sobre as espécies estão concentrados na Amazônia e na Mata Atlântica, mesmo assim em quantidade insuficiente. Em todo o país, não há nenhum estudo genético sobre os genes de anfíbios ameaçados de extinção e apenas de 3% das aves. Sobre répteis, esses estudos não passam de 15% e, sobre mamíferos, de 22%. “Isso dificulta o mapeamento da erosão genética”, aponta Nilo Luiz Saccaro Júnior, fazendo referência à perda de variabilidade genética, mecanismo importante para a perpetuação das espécies. A informação sobre a constituição genética das espécies é fundamental, por exemplo, em programas de defesa de espécies ameaçadas.

Os pesquisadores do Ipea ponderaram que os licenciamentos ambientais para obras de infraestrutura são concedidos sem que haja conhecimento total sobre animais, plantas e regiões afetadas. “Os EIA-Rima [Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, usados para a concessão de licenças ambientais] são estudos rápidos. Apesar de ser o melhor disponível, não é [um tipo de estudo] completo”. Segundo o pesquisador do Ipea Albino Rodrigues Alvarez, os licenciamentos ambientais são feitos com base “no estado da arte do que se conhece”.

A pesquisa realizada pelo Ipea demonstra, límpida e claramente, como são importantes os estudos realizados por biólogos, bioquímicos, químicos, e várias outras “estirpes” de cientistas sobre e com a biodiversidade do Brasil. No entanto, para que isso ocorra é absolutamente necessário que haja um estímulo cada vez maior à pesquisa sobre os elementos, processos e produtos da biodiversidade brasileira, inclusive para o estabelecimento de leis como o novo Código Florestal, atualmente em discussão no Congresso Nacional.



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3 respostas

  1. No caso de metazoários de maior porte, em vez de (ou em complemento a) radiocolares (que causam estresse a cada vez que precisam ser substituídas as baterias) e armadilhas fotográficas (que são bastante sujeitas a disparos por falsos alarmes), porque não chips passivos de RFID com o espalhamento de pontos de rastreamento? Os pontos de rastreamento podem ser mais robustos do que estações de fotografia automática e mais baratos (ou mais caros, a depender do grau de sofisticação) – o alcance dependeria da potência do sistema, seria omnidirecional (ou ao menos com uma abertura angular maior do que armadilhas fotográficas) e menos sujeitos a bloqueios. E causam menos estresse do que radiocolares.

    Sendo um bom número de indivíduos marcados, ainda se poderia rastrear a origem de lotes apreendidos em caso de captura por caça ilegal.

    (Não tenho muita ideia dos custos operacionais envolvidos.)

    []s,

    Roberto Takata

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