A massificação do sistema de pós-graduação em todo o mundo gerou uma superoferta de doutores no mercado de trabalho. Este é um fenômeno mundial, do qual procura-se compreender quais são os benefícios e os problemas. A avaliação de David Cyranoski, Natasha Gilbert, Heidi Ledford, Anjali Nayar e Mohammed Yahia na última edição da revista Nature traça um panorama da formação dos doutores no mundo, e em alguns países.
Parece claro que a obtenção do título de doutor não confere mais do que um título àqueles que o obtém. Até anos atrás, os doutores eram considerados parte da elite intelectual, algo que parece estar bem longe da realidade dos dias de hoje. Em parte devido à massificação da pós-graduação. Em parte por causa da desvalorização de uma mão-de-obra tão cara e tão especializada.
Nos EUA e no Japão, por exemplo, o número de empregos de doutores na academia é decrescente, e a iniciativa privada não os consegue absorver. Tudo indica que a oferta é maior do que a demanda. E, aparentemente, o investimento em anos a mais de formação não dá o retorno esperado. O artigo menciona a China e a Índia, países nos quais a oferta de trabalho para recém-doutores ainda é considerável. O Brasil também poderia ser incluído nesta lista. Tendo o governo Lula criado inúmeras universidades novas, e expandido o número de vagas das já existentes, as contratações de recém-doutores como docentes destas universidades ainda continua. Sabe-se lá até quando. Mas o problema parece ser a qualidade dos doutores formados na China e na Índia, segundo o artigo. E aqui no Brasil? Aparentemente a Alemanha foi dos poucos países que se debruçou sobre o problema, procurando soluções para a inserção no mercado dos recém-doutores.
Em 1990 o governo japonês estabeleceu a meta de formar 10.000 doutores/ano, e forjou um aumento na oferta de número de vagas para doutorandos. O objetivo seria alcançar a qualidade científica dos países mais desenvolvidos. Porém, os resultados não foram os esperados, principalmente do destino dos pós-doutores. A academia do Japão não tem como absorver o excedente, tampouco a indústria japonesa, que prefere jovens recém-graduados. De 1350 doutores formados em 2010, 746 estavam contratados quando obtiveram seus títulos. Destes, 162 na academia e serviços tecnológicos, 250 na indústria, 256 se tornaram professores, 38 foram empregados pelo governo. A avaliação sobre o mercado de trabalho para recém-doutores é pessimista.
O país formou 50.000 doutores em 2009. É o país que mais forma doutores no mundo. O problema parece ser a baixa qualidade dos doutores formados. O título é obtido em 3 anos, vários orientadores não estão bem qualificados, o sistema não é avaliado e não existe um mecanismo claro de reprovação de alunos de qualidade baixa. Mesmo assim a maioria dos doutores chineses consegue emprego, devido à pujança econômica da China. Todavia, posições acadêmicas em boas instituições chinesas são difíceis de conseguir. É necessário que o candidato tenha tido experiência no exterior. Boa parte das instituições está estabelecendo comitês para avaliações das teses e um sistema com diferentes orientadores para um mesmo aluno. Os programas de pós-graduação estão sob continua mudança.
O país investiu pesado e expandiu o sistema universitário, inclusive sua infra-estrutura, tendo fundado duas novas universidades públicas (obs: Singapura tem cerca de 5 milhões de habitantes). O investimento do governo atraiu para a pós-graduação estudantes nacionais e internacionais, principalmente da China, Índia, Irã, Turquia, Europa do leste, e de outros países. A expansão contínua das universidades parece estar criando novas oportunidades de emprego. Doutores têm salário médio 25% maior do que os não-doutores recém-formados. Um estudante entrevistado declarou que considera a obtenção do título de doutor não somente o domínio de uma área de pesquisa, mas também um treino para a mente.
Uma economista da Georgia State University em Atlanta considera escandalosa a defesa do aumento do número de doutores por políticos norte-americanos. O país foi o segundo a formar o maior número de doutores em 2009: quase 20.000. A economista argumenta que em vez de formar mais doutores deveria-se estimular a geração de empregos para estes. Boa parte dos doutores contratados pelas universidades não conseguem ser efetivados (o que se chama de tenure, algo como permanência definitiva), e a indústria não consegue absorvê-los. Doutores formados em ciências da vida parecem sentir mais drasticamente o problema, uma vez que indústrias farmacêuticas e de biotecnologia estão perdendo fatias do mercado de trabalho. Consequentemente, muitos doutores apenas conseguem empregos que não requerem o título de doutor. Ainda assim o ingresso de estudantes em programas de doutorado continua a aumentar, sendo que a academia foi o emprego melhor considerado em 2010 por cerca de 30.000 estudantes de doutorado. Muitas universidades estão investindo na formação de alunos de doutorado para melhor prepará-los para competir por posições acadêmicas.
É o país que mais forma doutores na Europa: 7.000 em 2005. Os programas de pós-graduação foram objeto de avaliação contínua durante os últimos 20 anos, e os alemães aparentemente conseguiram resolver o problema da superoferta de doutores no mercado de trabalho. Os programas de pós-graduação procuram dar uma formação não somente voltada para a academia – carreira oferecida somente para aqueles que são excepcionais – mas também para o mercado de trabalho em geral. As universidades assumiram um papel mais formal na seleção e formação dos alunos de pós-graduação, oferecendo cursos de apresentações, escrita de projetos e relatórios, e outras qualificações necessárias para o mercado não-acadêmico. Menos de 6% dos estudantes formados como doutores conseguem vaga em uma universidade. Além disso, a carreira para se tornar professor é longa e pouco atraente do ponto de vista financeiro. Porém, críticos ao novo sistema alemão alertam que os estudantes atualmente estão gastando muito tempo cursando disciplinas e pouco tempo desenvolvendo pesquisa, para adquirir pensamento crítico. O número de doutores formados/ano praticamente encontra-se estacionado durante as duas últimas décadas.
Em 1990 as instituições polonesas tiveram a entrada de quase 3.000 estudantes de doutorado. Entre 2008 e 2009 este número atingiu mais de 32.000. Tal tendência se acentuou depois da queda do regime comunista. Porém, o sistema carece de financiamento, o que leva muitos estudantes a abandonar o doutorado. Como o crescimento econômico da Polônia têm sido marginal, muitos estudantes de doutorado terminam por conseguir empregos que requerem menor qualificação. Mesmo assim, menos de 3% dos doutores formados encontra-se desempregados.
O quadro da pós-graduação no Egito é parecido com o da Polônia. Em 2009 o país teve 35.000 estudantes matriculados em programas de pós-graduação, o dobro de 1998 (quase 18.000). Mas financiamento é o maior problema. As universidades buscam financiamento estrangeiro e da iniciativa privada, mas os recursos são limitados. A falta de recursos se reflete na falta de equipamentos e material, professores mal qualificados e mal pagos. Adicionalmente, os orientadores parecem não se importar muito com os problemas da pós-graduação no Egito. Consequentemente os empregadores do setor privado reclamam que os recém-doutores não têm formação adequada. Mesmo assim, doutores recém-formados no Egito tentam se inserir na academia, mas em outros países. Mounir Hana, professor da Minia University, considera que a qualidade média dos artigos publicados por estudantes de doutorado egípcios é medíocre, e que não vale a pena fazer doutorado a não ser para aqueles já empregados em universidades. Porém, a demanda por doutores no Oriente Médio está aumentando, o que configura um mercado de trabalho de interesse para estes recém-doutores.
A formação de doutores passou de 5.900 em 2004 para atuais 8.900. O governo tem investido significativamente em pesquisa e na educação de nível superior, tendo aumentado de 1/3 o orçamento de 2011-2012 e buscado investimento de universidades estrangeiras. Mas os programas de doutorado são longos, e apenas 1% dos formados em graduação optam por prosseguir seus estudos na pós-graduação. Muitos recém-graduados conseguem bons empregos nas indústrias, de melhores salários do que na academia. Além disso, existem poucas vagas acadêmicas no país. Muitos que querem seguir carreira acadêmica vão para o exterior, principalmente EUA e Europa.
Fato interessante é que a pós-graduação do Brasil não é mencionada no artigo, apesar do país ter atingido a marca de formação de 10.000 doutores por ano em 2008, e ter apresentado um aumento significativo na sua produção científica, 56% também em 2008. A produção científica do Brasil é a maior e melhor qualificada da América Latina. O financiamento da pós-graduação brasileira têm sido consistente ao longo da última década. Neste ano o orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia, ao qual está vinculado o CNPq, sofreu um corte de 23%, apesar do ministério ter um dos orçamentos mais modestos. A comunidade científica brasileira ficou muito surprêsa com a indicação de Aloísio Mercadante para ministro do MCT, em clara dissonância com os cinco anos de gestão do acadêmico Sergio Rezende durante o governo Lula. Para continuar a crescer de maneira consistente, qualitativa e quantitativamente, é imprescindível que a pós-graduação do Brasil seja continuamente aprimorada e que o orçamento da educação, e também da ciência e tecnologia, não sejam comprometidos. O desenvolvimento da nação depende essencialmente da formação de profissionais altamente qualificados, que possam contribuir não somente para aprimorar a geração do conhecimento, mas também para fazer com que o mercado de trabalho se transforme no sentido de absorver quadros para o desenvolvimento científico e tecnológico, primordial para o avanço industrial do país.
Cyranoski, D., Gilbert, N., Ledford, H., Nayar, A., & Yahia, M. (2011). Education: The PhD factory Nature, 472 (7343), 276-279 DOI: 10.1038/472276a
Categorias:educação









O problema é onde iremos empregar essa massa de doutores:
http://neveraskedquestions.blogspot.com/2009/10/mais-cientistas-para-que.html
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Verdade que em certas áreas há carência: sobretudo engenharia e tecnologia da informação – mas a distribuição está equilibrada com a demanda?
[]s,
Roberto Takata
Se a oferta e a demanda está bem distribuída eu não sei, mas que existe uma grande necessidade de mão de obra melhor qualificada em inúmeros setores da economia brasileira, isso existe.
O que falta também saber é se a formação oferecida pelos cursos de pós-graduação está também suprindo as necessidades de mercado.
Olá Roberto,
Na minha opinião, eu acho que os programas de pós-graduação de uma forma geral deveriam formar a maioria dos mestres e doutores não só para a academia, mas também para o mercado de trabalho. Assim, deveria haver mais parcerias entre Universidades e Indústrias, de modo que o aluno possa ter durante a pós-graduação uma experiência nessa área. Hoje em dia, quando um recém doutor procura um emprego em uma indústria de P&D, o pessoal da indústria procura um profissional que já tenha experiência industrial . Aí eu pergunto, se nós passamos 10 ou 11 anos dentro da Universidade, que experiência nós temos? Se não aquela vivida durante o período de graduação e pós-graduação. Mas, acho que isso não importa muito para eles. Deste modo, como temos essa “massa de doutores” se formando todo ano, muitos deles nos dias atuais estão sem emprego.
Eduardo Crevelin.
Caro Eduardo,
Pode acreditar que esta preocupação está na pauta do dia dos comitês que discutem a pós-graduação no Brasil. De outra forma, não chegaremos a lugar algum.
Cordialmente,
Roberto
A formação de doutores pode ter aumentado, mas a qualidade deixa a desejar. Na UNIFESP, por exemplo, metade dos programas tem nota CAPES 3 ou 4. O governo não cobra das universidades um plano de metas para esses cursos. O governo deveria exigir que após 6 anos de duração o programa deva ter nota no mínimo 5.
Além disso, falta o idioma universal da pesquisa, são poucos que sabem escrever bem em inglês, e, para falar a verdade, nem em português, é uma vergonha. Já li alguns relatórios de professores que são inacreditáveis. Certa vez, eu questionei, e a pessoa disse “isso não é elegante em uma redação científica”. Na frase seguinte, ela escreveu com o recurso que eu havia mencionado, me segurei, respirei fundo e continuei em frente.
Língua portuguesa e, pelo menos, uma língua estrangeira deveriam ser obrigatórias na graduação.
Obs.: a USP e a UNICAMP possuem um órgão que auxilia os pós-graduandos no idioma, eles fazem revisão e indicam qual é a melhor revista para publicar o artigo, além de outros serviços.
A legislação é outro problema. A da biotecnologia é uma piada, emperra a criação de novas empresas e o desenvolvimento de pesquisa nas poucas existentes.
Sem mencionar a burocracia: como pode uma pessoa esperar 6 meses por um reagente?? Sem falar na quantidade de papel que tem que preencher.
Como pode o governo se orgulhar em comprar equipamentos de última geração, mas não treinar pessoal para manuseio, pessoal para manutenção e nem fornecer verba para funcionamento?
Agora que eu vi que você é da USP e trabalha com química orgânica e biologia. Você deve saber do que eu escrevi, muito mais do que eu.
Caro Alexandre,
Suas observações são extremamente pertinentes e muito bem vindas.
abraço,
Roberto