Sobre conservadorismos e imutabilidades

Sobre o livro didático do MEC, supostamente “com êrros de português”, vale a pena conhecer o pensamento de Carlos Alberto Faraco. Professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, ministrou cursos das seguintes disciplinas: Análise do Discurso, Estudos em Lingüística Aplicada, Tópicos de Análise do Discurso, Sintaxe, Lingüística Geral, Lingüística Aplicada. Foi reitor da UFPR entre 1990 e 1994.

Concepção de língua – Carlos Alberto Faraco

Estamos hoje bastante conscientes de que não há uma única forma de conceber a linguagem. Igualmente estamos bastante conscientes do fato de que o ensino de Língua Portuguesa terá diferentes configurações dependendo da concepção que temos da linguagem.

Entre nós, as concepções mais tradicionais tendem a reduzir a linguagem ora a um conjunto de regras (a uma gramática); ora a um monumento (a um conjunto de expressões ditas corretas); ora a um mero instrumento de comunicação e expressão (a uma ferramenta bem-acabada que os falantes usam em certas circunstâncias).

Podemos observar que todas essas concepções têm algo em comum: elas entendem a linguagem, como uma realidade em si (um sistema gramatical, um monumento, um instrumento); como se ela tivesse vida própria, despregada de seus falantes, da dinâmica das relações sociais, dos movimentos da história.

Nossa concepção recusa esses olhares que alienam a linguagem de sua realidade social concreta. Nós a concebemos como um conjunto aberto e múltiplo de práticas sociointeracionais, orais ou escritas, desenvolvidas por sujeitos historicamente situados.

Pensar a linguagem desse modo é perceber que ela não existe em si, mas só existe efetivamente no contexto das relações sociais: ela é elemento constitutivo dessas múltiplas relações e nelas se constitui continuamente.

Por outro lado, os próprios falantes tomam conta como sujeitos históricos e como realidades psíquicas em meio a essa intrincada rede de relações socioverbais e pala interiorização da própria dinâmica da interação socioverbal.

Somos, nesse sentido, seres de linguagem, constituídos e vivendo num complexo feixe de relações socioverbais. De forma alguma, podemos ser compreendidos como meros aplicadores de regras de um sistema gramatical; ou como meros reprodutores de um certo monumento linguístico cristalizado; ou, ainda, como meros usuários de um instrumento externo a nós.

Desse modo, ensinar português é, fundamentalmente, oferecer aos /às alunos/as a oportunidade de amadurecer e ampliar o domínio que eles/elas já têm das práticas de linguagem. Em língua materna, a escola, obviamente, nunca parte do zero: os/as alunos/as têm uma experiência acumulada de práticas de fala e de escrita. Cabe-nos, no entanto, criar condições para que esse domínio dê um salto de qualidade, tornando-se mais maduro e mais amplo.

Autor: Carlos Alberto Faraco, Português: língua e cultura, 2005.

Emprestado do blog “Zellacoração – Língua, Literatura e Redação“.

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Atualização em 22/5/2011: Leiam também o texto do professor Sírio Possenti (Instituto de Estudos da Linguagem – UNICAMP) sobre este assunto, aqui.



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1 resposta

  1. Avatar de Prof. Dr. Luiz Carlos Cagliari

    O artigo do Sr. Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo sobre o assunto em questão, intitulado “Inguinorança”, ofende profundamente os linguistas do mundo todo. Como linguista, certamente, temos o direito de uma reportagem completa sobre variação linguística e ensino, que deverá ser publicada na FOLHA. A Linguística Moderna substituiu o antigo ensino da gramática normativa, não desprezando a norma culta, pois esta é uma variedade linguística de prestígio, mas mostrando que as línguas evoluem e mudam com o tempo e geram diferentes normas ou variantes linguísticas (dialetos). A norma culta do Sr. Clóvis Rossi veio do Latim Vulgar, uma variedade estigmatizada pela sociedade literata latina. Então, por que ele não fala latim literário? O que hoje pode soar como vulgar no Português pode, no futuro, representar uma norma culta. Isso já aconteceu com muitos aspectos que, hoje, aceitamos como norma culta, mas que, no passado, foram vistos como fala vulgar a ser condenada por algum gramático mal informado. A escola precisa ter consciência da história da língua e dos valores que atribuímos socialmente às variedade linguísticas. Na linha de raciocínio do Sr. Clóvis Rossi, por exemplo, ele precisa condenar todas as metáforas da língua, porque são afirmações não verdadeiras, precisa condenar dizer “amanhã vou ao cinema” porque o verbo está no presente e a sentença está no futuro… A grande ignorância do Sr. Clóvis Rossi é um espelho do mau ensino de Língua Portuguesa e de Linguística: ele deveria ter vergonha da própria ignorância e calar a boca: prestaria um bom serviço à nação.

    Prof. Dr. Luiz Carlos Cagliari
    UNESP / FCL – AR Departamento de Linguística
    Ph.D. pela Universidade de Edimburgo, Escócia
    Prof. Titular de Linguística pela Unicamp

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