O plágio Acadêmico e suas Punições – uma Revisão (Parte I)

A história e motivação deste artigo

Desde o surgimento deste blog em maio de 2009 as notícias sobre plágio no meio acadêmico não pararam de surgir. Várias foram aqui transcritas e comentadas, até que a notícia da punição do Prof. Andreimar Martins Soares, então vinculado à Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, veio a ser publicada no jornal O Estado de S. Paulo e aqui postada. Surpreendentemente, o mesmo dia da postagem da notícia da demissão do Prof. Soares foi o dia em que este blog teve o maior número de acessos até hoje: quase 2.000. Bastante surpreso com o volume de acessos ao blog, retirei a postagem.

Porque?

Depois de conversar com vários colegas do Instituto de Química da USP de São Carlos, percebi a falta de consenso sobre a punição adotada pela USP e a percepção que pouco se conhece sobre a noção de plágio e suas implicações. Ao mesmo tempo, coube o questionamento: porque uma notícia desta chamou tanto a atenção, sendo que até aquele momento haviam sido postados outros textos neste blog, de assuntos tão ou mais interessantes quanto a notícia sobre a demissão do Prof. Soares? Principalmente postagens de assuntos com caráter construtivo, positivo, certamente mais motivadores do que uma notícia tão ruim. Ruim e dolorosa.

A partir de então busquei mais informações sobre o assunto, e aos poucos foi se desenhando o “outline” do texto em português, a primeira versão do artigo. Três pessoas o leram antes que eu o submetesse à publicação em uma revista brasileira do Scielo. Para minha surpresa, fui notificado pela revista que a avaliação do artigo levaria cerca de 9 meses. Desta forma, foi feita uma consulta sobre o eventual interesse da Revista Brasileira de Farmacognosia em publicar um artigo desta natureza, uma vez que, em seu último número havia sido publicado outro artigo, de assunto relacionado a este: “The tragedy of the common reviewers: the peer review process”, de autoria do Prof. Ulysses Paulino de Albuquerque. Segundo a editoria da Revista Brasileira de Farmacognosia, o artigo seria de interesse, desde que traduzido para o inglês. Após a tradução, submissão e avaliação por 8 (oito) revisores, o artigo “The Academic Plagiarism and its Punishments – a Review” foi aceito para publicação e encontra-se no prelo, aqui. A postagem da versão em português neste blog é feita com a anuência do editor-chefe da Revista Brasileira de Farmacognosia, Prof. Cid Aimbiré dos Santos. Para maior facilidade de leitura, o artigo foi dividido em quatro postagens, no final das quais se disponibiliza a versão integral em arquivo pdf.

O plágio acadêmico e suas punições – uma revisão

Introdução

Em recente comunicado à comunidade acadêmica, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) recomendou que as instituições de ensino superior devem promover atividades de conscientização sobre o plágio quando da redação de documentos como teses, monografias, artigos e demais textos que caracterizem a formulação de ideias ou elaboração textual de maneira original (inédita) (CAPES, 2011). A manifestação da CAPES é bem vinda e extremamente importante, tendo em vista que em todo o mundo se observa um crescimento da ocorrência do plágio quando da redação e publicação de textos de forma em geral. Fatos recentes demonstram que o plágio passou a ocupar um maior espaço na sociedade, principalmente em decorrência do acesso a documentos eletrônicos (Anônimo, 2011).

Por exemplo, artigos de química originalmente publicados em revista com revisão por pares (Kuchler & Silva, 1999; Dallago et al., 2005) foram posteriormente noticiados como tendo sido copiados em outra revista (Garcia, 2009). Cópias de dissertações e teses de doutorado foram notificados no Jornal da Ciência (Anônimo, 2009a). Igualmente, promotor de justiça do Distrito Federal admitiu ter copiado partes de outra dissertação de mestrado defendida anteriormente na Universidade de São Paulo (Stanisci, 2011). Outro caso de plágio se deu entre colegas do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (Garcia, 2008). Casos anteriores a estes também são comuns, e ilustram o quanto a prática do plágio pode estar disseminada tanto no meio acadêmico como na sociedade brasileira em geral (Anônimo, 2009b; Bottmann, 2011; Rodrigues, 2008), mas que obviamente não é restrita ao Brasil (Butler, 2010). Tendo em vista tais fatos, a diretriz da CAPES mostra ser pertinente e imperativa. Porém, o plágio é apenas uma pequena fração do que são práticas de fraudes, cópias, referenciamento inadequado, citações de partes de textos e até mesmo “cola” quando da realização de exames de avaliação, preparação de relatórios de atividades, dentre muitos outros tipos de documentos redigidos no âmbito das atividades acadêmicas.

O propósito deste artigo é uma revisão das formas de plágio quando da preparação de textos, bem como as razões pelas quais se observa o plágio, as abordagens de punição que são adotadas quando da descoberta de fraudes desta natureza e a promoção de iniciativas que resultem na prevenção do plágio e de outras formas inadequadas de redação de textos.



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3 respostas

  1. Prezado Roberto
    Estou desenvolvendo um postal sobre plagio academico para divulgar para os novos alunos que estão ingressando na instituição que trabalho e achei muito interessante a ilustração do Escher que vc colocou na sua pagina. Vc sabe me dizer se eu teria que pagar para utilizá-la ou se o uso é livre.
    Att
    Cecilia

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