O Plágio Acadêmico e suas Punições – uma Revisão (Parte V)

O Plágio Acadêmico e suas Punições – uma Revisão

Conclusão

O plágio é um conceito complexo, relacionado à construção cultural da identidade humana (Pennycook, 1996). A noção de plágio deve ser compreendida em seu contexto cultural e histórico, bem como relativamente a práticas culturais alternativas.

Enquanto determinados autores consideram que a inclusão cultural dos estudantes no contexto acadêmico é de primordial importância para que eles percebam e conheçam como se estabelece o universo do conhecimento em que aprendem e trabalham (Macdonald & Carroll, 2006), outros assinalam que tal argumento é inadequado, uma vez que tais premissas apenas apontam para que os alunos aceitem uma visão normativa dos assim chamados padrões acadêmicos, e de como este sistema funciona. Este, por sua vez, falha em levar em consideração a complexidade de fatores envolvidos na elaboração de textos. Consequentemente, a forma como o plágio é comumente tratado seria pedagogicamente questionável e intelectualmente arrogante (Pennycook, 1996).

Embora o plágio seja preponderantemente destacado no meio acadêmico, não se restringe, todavia, a este. Verifica-se plágio no ensino de nível médio, tanto por parte de alunos como por parte de professores, além de ter sido detectado em órgãos governamentais e em instituições públicas. Ao se contratar serviços de empresas que oferecem a redação de documentos como monografias, dissertações e teses, dentre outros, observa-se que muitas destas empresas fazem ampla utilização de plágio nos documentos que oferecem a seus clientes (Maurer at al., 2006).

            Aos professores cabe discutir com os estudantes como as noções de citação, paráfrase e empréstimo textual foram construídas, e como as noções de autoria, autenticidade e autoridade foram simultaneamente estabelecidas (Pennycook, 1996). Porém, para realmente se evitar o plágio deve-se, em primeiro lugar, prover ao estudante e ao profissional acadêmico condições para que estes possam entender e desenvolver habilidades para evitar o plágio (Macdonald e Carroll, 2006). O estabelecimento, a aplicação e a disseminação de regulamentos bem definidos são imprescindíveis para a boa conduta acadêmica. Desenvolver técnicas e métodos de avaliação que minimizem a ocorrência de plágio constituem alternativas pedagógicas bastante inteligentes. A abordagem do problema do plágio no meio acadêmico deve ser encarada de maneira abrangente, buscando integrar as atividades desenvolvidas por alunos, professores e pesquisadores. O plágio deve ser discutido no âmbito destas atividades, de maneira a que todos tomem conhecimento como é importante a valorização da criatividade e originalidade, sem que, todavia, deixem de perceber que a cópia literal, ou ainda modificada, de fragmentos de textos de caráter muito geral, para os quais uma autoria e propriedade sejam inexistentes, pode ser aceita desde que realizada em extensão muito limitada. Levando-se em conta que o aprendizado da linguagem é, de certa forma, o uso da palavra dos outros, é necessário ser flexível, e não dogmático, no estabelecimento dos limites aceitáveis ao empréstimo de palavras.

Apesar das instituições acadêmicas estarem cada vez melhor equipadas com softwares específicos para combater o plágio (Maurer et al., 2006), a eliminação de práticas deste tipo resulta não somente de sua detecção e punição. É necessário incluir uma revisão dos procedimentos educacionais que possam promover a valorização da criatividade e originalidade, em detrimento da cópia. Educadores devem estar preparados para reconhecer as limitações do uso da linguagem escrita como forma de expressão, e reconhecer que a intertextualidade pode se constituir em uma ferramenta útil, desde que utilizada com critério e sabedoria. Cabe às instituições promover um ambiente criativo, de valorização da criação original, e da aplicação de metodologias adequadas de avaliação, para que os elementos participantes da vida acadêmica possam desfrutar dos inúmeros benefícios que resultam destas atividades. A valorização do aprendizado e do conhecimento, boas práticas acadêmicas, em vez de se focalizar em potenciais problemas, e a canalização dos esforços institucionais para a detecção e a punição do plágio, resultam de um trabalho contínuo de aprimoramento da formação profissional do qual toda a sociedade será beneficiária.

Referências bibliográficas

Anônimo 2009a. A polêmica do plágio entre mestres e doutores. JC e-mail 3876, de 26 de Outubro de 2009. Disponível em: <http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=66860&gt;. Acessado em 06 abr. 2011.

Anônimo 2009b. Pesquisadora que violou direitos autorais indenizará vítima de plágio. <http://www.jusbrasil.com.br/noticias/1107616/pesquisadora-que-violou-direitos-autorais-indenizara-vitima-de-plagio&gt;. Acessado em: 16 mar. 2011.

Anônimo 2011. Aumento do plágio em produções científicas preocupa pesquisadores em todo o mundo. O Estado de S. Paulo, 16 de março de 2011. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,aumento-do-plagio-em-producoes-cientificas-preocupa-pesquisadores-em-todo-o-mundo,692874,0.htm>. Acessado em 6 abr. 2011.

Bottmann D 2011. Não gosto de plágio. Disponível em: <http://naogostodeplagio.blogspot.com/&gt;. Acessado em: 06 abr. 2011.

Butler, D 2010. Journals step up plagiarism policing. Nature 466, 167, doi:10.1038/466167a < http://www.nature.com/news/2010/100705/full/466167a.html>. Acessed in 05 may 2011.

CAPES 2011. Orientações Capes – Combate ao plágio. Disponível em: <http://www.unesp.br/cgb/mostra_arq_multi.php?arquivo=7602&gt;. Acessado em: 17 mar. 2011.

Dallago RM, Baibich IM, Gigola C 2005. Catalisador Pd/γ-Al2O3: efeito do tamanho de partícula na atividade catalítica para combustão do CH4. Quim Nova 28, 952-956.

Garcia R 2008. USP condena físicos acusados de plágio. Folha de S. Paulo, 24 Jul 2008. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u448257.shtml&gt;. Acessado em 6 Apr 2011.

Garcia, R 2009. Periódico científico publica dois estudos plagiados na íntegra. Folha de S. Paulo, 7 Maio 2009. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u561841.shtml&gt;. Acessado em Maio 19, 2011.

Küchler IL, Silva, FAM 1999. Método potenciométrico para determinação de cobre em cachaça. Quim Nova 2, 339-341.

Macdonald, R, Carroll, J 2006. Plagiarism – a complex issue requiring a holistic institutional approach. Assess. Eval. High. Educ. 31, 233-245.

Maurer, H., Kappe, F., Zaka, B. 2006. Plagiarism – A Survey. J. Univ. Comp. Sci. 12, 1050-1084.

Paiva, RB 2010. Documento apresentado ao Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil – Ophir Cavalcante Júnior. Disponível em: < http://www.oab.org.br/combateplagio/CombatePlagio.pdf >. Acessado em 06 abr. 2011.

Pennycook, A 1996. Borrowing Others’ Words: Text, Ownership, Memory, and Plagiarism. TESOL Quart. 30, 201-230.

Scollon, R 1994. As a matter of fact: The changing ideology of authorship and responsibility in discourse. World Engl. 13, 33-46.

Scollon, R 1995. Plagiarism and ideology: Identity in intercultural discourse. Language Soc. 24, 1-28.

Stanisci, C. Promotor admite plágio em concurso. O Estado de S. Paulo, 17 fev. 2011. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110217/not_imp680600,0.php&gt;. Acessado em: 06 abr. 2011.

Wagner, NR 2011. Plagiarism by Student Programmers. Disponível em: http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.140.2023&rep=rep1&type=pdf. Acessado em 06 abr. 2011.

Baixe aqui a versão integral deste artigo em português.



Categorias:educação

Tags:, , ,

4 respostas

  1. Roberto,
    Encaminhei seu artigo para a WAME (World Association of Medical
    Editors) da qual faço parte.
    Eia uma resposta a ele.
    Manoel

    Manoel, many thanks. An interesting and thoughtful article.

    At a recent international conference on Medical Education I was speaking
    about plagiarism at high school and undergraduate level and speculating that
    it was so pervasive that we should be considering removing the opportunity
    to plagiarize by looking at other forms of assessment for students that did
    not require ‘open’ written assignments. The point being that for 90% (I
    pulled that figure out of the hat) of qualified doctors ‘competitive’
    written reports will form no part of the subsequent professional life.

    For those who are going to engage in publications for reporting research and
    other academic endeavors, then yes, education on how to avoid plagiarism is
    essential.

    In the ensuing discussion there was an interesting cultural observation from
    a scientist schooled in China who said that a sign of a highly educated
    student was their ability to incorporate into their essays direct quotes
    from learned scholars, poets and philosophers and because of the nature of
    the ‘incorporation’ these would not be attributable or even in quotation
    marks as the more learned class teacher would immediately recognize the
    source! It was an interesting observation as it does indicate that there are
    different cultural values and the Oxford English definition of plagiarism
    may, indeed, not be universally applicable.

    This is the WAME listserve ( ie dealing with Medical Journals) and I would
    be interested to know if there are any figures on what percentage of medical
    graduates do submit articles to such journals in their professional
    life-time? If my totally arbitrary figure of 10% is somewhere in the
    ballpark then perhaps we could consider another approach and here I am in
    total lateral thinking mode…what if every potential author had to complete
    an online certification in publishing ethics BEFORE beginning their
    publishing career? Sounds a little crazy at first but we do have driving
    tests before driving cars etc., what about a publishing test before
    publishing? Just an embryonic thought at this stage but it would certainly
    do away with the ‘ignorance defence’.

    Just a thought!

    Best wishes,

    Andrew
    HK

  2. Oi Prof. Este artigo foi publicado em qual revista?

Deixe um comentário