Impressões sobre Otto Richard Gottlieb – II

Por sugestão do Prof. Fernando Batista da Costa, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), foram a seguir compiladas manifestações de ex-alunos e colegas enviadas à rede de divulgação da química de produtos naturais da Sociedade Brasileira de Química, PN-NET, sobre o Prof. Otto. R. Gottlieb, falecido na última segunda feira.

Prezados colegas,

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento do professor Otto Richard Gottlieb. O cerimonial de despedida ocorrerá amanhã (21 de junho) às 12:00h no Cemitério Comunal Israelita, rua Monsenhor Manoel Gomes, 311, Cajú, Rio de Janeiro.

Nascido em Brno, República Tcheca, em 31 de agosto de 1920, e com cerca de 700 artigos publicados, o professor Gottlieb foi o maior químico de produtos naturais do Brasil. Foi um dos principais responsáveis por formar as bases da fitoquímica no país, tendo contribuído para o desenvolvimento da sistemática bioquímica. Foi o criador da RESEM (Reunião Anual Sobre Evolução, Sistemática e Ecologia Micromoleculares) em 1978, hoje incluída no BCNP (Brazilian Conference on Natural Products). Foi criador e docente de vários cursos de pós-graduação e orientou mais de uma centena de trabalhos de mestrado e doutorado, cujas raízes se espalharam por todas as regiões. No ano de 2000 foi publicado no periódico “Phytochemistry” um fascículo especial em comemoração ao seu octogésimo aniversário.

Em nossa homepage existe um link para uma página criada pelo IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, do Ministério da Ciência e Tecnologia) para homenageá-lo, sendo que o link direto pode ser acessado em:

http://www.canalciencia.ibict.br/notaveis/resumo.php?id=73

Com certeza o professor Gottlieb deixou um legado inestimável para a nossa comunidade em QPN e nossa Divisão o homenageia exaltando suas qualidades em vida.

“A ciência no futuro terá que estar preparada para fornecer respostas para questões ligadas ao funcionamento da natureza, condição essencial para o futuro da vida no nosso planeta”. (O. R. Gottlieb).

Fernando da Costa, Diretor da Divisão de QPN da SBQ

Prezados Colegas

Com imenso pesar recebo esta notícia.

O professor Otto, de maneira aparentemente simples, conseguia incentivar seus alunos a desvendar os mecanismos complexos do funcionamento da natureza.

Gostaria de lembrar a todos que o professor Otto foi, até agora, o único Cientista Brasilero indicado ao prêmio Nobel de Química.

Parabéns ao professor Otto pelo seu legado científico, construido pelas suas andanças por este país, incluindo no roteiro a Universidade Federal da Bahia, onde recebeu o título de Professor Honorário.

Dirceu Martins.

Membro da Comunidade de PN.

Pró-Reitor de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da UFBA

Prezados Colegas

A morte do Dr. Otto chocou toda a comunidade química, com ênfase especial aos químicos de produtos naturais. O grande mestre deve servir de espelho para todos os pesquisadores. Ele atuou na formação científica e moral de muitos de nós, mostrando o espírito de colaboração, transmitindo seus conhecimentos a todos sem cobrança de nada em troca, queria apenas ampliar a ciência no Brasil. Suas aulas, conferências, discussões e participações em bancas de mestrado e doutorado sempre foram excelentes e um “show”, valendo por muitas horas de leitura de bibliografias. Sua capacidade de trabalho era acima da maioria, e com isto atuou em diversas universidades brasileiras e em algum período em mais que uma. Seu carinho pelo Brasil o fez optar pela cidadania brasileira e deve servir também de modelo, inclusive para muitos brasileiros que não dão valor ao nosso país. Sua produção científica sempre foi de alto nível e o número de suas publicações na área de produtos naturais, em torno de 700, é invejável. Tivemos ontem uma grande perda na ciência internacional. Com estas palavras nos despedimos deste grande mestre com tristeza, mas com a certeza de que sua missão foi cumprida.

Antônio Gilberto Ferreira, João Batista Fernandes, Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva e Paulo Cezar Vieira, ex-orientados e eternos admiradores.

Prezados colegas,

Tive o privilégio de ter sido aluno do Prof. Otto no mestrado e no doutorado. Sempre tive grande admiração pelo Prof. Otto, o qual me ensinou muito além da ciência. Sua bondade e carater sempre foram grandes marcas para mim. Seu legado ficará para sempre marcado na ciência brasileira e em nossas vidas.

Um grande abraço à todos.

Jairo Kenupp Bastos

A Química de Produtos Naturais do Brasil está “meio orfã”. Como o Dr. Ian Gamboa disse, também sinto-me “neto” deste grande homem que orientou meus dois orientadores brasileiros (Raimundo Braz Filho e Afrânio Aragão Craveiro) e com quem tive o privilégio de ser co-autor no primeiro trabalho científico da minha vida, com os resultados do meu estágio de iniciação científica. Excelente mestre, envolvente palestrante, renomado cientista, comigo foi sempre muito simples e afável, em contraste com a sua crítica ríspida onde eu sempre via uma “maneira diferente de ensinar”. Vai o homem, mas fica a lenda. Aqui deixo o meu tributo a um grande mito da fitoquímica brasileira Prof. Dr. Otto Richard Gottlieb.

Prof. Edilberto R. Silveira, Ph.D.

Professor Titular DQOI-CC-UFC

Pesquisador 1B CNPq

Prezados Colegas,

Não sou da área de produtos naturais, mas isso não importa porque o Prof. Otto era universal.

Aprendi com ele a universalidade da química.

Seu legado é universal.

Não perdemos seu legado.

Carlos Montanari

Prezados colegas

Não encontro palavras para expressar a minha tristeza ao receber essa notícia. O prof. Otto tinha aquela qualidade dos grandes cientistas, que era a capacidade de transmitir entusiasmo pela pesquisa, de achar “maravilhoso” os progressos dos seus alunos, mesmo que fossem pequenos.

Conheci o prof. Otto já idoso, mas ele transmitia energia e vitalidade quando falava do seu trabalho. As suas aulas eram sempre vibrantes, e ao contrário de muitos, achava que dar aula era um descanso. Era impressionante a sua dedicação ao trabalho. O seu maior legado foi o número de fitoquímicos que ajudou a formar. Eu que fui uma das últimas alunas que ele orientou, via-o como o avô que eu não conheci. É assim que me sinto hoje, como se tivesse perdido o meu avô.

sds

Maria Élida Alves Stefanello

Departamento de Química

Universidade Federal do Paraná

Caixa Postal 19081

81530-900 – Curitiba – PR – Brasil

“Contra  a estupidez os próprios deuses lutam em vão” Schiller.

Caros Colegas,

Foi com muito pesar que tomamos conhecimento da notícia de falecimento do prof. Gottlieb.

É unanimidade que seu trabalho foi de extrema importância para a área de Química de Produtos Naturais, e consequentemente, à ciência em nosso País.

Prof. Dr. José Angelo Silveira Zuanazzi

Professor Associado 3 / Pesquisador CNPq 1D

Vice-Diretor

Faculdade de Farmácia

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Porto Alegre (RS) – Brasil

A Química perdeu o primeiro grande pesquisador brasileiro reconhecido mundialmente. Atualmente a CAPES e CNPq incentivam a internacionalização dos programas e pesquisas brasileiros em busca da qualidade. O Prof. Otto na vanguarda dos acontecimentos, como sempre, atuava no Brasil mas com temas universais. Muito bem lembrado pela Folha de S. Paulo que o Prof. Otto, com uma visão química, sempre apregoou o desenvolvimento sustentado, principalmente em conhecimento de como funciona a natureza.

Como professor, tive a oportunidade de participar de duas disciplinas ministradas pelo grande mestre. Um professor de uma didática excepcional e um tratamento rígido que exigia simplesmente que estudássemos o máximo possível. Gostaria, para diferenciar, de discorrer como eram nossas aulas de biossíntese.  Durante a semana deveríamos estudar profundamente um determinado assunto para, na semana seguinte, durante quatro horas, sem intervalo, tirássemos todas as dúvidas com o Professor. Caso não utilizássemos as 4 horas, o Prof. Otto iria nos inquirir (obviamente dando um show de aula e correção) durante o período restante. Finalmente gostaria de dizer que era brilhante como ele utilizava os recursos do quadro negro (pedra segundo ele…) e que seu Livro de Espectrometria de Massas, depois de 40 anos continua atual e único.

De seu aluno

Jorge M. David

Instituto de Química

Universidade Federal da Bahia

Caros colegas,

Não tive como muitos a honra de ter sido orientado pelo Prof. Otto. No entanto tive o prazer de conhecê-lo de perto quando fiz 2 estágios no IQ/USPnos anos 80. Na época fui diversas vezes com ele e Massayochi almoçar no clube do professor da USP. Era sempre uma áula estar ao lado deles dois.

Era sempre incrível observar a simplicidade do Prof. Otto nas conversas durante esses almoços. As vezes discutíamos (ou melhor eu observava a discussão entre os dois), assuntos relacionados aos produtos naturais.

Outras vezes eram assunto corriqueiros mesmo. Guardarei para sempre na lembrança a satisfação do convívio, mesmo que por pouco tempo com o nossosaudoso Prof. Otto.

Um forte abraço a todos,

Emidio V. L. da Cunha

A mi Tutor:

En mi caso, sin lugar a dudas, cuando la vida me dio la oportunidad de conocer a mi maestro, el  azar dispuso que mi motivación por la ciencia se llenara de luces nuevas. Lo percibí siempre como un náufrago que manoteando esperanzas hizo realidad la química de productos  naturales en Brasil.

Me tocó estar bajo su orientación en un momento mágico de sus elucubraciones. Precisamente, cuando a las neolignanas les dio la gana despertar, para estirar sus sueños y darle un lugar a Brasil relevante en el mundo científico internacional. Inclusive, la generación que vivió esse momento histórico, hoy, con renovados planteamientos científicos, pero subidos en sus hombros, comandan, con identidad propia, el nuevo despertar científico con repercusiones mundiales que vive Brasil  actualmente.

Mientras mis ojos se inundan de tristeza, no puedo olvidar dos situaciones que marcaron mi vida: cuando me dio la llave de su oficina para que leyera con libertad todos los trabajos de investigación que había dirigido y, cuando me extendió un cheque para darle soporte económico a mi familia, mientras decidían en mi país extender mi beca para el doctorado.

Dos gestos conmovedores, ejemplarizantes de la figura de este gigante, que atacó furiosamente la ignorancia con respecto al valor  de la biodiversidad como opción para un desarrollo digno de nuestros países.

Quien no creció bajo su amparo académico y científico, no tiene idea de lo que se  perdió. Marcó un antes y un después científico en este país.

Ahora solo me queda recordarlo en mi intimidad, con esa enorme admiración y respeto que siempre le tuve.

Paz a sus restos, su discípulo de siempre:

Oscar Castro Castillo Ph.D.

Catedrático

Universidad de Costa Rica ­ UCR

Prezados Colegas da Lista Pn-net

É emocionado que acabei de receber a noticia do falecimento do Prof. Otto. Que Deus o tenha no lugar que as grandes personalidades como ele foi merece.

Todos que se dedicam à química dos produtos naturais e mais especificamente a evolução, sistemática e ecologia micromolecular se sentem um pouco órfãos nesse momento.

Para os novatos (Docentes e Discentes) que não tiveram o prazer de conviver de perto com o Prof. Otto não imaginam a grandeza de pessoa, professor, pesquisador, orientador, enfim um cientista completo.

O que o Prof. Otto representou na vida de alguns de nós brasileiros teve repercussão muito importante. Algumas passagens que ficaram registradas por nós que fazemos o PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PRODUTOS NATURAIS E SINTÉTICOS BIATIVOS do LTF/UFPB, encontra-se resumido abaixo:

– O Prof. Otto orientou a Dissertação de Mestrado do Prof. Aderson de Farias Dias e as Teses de Doutorado de Marcelo Sobral da Silva (Prof. Titular da UFPB e Pesquisador 1A do CNPq) e Maria Célia de Oliveira Chaves (Aposentada-UFPB e Pesquisadora 2 do CNPq). Co-Orientou a minha Tese de Doutorado (José Maria Barbosa Filho, Prof. Titular da UFPB e Pesquisador 1A do CNPq) e da Profa. Maria de Fátima Vanderlei de Souza (Profa. Associada da UFPB e Pesquisadora 2 do CNPq).

– Além das orientações acima e várias outras contribuições que ajudaram no desenvolvimento da nossa Pós-Graduação, por iniciativa do Prof. Delby Fernandes de Medeiros, Diretor na época do LTF, foi concedido ao Prof. Otto, o título de Doutor Honoris Causa da UFPB em 1988;

– O Dr. Otto também participou como conferencista do I,II e III SINPRONAT (Simpósio Nacional de Farmacologia e Química de Produtos Naturais) todos realizados em João Pessoa/PB, nos anos 1980, 1985 e 1990, respectivamente;

– Participou também como Conferencista e Presidente de Honra da X RESEM- X Reunião Anual sobre Evolução, Sistemática e Ecologia Micromoleculares, de 01 a 04 de maio de 1988, em João Pessoa/PB. Esse evento científico foi criado pelo Dr. Otto e tivemos a grata missão de promover a décima edição em J. Pessoa.

– Participou como Conferencista e Presidente de Honra do XI Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil, de 12 a 14 de setembro de 1990, aqui em João Pessoa/PB;

– A última participação do Dr. Otto em João Pessoa foi como conferencista de abertura do LII Congresso Nacional de Botânica, realizado em setembro de 2001.

Para ilustrar algumas dessas passagens, encontra-se anexado a esta mensagem um arquivo com algumas fotos do Dr. Otto Richard Gottlieb.

Atenciosamente,

José Maria Barbosa Filho

Meus amigos,

De perdas, muito mais do que de ganhos, é feita a Vida. Mas sem dúvida, algumas perdas são sentidas com muito mais dor do que outras. E, sem dúvida, a perda de um Pai é algo doloroso. Seja ele pai de sangue ou pai científico. Não sou filho científico do Otto, se me permitem essa familiaridade, pois era assim que o chamava e ele aceitava essa minha maneira direta de chamá-lo, coisa de europeus talvez. Jeito meu que nascera num convívio com o Professor numa escola de verão em São Carlos pelos idos de 1984 … acho. O fato é que havia entre nós um respeito mútuo, quem sabe pela ousadia das nossas propostas, quem sabe por alguma química muito particular que fluía entre nós. O fato é que estamos todos órfãos. Não perdemos apenas um pai científico, perdemos um líder, perdemos um inovador, perdemos um pensador cujo magnetismo atraia, cujo carisma seduzia, cujas idéias desafiavam. RIP Professor. Já comecei a sentir a sua falta.

Alphonse Kelecom

Instituto de Biologia -UFF

Conheci o professor Otto em janeiro de 1965 na cidade de Salvador por ocasião de um curso que ele e o Mauro T. Magalhães ministraram com a finalidade de conhecer estudantes interessados em ir para a Universidade de Brasília para fazer mestrado e dar aulas. Depois das maravilhosas aulas, onde eu me perguntava como o professor Otto podia saber qual elétron era o pi e qual era o sigma, mudei o curso da minha vida, desisti de fazer mestrado em Engenharia Química no Rio de Janeiro  e fui para Brasília.

Depois de sair do Instituto de Química Agrícola em 1962, o professor Otto foi para o Instituto Weizmann. Lá estudou entre outras coisas métodos modernos de análise orgânica e pesquisou a química de plantas. Voltando, com o saber na cabeça e as anotações em uma pasta preta viajou pelo Brasil, pais que escolhera para viver, distribuindo conhecimentos fascinantes. Em 1964 foi convidado para ser o coordenador do Instituto Central de Química na UnB, para onde fomos terminado o curso em Salvador. A UnB era um sonho acadêmico no meio da lama, como relata ele para Salmeron (1). Lá, professor Otto reuniu um grupo de estudantes vindo de diversas partes do Brasil, onde lançara a semente da Química de Produtos Naturais que vingou, continua crescendo e dando muitos frutos. Estavam em Brasília, Alaíde, Geovane e Hugo de Minas Gerais; Braz, Robertinho, Gouvan e Afrânio do Ceará; Má, Maria Auxiliadora, do Rio; Guilherme e Jamil do Para, Pimentel de ?? ; e Nidia de Pernambuco, alem dos professores Mauro Taveira Magalhães, Ary Coelho da Silva, Luis Fernando de Carvalho, Jorge de Oliveira Meditsch  William B. Eyton da Inglaterra e por fim Jaswant Raí Mahajan.

Na UnB as aulas práticas eram comandadas pelo Mauro com sua habilidade incrível, as teóricas pelo Otto e por professores convidados como Ben Gilbert e Kiss Brown que nos ensinavam a química orgânica molecular e a análise espectroscópica, coisas que eu nunca vira em meu curso de graduação. Nesses momentos, me sentia como os químicos do século XIX que propunham estruturas moleculares sem saberem o que era o átomo. As colunas cromatográficas coloridas separando as substâncias das plantas amazônicas, que o Professor Otto temia que virassem móveis, dormentes ou pior ainda, lenha, eram admiradas não só por nós como também pelos fotógrafos e jornalistas que  tiravam fotos coloridas, para saírem em branco e preto nos jornais de Brasília.

Como em toda Universidade havia insurreições dos estudantes que não conseguiam acompanhar o nível de excelência das aulas, nessas horas, o Professor Otto tranqüilizava-nos dizendo que com o  tempo e estudo dedicado passaríamos a entender melhor a Química. Mas, como relatou para o Salmeron (2) o clima na UnB começava a ficar pesado. Certa vez, conta le, apanhei um aluno colando. Confisquei a prova e mandei-o sair da sala. Ele, já com a mão na maçaneta, virou-se para mim e disse: “Você vai ver o que vai lhe acontecer, meu pai é um general”.   Com o golpe militar a situação política ficava cada vez pior e nem os concertos da orquestra da Universidade realizados a beira do lago e assistidos por jovens de pullovers coloridos em clima de alegria, amenizava a tensão. O fim chegou antes do imaginado, em outubro vários professores foram demitidos entre eles o Ary. Em assembléia única no auditório dos Candangos na UnB os demais professores pediram demissão. O professor Otto, assim como todos os outros, vendo seu sonho escorrer água a baixo se manteve íntegro. Chamado pelo General Costa e Silva para tentar convencer os outros professores a desistirem da idéia demissionária, não atendeu ao apelo. Fizemos as malas e nos despedimos da Universidade chorando. O Professor Otto voltou a pegar sua pasta preta e a sair pelo Brasil, como caixeiro viajante vendendo conhecimento e paixão pela química. Freqüentou púlpitos de inúmeras universidades brasileiras.

Em 1967, o professor Senise o chamou para coordenar o Laboratório de Química de Produtos Naturais da Fapesp instalado no IQ/USP. Aceitou, mas não largou sua pasta preta, com ela e seu paletó de xadrez continuo viaj ndo pelo Brasil dormindo em hotéis horríveis para ficar mais próximo às universidades e comendo barras de chocolate para não perder tempo. De quinze em quinze dias nós, os estudantes, fazíamos filas para conversar com ele. A autonomia dada, suas aulas maravilhosas e instruções rigorosas nos fizeram crescer e construir uma verdadeira paixão pela Química. Em agosto de 1971 defendi a primeira tese orientada pelo Otto na USP.

Sua vida dedicada ao ensino e a pesquisa da Química de Produtos Naturais levaram pesquisadores brasileiros e estrangeiros a submeterem seu nome à indicação ao premio Nobel.

Há cerca de dez anos o Prof. Otto começou a apresentar sinais de cansaço. Trabalhou muito, com emoção e persistência, em condições precárias, já não era tão jovem, suas idéias no entanto persistiam inovadoras.

Como é difícil sentir o corpo envelhecer e continuar jovem de idéias! Descanse em paz, professor Otto, você merece.

1.  SALMERON, Roberto A. A Universidade Interrompida, Brasília 1964-1965. Editora da UNB, Brasília: 1998.

2. Idem, p. 135

Nidia Franca Roque

São Paulo, junho de 2011

Caríssimos Amigos:

Nosso Querido Otto partiu, mas nos deixou inúmeros amigos que nesses dias frios aqueceram nossos corações com muito carinho e solidariedade. Imaginamos que ele, com toda a sua simplicidade e modéstia, ficaria muito surpreso com tantas demonstrações de apreço.

Ele era uma pessoa com idéias e convicções claras e firmes. Ele tinha a certeza de qual era o assunto que deveria ser estudado em seu país e que para cumprir tal tarefa deveria formar profissionais bem capacitados. As palavras incrivelmente belas de vocês nesses últimos dias demonstram que ele conseguiu formar não apenas grandes pesquisadores mas pessoas íntegras e plenas.

Ele amava o Brasil e a sua riqueza natural, amava o ambiente universitário e especialmente os seus queridos alunos, que, segundo ele, o mantinham jovem e vibrante. Mas, sobretudo, ele amava “o bem mais sagrado que possuímos” (segundo suas próprias palavras): a VIDA!

E, realmente, até os seus últmos instantes entre nós, ele lutou com muita força e muita coragem para conservá-la. Ele enfrentou bravamente os inúmeros desafios, muitos deles bastante pesados, que surgiram durante toda a sua trajetória sem mágoas e nem revoltas. Afinal, como ele mesmo dizia: “eu nunca disse não para uma tarefa antes de tentar realizá-la”.

Ele fechou os seus olhos com toda a serenidade e toda a dignidade que sempre nortearam a sua vida. Manteve a tranquilidade e a paz de quem cumpriu a sua tarefa.

Nosso Querido Otto deixou muito dele conosco mas levou um pouco de cada um de nós com ele.

Caríssimos Amigos, nesse difícil momento de perda, rogamos que vocês mantenham sempre acesa a chama dos sonhos e ideais pelos quais ele tanto lutou, transformando-os em novas e bonitas vitórias!

Muito Obrigada!

Shalon!

Franca Gottlieb e M. Renata Borin

Rio, Junho de 2011.

Também texto da Professora Vanderlan Bolzani (Instituto de Química, UNESP-Araraquara), publicado no boletim da Sociedade Brasileira de Química, aqui.



Categorias:química, química de produtos naturais

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