Em recente postagem no “Blog de Ciência – Laboratório” da Folha de São Paulo, a jornalista Sabine Righetti discute um assunto muito em voga no momento atual: “Impacto social da ciência: como medir?”. De início Sabine faz uma relação direta entre o impacto de uma determinada pesquisa e o número de citações desta pesquisa, mostrando que o impacto (em número de citações) pode ser uma boa medida da importância do estudo. Mas o impacto social de um determinado projeto parece ser muito mais difícil de ser medido. Isso segundo a opinião de Valeria Thiel, consultora da Elsevier, uma das maiores editoras de revistas científicas.
Na postagem de Sabine, segundo levantamento realizado por diferentes instituições, pesquisas da área médica parecem ter uma importância social direta. Outras parecem ter um impacto social local mais direto, mas estes estudos seriam de menor interesse científico em termos mundiais. Será? Será que existe uma relação direta entre um projeto de pesquisa “de alto impacto social direto, local” que não seja de interesse mundial?
Dois aspectos podem ser considerados neste assunto. Em primeiro lugar o impacto social da ciência. Em segundo lugar o impacto da ciência que resulta em soluções de problemas sociais locais. Discuto aqui o primeiro dos dois.
A ciência como geração do conhecimento e busca da verdade na descrição de fatos, observação de fenômenos e realização de experimentos sempre leva a um impacto social. Como bem assinalou o professor Osame Kinouche nos comentários da postagem de Sabine Righetti, o primeiro e mais evidente impacto social da ciência é a formação de estudantes e profissionais bem qualificados. Porém Kinouche apresenta suas reservas quanto a um suposto impacto social da pesquisa em Paleontologia, História, Matemática Pura, Filosofia, Cosmologia, Gravitação Quântica, Física Teórica, Teoria da Evolução, Arqueologia, por exemplo. Então, vamos aos exemplos.
Combinando a pesquisa em Paleontologia e em Teoria da Evolução, poderíamos considerar como o entendimento da distribuição dos fósseis permitiu um melhor entendimento do da vida no planeta Terra. O fascínio por este tipo de conhecimento é tanto que já foi objeto de vários filmes (por exemplo, Jurassic Park 1, 2 e 3) e frequentemente é objeto de debates calorosos sobre a interpretação da ocorrência de fósseis. Na verdade, este é um assunto que frequentemente está na mídia, muito mais do que as descobertas sobre nanomateriais, biodiversidade ou teorias lingüísticas. Assistindo televisão e lendo jornais, eu diria que assuntos de fósseis são tão ou mais divulgados do que a pesquisa no espaço interestelar.
As bancas de jornais mostram que atualmente a quantidade de revistas de divulgação científica sobre história é impressionante. Eu sempre pergunto para os jornaleiros se estas revistas vendem muito, e a resposta é sempre positiva. Ou seja, a pesquisa em história têm um forte impacto social, que é o de prover informações sobre a história, oras.
Matemática pura: bem, se por um lado pouco se sabe sobre a pesquisa neste tema, por outro seria importante relacionar a matemática pura com processos que podem ser entendidos através de modelos matemáticos. Um bom exemplo é a biologia de sistemas “(systems biology), que é uma abordagem para se investigar fenômenos com alto grau de complexidade que está sendo cada vez mais utilizada em, por exemplo, processos biotecnológicos, como a pesquisa em bioetanol. Na verdade, a matemática é muito mais uma ferramenta do que um tipo de fenômeno, ou conceito, que possa ser investigado ou experimentado. Por ser muito abstrata, talvez seja muito pouco compreendida. Mas o Osame sabe muito bem que a matemática pura é absolutamente essencial para se compreender inúmeros processos físicos e físico-químicos, relacionados aos mais diferentes tipos de fenômenos. Ou seja, enquanto que a pesquisa da matemática em si não tenha tanto impacto social, o seu uso como ferramenta certamente têm.
Filosofia: existe pesquisa mais importante socialmente do que a filosofia? A pesquisa sobre ética, por exemplo, que nossos políticos ignoram completamente. Ou pesquisa sobre lógica. Vale a pena conhecer os temas de pesquisa dos professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (http://www.fflch.usp.br/df/site/professores/).
Como dito acima, Cosmologia parece ser um dos temas preferidos da mídia. Pesquisa sobre o espaço interestelar, a possibilidade de se encontrar vida em outros planetas, sobre a descoberta de outros planetas e tipos de corpos no espaço (pulsares, quasares, buracos negros, supernovas, “sistemas solares”, etc), foi e continua sendo um assunto de muito interesse da sociedade. Simplesmente porque as pessoas querem saber o que existe fora da Terra.
O que é gravitação quântica mesmo? Eu não sei. Tampouco conheço muito de física teórica.
Mas quanto à Arqueologia, bom, Indiana Jones que o diga. Criou um mito em torno da arqueologia, por ser esta uma ciência fortemente associada à história da humanidade. E muitos de nós querem saber como foram os povos e as sociedades primitivas, para podermos entender porque estamos hoje aqui do jeito que estamos. Aliás, estudo da revista Nature desta semana mostra que nunca a sociedade humana foi tão pacífica quanto atualmente, por mais incrível que possa parecer.
Ou seja, a ciência em si tem um impacto social muito difícil de ser medido, na geração de conhecimento, na formação de opiniões, na mudança de comportamento, na saúde, nos novos conceitos. Quem poderia imaginar o enorme impacto social que a invenção dos computadores por volta da metade do século XX poderia ocasionar?
É interessante notar que Pasteur, por exemplo, abandonou seus estudos sobre cristais e a estrutura das moléculas para se dedicar à pesquisa de caráter muito mais aplicado, como a fermentação microbiológica e a microbiologia. Quando Van’t Hoff e Le Bel descreveram a estrutura tetraédrica do átomo de carbono, Pasteur lamentou-se profundamente em ter abandonado seus estudos sobre cristais e estruturas moleculares. Tinha certeza que poderia ter feito a descoberta de Van’t Hoff e Le Bel antes deles. Pasteur aparentemente não conseguiu vislumbrar o impacto científico e social de suas descobertas.
Quem imaginava que o programa Pró-Álcool dos anos 70 no Brasil, praticamente abandonado durante os anos 80, iria se tornar o ponto de partida para a pesquisa de combustíveis alternativos atualmente tão na moda?
Está mais do que provado que países que tem grande investimento em educação e ciência são aqueles que melhor conseguem resolver seus problemas, enfrentar crises e serem desenvolvidos. Toda a ciência tem um enorme impacto social, direta ou indiretamente. O que é aparentemente difícil é vislumbrar este impacto de maneira clara e evidente.
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Acho que um dos problemas é conceituar impacto social. Suponho que normalmente desconsidere-se a questão de mudança de visão de mundo e se concentre em aumento do bem estar social: notadamente em parâmetros sanitários.
[]s,
Roberto Takata
Esta é uma visão bem limitada. BEM limitada.
Oi, Robertos (Berlinck e Takata 🙂
Outra questão é a distribuição desse “impacto social” da Ciência, não?
Distribuição?
Sim, distribuição. Ou se preferir, apropriação desse “impacto” pela sociedade. Parece que as benesses da ciência não chegam uniformemente a todos, e mesmo dificilmente chegam, para certas camadas da população.
Bom isso não é de responsabilidade da ciência ou dos cientistas, e sim dos administradores (gestores) do sistema social. Se estes não consegem fazer com que a sociedade se “aproprie deste impacto” ou das “benesses da ciência”, não deveriam ser re-eleitos.