Revisto o filme dirigido por Bernt Capra, irmão do autor do livro homônimo “Ponto de Mutação” (The Turning Point de Fritjof Capra), pode-se dizer que seja uma obra sutil, ao mesmo tempo provocadora e poética. Bernt usou o livro do irmão para filmar, em um cenário quase místico, o Mont Saint-Michel, na França, um longo diálogo entre um político (Sam Waterson), um escritor (John Heard) e uma física (Liv Ullmann). Diálogo este sobre quase tudo, ambientalismo, consumismo, política, economia, física, química, matemática, biologia, ecologia. Os muitos argumentos apresentados pela física Sonia Hoffmann (Liv Ullmann) são questionados pelo candidato fracassado às eleições presidenciais dos EUA, Jack Edwards (Sam Waterston). O escritor Thomas Harrimann (John Heard) pontua tanto os argumentos de Sonia quanto os questionamentos de Jack de maneira elegante e irônica, recitando poemas e citando frases.
Se por um lado o diálogo do filme impressiona, por outro o filme talvez tente ilustrar outras facetas dos atores que ali estão. Não os atores que fazem o filme. Mas os atores sociais: o cientista, o político e o escritor. A forma irredutível como Sonia apresenta suas idéias chega, por vezes, a ser irritante por sua irredutibilidade. Incisiva, insistente, contundente é Sonia. Jack questiona, como bom negociador, tentando entender os argumentos de Sonia e trazê-los para a vida real, para a sociedade, para o mundo. Entre um e o outro, Thomas recita sua aparente loucura sã, distante e presente, que leva o espectador a uma tensão permanente entre a cientista e o político através da poesia.
A cientista longe da filha, mas aparentemente tão convicta das necessidades de se rever a forma como a humanidade e seus representantes estão fazendo a história. O político hesitante que, ao questionar o conhecimento e a razão, parece questionar a si mesmo. E o poeta que não é nem um nem outro, e se afasta para sua arte que parece ser a razão de viver. O conteúdo do diálogo parece ser apenas uma justificativa para a existência dos três atores. Ou seria o contrário?
Ponto de mutação é um filme de 1990. Outra apreciação deste filme, que permite várias, aqui.
Categorias:ciência, educação, informação, política científica
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