Notícias sobre a publicação de resultados de pesquisa sobre o vírus da gripe aviária tomaram conta dos meios de discussão científica nesta semana. Conforme foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo
Risco de bioterrorismo pode aumentar após censura de revista científica
Uma série de laboratórios em todo mundo pode transformar o vírus da gripe aviária em armas de bioterror capazes de provocar uma pandemia humana. Os esforços do governo norte-americano para censurar a pesquisa devem apenas aumentar o risco de que elementos perigosos tentem usar o vírus como arma.
Especialistas afirmam que uma exigência sem precedentes do Painel Consultivo para Biossegurança (NSABB), dos Estados Unidos, para que a revista científica ‘Science’ não divulgue detalhes da pesquisa sobre a gripe aviária H5N1 não deve deter as pessoas mal-intencionadas.
Ironicamente, o fato de o potencial do H5N1 ter se tornado manchete pode dar ideias a pessoas erradas. “Qualquer coisa assim tem o potencial de dar ideias a rebeldes”, disse Peter Openshaw, diretor do centro para infecção respiratória e do Imperial College, da Grã-Bretanha. “Há muitas pessoas loucas por aí e há também pessoas com ideias fixas na extremidade da norma política. Os dois grupos têm o potencial de causar danos.”
A gripe aviária H5N1 é bastante letal a pessoas que forem contaminadas diretamente por aves infectadas. Desde que o vírus foi detectado pela primeira vez em 1997, cerca de 600 pessoas o contraíram e mais da metade delas morreu. Até agora, no entanto, ele não sofreu mutação para uma forma capaz de ser disseminada facilmente de pessoa a pessoa.
Cientistas de todo mundo têm trabalhado há anos tentando descobrir quais mutações dariam ao H5N1 a capacidade de se espalhar com facilidade de uma pessoa para outra e ao mesmo tempo manter suas propriedades letais.
Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA financiaram dois grupos de pesquisa, um na Holanda e outro no Estado norte-americano de Wisconsin, para estudar como o vírus pode ser mais transmissível em humanos. O objetivo era saber como conter uma ameaça à saúde pública no caso de uma mutação natural, mas agora o NSABB diz que quer censurar a publicação dos estudos para impedir que a informação caia em mãos erradas.
“É um trabalho muito importante que mostrou com relativa facilidade que é possível transformar o H5N1 em um vírus transmissível de mamífero para mamífero”, disse Openshaw.
EUA censuram pesquisa sobre gripe aviária por medo de uso terrorista
Cientistas do Centro Médico Universitário Erasmo de Rotterdam aceitaram publicar de forma parcial os resultados da pesquisa sobre a gripe aviária, censurada pelos Estados Unidos por medo de que seja usada para elaborar armas biológicas. “Os pesquisadores de Rotterdam têm dúvidas sobre a recomendação do conselho assessor para a biossegurança dos Estados Unidos, mas a respeitarão”, assinalou o instituto.
O órgão americano recomendou que a revista “Science” não publique a metodologia usada pelos virologistas holandeses, porque poderia chegar a mãos terroristas e ser usada para fabricar armas biológicas.
Dirigida pelo virologista holandês Ron Fouchier, a pesquisa descobriu cinco mutações genéticas que o vírus H5N1 pode sofrer para contaminar as pessoas, o que poderia ter altos riscos para a saúde pública. O objetivo do estudo, financiado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, era obter a informação necessária para evitar uma possível pandemia originada por essa variação da gripe, que antes só era transmitida entre aves ou entre animais e pessoas. Fouchier declarou que agora sabem quais as mutações que devem ser analisadas em caso de surto, para poder evitá-lo.
Os resultados da pesquisa podem ser uma arma de dois gumes porque de um lado estabelecem as bases para elaborar novos remédios e vacinas, mas de outro fornecem informação necessária para criar um vírus letal. Ao censurar a metodologia, os especialistas querem evitar a publicidade sobre como chegar a essa perigosa mutação.
A revista Science Insider da American Association for the Advancement of Science (AAAS) publicou o debate sobre este assunto, e sobre a pertinência de se censurar dados ou artigos potencialmente perigosos para a sociedade. O Departamento de Serviços Humanos e da Saúde do Instituto Nacional da Saúde (NIH, National Institutes of Health) dos EUA recomendou que detalhes experimentais importantes sobre a modificação genética do vírua H5N1 fossem omitidos das publicações submetidas à Science e à Nature.
Os pesquisadores que desenvolveram a pesquisa não concordaram com as recomendações da agência americana, mas mesmo assim seguirão as recomendações propostas.
Por sua vez, a revista Science solicitou ao governo dos EUA que estabeleça um plano de ação para que os detalhes experimentais dos estudos realizados possam ser disponibilizados para pesquisadores que queiram reproduzi-los ou dar continuidade às pesquisas
O fato é que a manipulação genética de vírus altamente patogênicos é muito controversa. Muitas pessoas acham que a pesquisa nem deveria ter sido permitida ou financiada.
Aparentemente este é um assunto complexo, que necessitaria ser melhor discutido. E você, leitor(a), o que pensa sobre o financiamento e a publicação de pesquisas envolvendo manipulações de linhagens de vírus e outros micro-organismos de extrema patogenicidade, que podem eventualmente causar uma grande epidemia?
Categorias:ciência, educação, informação
Como assim censurado???
Concordo com a decisão! Um bom exemplo é o filme “Contágio” que retrata bem o caos estabelecido na sociedade por conta de um vírus. Estamos vuneráveis e diante de um perigo maior diversas fraquezas escondidas tornam-se cruciais para fortalecer a epidemía causada por um vírus mortal…