Ambiente, sustentabilidade e inovação

É interessante ler os jornais de início de ano. Via de regra há mais notícias ruins do que boas (mas acho que é regra todos os dias). Para manter a tradição, algumas da Folha.com. A primeira é de ontem, 1/1/2012.

Para ambiente, 1º ano de Dilma é pior que o de Collor – Claudio Angelo (Brasília)

Presidente da conferência Rio +20, Dilma Rousseff teve uma atuação apagada na área ambiental em seu primeiro ano de governo. Sob alguns aspectos, pior que a de Fernando Collor, em cujo governo aconteceu a Eco-92. Dilma não criou nenhuma unidade de conservação em 2011; em 1990, seu primeiro ano de mandato, Collor criou 15. O desmatamento em 1990 caiu 22% em relação ao ano anterior, o dobro da queda estimada para 2011 –embora Dilma esteja melhor nos números absolutos de desmate.

Diante da repercussão internacional da polêmica obra da usina hidrelétrica de Cararaô, no rio Xingu, Collor engavetou o projeto. Dilma o ressuscitou, sob o nome de Belo Monte, concedendo-lhe a licença de instalação mesmo sem o cumprimento de todas as condicionantes impostas pelo Ibama.

Unidades de conservação e terras indígenas são indicadores importantes do desempenho ambiental de um governo, pois elas mexem na estrutura fundiária e em interesses econômicos nas regiões onde são criadas. Enquanto ministra da Casa Civil do governo Lula, Dilma represou a criação de novas unidades, especialmente na Amazônia, submetendo-as ao crivo do MME (Ministério de Minas e Energia). Na Presidência, manteve o ritmo. Seu governo é o primeiro desde FHC-1 (1995-1998) a não criar áreas protegidas no primeiro ano de mandato. Um refúgio da vida selvagem no Médio Tocantins, por exemplo, está com sua proposta de criação parada no MME, que tem interesse em construir na região a hidrelétrica de Ipueiras -um projeto que o Ibama já havia considerado inviável do ponto de vista ambiental.

O governo também cortou 30% do orçamento do Instituto Chico Mendes, órgão gestor das unidades.

SEM CLIMA

O primeiro ano de Dilma passou sem avanços na agenda de mudança climática. Conforme a Folha mostrou, o governo não fez quase nada para implementar em 2011 a meta brasileira de cortar até 39% das emissões de gás carbônico em 2020 em relação à tendência de crescimento atual dos gases. “O pacote de mudança climática ela recebeu pronto do governo Lula. Não avançou nem regrediu”, disse Nilo Dávila, do Greenpeace. “Em outras coisas, ela deu continuidade para o mal.”

Ele se refere ao maior retrocesso legislativo na área ambiental: a Lei Complementar 140, que reduz o poder de fiscalização do Ibama. Pelo texto aprovado no Senado em outubro, a competência de multar crimes ambientais é do ente federativo (União, Estado ou município) que licencia. Como desmatamentos são sempre licenciados pelos Estados, autuações feitas pelo Ibama poderão ser anuladas pelas secretarias de Meio Ambiente estaduais.

Em 2009, durante a cúpula do clima de Copenhague, quando o enfraquecimento do Ibama foi inserido no projeto durante sua votação na Câmara, o presidente Lula se comprometeu a vetá-lo. Dilma concordou com a promessa. Mas, no dia 8 deste mês, durante outra cúpula do clima, em Durban, a presidente sancionou o texto. Questionado pela Folha, o Planalto deferiu a resposta ao Ministério do Meio Ambiente. Este disse que, “na prática, o Ibama continua atuando normalmente”.

Sobre a falta de criação de unidades de conservação, o ministério afirmou que está revendo a Estratégia Nacional de Conservação da Biodiversidade, com a definição de critérios para a proposição de novas áreas protegidas.

O duro é ver a propaganda partidária do governo nos últimos dias, defendendo uma agenda de desenvolvimento sustentável e de defesa do meio ambiente.

Vamos à de hoje, 2/1/2012.

Ronaldo Lemos: Brasil fala muito e faz pouco sobre inovação

O modelo de desenvolvimento do Brasil vem flertando com o século XIX: o fantasma da desindustrialização ressurge e o país parece contente como fornecedor de matérias-primas. Apesar disso, nunca se falou tanto em “inovação”. Só na Folha o termo apareceu 776 vezes em 2011 contra 355 em 2005. O tema está na pauta.

Enquanto falamos, outros países fazem ações concretas. A cidade de Nova York acaba de anunciar a conclusão do impressionante processo para criação de um instituto de ciências aplicadas. O vencedor foi um consórcio da universidade de Cornell com a israelense Technion (Columbia e Stanford foram derrotadas). O projeto é de US$2 bilhões e quer transformar o pouco conhecido bairro de Roosevelt Island (onde funcionou uma prisão e um hospital de varíola) em competidor do Sillicon Valley.

O Japão segue a mesma linha. Em novembro de 2011 inaugurou o Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa. Liderado por cinco prêmios-Nobel, aboliu “departamentos”. A ideia é a mistura: especialistas de áreas diversas trabalham juntos. Quer colocar o Japão de volta ao trilho tecnológico.

Os projetos impressionam, mas têm um ponto fraco. Ainda falta criar no mundo um centro de inovação tecnológica voltado para a base da pirâmide: os 5 bilhões de pessoas que não têm dinheiro para comprar Apple, mas nem por isso vão deixar de consumir e se beneficiar da tecnologia. É aí que está o futuro do consumo tecnológico e onde a inovação é pouco explorada. Os mercados no topo da pirâmide estão saturados (e vão ficar ainda mais com as duas novas instituições). É uma oportunidade para o Brasil liderar e incluir a tão falada inovação no seu modelo de desenvolvimento.

Ronaldo Lemos esqueceu de contar que neste primeiro ano de governo Dilma o Ministério de Ciência e Tecnologia mudou de nome: para Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Porém, o que foi feito efetivamente pelo MCTI para realmente promover a inovação neste primeiro ano de governo Dilma? O que foi muito veiculado na mídia é se criar incentivos para a produção de tablets no país. Seria esta iniciativa realmente inovação?

Segundo John H. Marburger III,1 o conceito inovação parece estar vinculado às necessidades momentâneas, seja de forma “real”, ou que é criada. Necessidades “reais” são aquelas que parecem ser evidentes, mas poucos são os inovadores que as percebem e buscam formas de as satisfazer. Um exemplo: a criação da www (world wide web) nasceu da necessidade de cientistas se comunicarem. A criação da www resultou de uma tremenda inovação, que depois foi transferida para a sociedade. Outro tipo de inovação é a “necessidade criada”. Muitos dizem que o iPAD é uma necessidade criada pela Apple. Ou seja, ninguém precisava de um iPAD até estes serem criados.

Ainda segundo Marburger III,1 um desafio de inovação interessante é o desenvolvimento de tecnologias para a obtenção de fontes de energia realmente sustentáveis. Outro é a exploração de recursos naturais também de forma realmente sustentável. Estes dois desafios terão que ser inevitavelmente abordados em um futuro não muito distante, se quisermos continuar a ter desenvolvimento e competitividade. Estou de acordo com o autor quando afirma que

É evidente que diretrizes e políticas de desenvolvimento que causam a destruição de sistemas ambientais economicamente relevantes, que levam à mudanças globais prejudiciais e que minam as bases de recursos naturais, são más diretrizes e políticas de desenvolvimento.

Marburger III ainda ressalta que um dos principais gargalos para se criar uma cultura de inovação é a educação de boa qualidade. Esta constitui a base de formação de cientistas e inovadores. A partir do momento em que se estabelece uma comunidade de pesquisa e inovação, ainda que pequena, os padrões de desempenho e de avaliação naturalmente melhoram. E os benefícios sociais da aplicação e uso do conhecimento gerado da pesquisa se farão perceptíveis, incrementando a inovação em diferentes setores da sociedade. Educação e comunicação constituem a chave para se promover inovação. Inovadores devem, sobretudo, ter uma excelente formação para reconhecer formas de conhecimento útil no meio do conhecimento já disponível. E desfrutar de um amplo espectro de conhecimento para que surja a inovação.

A respeito disso, vale a pena escutar o podcast de Ronaldo Lemos, na página da Folha.com (veja aqui), que fala de algumas iniciativas para se promover a inovação em andamento nos EUA (apesar da crise, ou para ajudar o país a sair dela).

O autor do artigo ainda assinala que o que a inovação parece prescindir é de um governo que estabelece marcos regulatórios em excesso, que inibem muito mais do que favorecem a atividade de inovação. Inovação requer MUITA LIBERDADE. E iniciativas inovadoras que não são bem sucedidas devem ser reconhecidas e serem deixadas a desaparecer, sem que sua manutenção seja forçada, pois não constituem uma real inovação.

Para que o Brasil possa ter um sistema de inovação realmente eficaz, é necessário, no meu ver, se considerar duas premissas básicas. Em primeiro lugar, forjar um sistema educacional de alta qualidade. Não basta que se incentive a formação de profissionais apenas nas últimas etapas de formação. É necessário que a base da formação seja muito sólida. Em segundo lugar, que se estabeleça uma cultura da inovação, com todas as implicações de uma iniciativa desta natureza: liberdade de investigação e criação, valorização do conhecimento, acesso à informação de qualidade e fomento de atividades de comunicação e troca de ideias que estão no cerne das tão mencionadas, mas ainda tímidas, noções de trans-, multi- e interdisciplinaridade.

Referência

1. Marburger III, J. H., Science, technology and innovation in a 21st century context, Policy Sciences, 2011 (DOI 10.1007/s11077-011-9137-3).



Categorias:ciência, educação

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1 resposta

  1. Realmente, Educação básica de boa qualidade e fundamental, porque ´é daí que se projeta uma consciência sólida do ponto de vista para uma boa formação, assegurando perspectivas de um conhecimento efetivo, que venha a fortalecer a plenitude da intelectualidade, com iniciativas voltadas para a sustentabilidade-preservação do meio ambiente e das questões sócios culturais do país.

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