Claraboia

O novo/antigo livro de José Saramago, recentemente publicado, foi originalmente escrito antes dos 30 anos do autor. Aproximadamente aos 30, Saramago o enviou para uma editora, que não manifestou interesse, não publicou e não devolveu o manuscrito ao autor. Com o reconhecimento, a editora voltou a procurar Saramago nos anos 1980. Porém, ele não aceitou a publicação naquele momento, autorizando-o somente depois de sua morte.

O livro é bem diferente das obras posteriores e de grande valor literário de Saramago. Não se vislumbra traço do estilo que o consagrou, com longos períodos, muitas vírgulas, detalhamentos e uma narrativa intensa. “Clarabóia” é um livro mais leve, com estilo menos arrojado. Embora particularmente eu o considere muito inferior aos livros mais recentes, está longe de ser um livro ruim. Muito pelo contrário. O interessante do romance é a sua estrutura. Esta sim, lembra muito a estrutura de “Memorial do Convento”, por exemplo.

Algumas passagens que são, na minha opinião, pequenas jóias.

“Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas como andas, em cuecas e camisola, a trunfa de cabelo manchados de sal-e-pimenta (…)”

“d. Carmen que respondia na sua língua de trapos, alternando palavras espanholas com frases portuguesas e deixando estas a escorrer sangue na pronúncia.”

“Rolando por montanhas e planícies, despertando ecos nas grutas sombrias e nas cavidades das árvores antigas, lançando na noite mil ressonâncias trágicas, os gemidos aproximavam-se e o seu gemer já era chorar e cada lamento uma lágrima caindo como um punho cerrado, com a força de um punho cerrado.”

“Atravessando as paredes e subindo até as estrelas, ficou a música, o andamento lento da Heroica, clamando a dor, clamando a justiça da morte do homem.

Os últimos compassos da Marcha fúnebre tombavam como violetas no túmulo do herói. Depois, uma pausa. Uma lágrima que desliza e morre. E, imediatamente, a vitalidade dionísica do Scherzo, ainda pesado da sombra do Hades, mas fruindo já a alegria da vida e da vitória.

(…)

A sinfonia, como um rio que desce a montanha, alaga a planície e se afunda no mar, acabou na profundidade do silêncio.”

“Depois, foi o jantar. À volta da mesa, quatro mulheres. Os pratos fumegantes, a toalha branca, o cerimonial da refeição. Para aquém – ou talvez para além – dos rumores inevitáveis, um silêncio espesso, confrangedor, o silêncio inquisitorial do passado que nos contempla e o silêncio irônico do futuro que nos espera.”

“Sem dúvida, a mãe não perdera nada do seu conceito: via-a talqualmente antes.”

E o final é soberbo.



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