Paradoxos

A relação entre pesquisa, produtividade científica e acesso à internet nunca foi tão direta quanto atualmente. A disponibilidade da informação on-line tornou a internet uma ferramenta imprescindível para pesquisadores científicos e suas atividades. Artigo de Thomas Lin, articulista do jornal The New York Times, ilustra a importância da internet na vida dos pesquisadores, discutindo revistas de acesso aberto (open Access) e a criação de redes sociais para a interação de pesquisadores e cientistas.

Internet amplia acesso às pesquisas científicas – Thomas Lin (The New York Times – Folha.com)

Há séculos, a pesquisa científica é feita em particular, e então apresentada a publicações para ser revisada por outros cientistas e, mais tarde, é publicada. Mas, para muitos cientistas, o sistema parece antiquado, caro e elitista. A revisão por pares pode demorar meses, as assinaturas de publicações costumam ter custo exorbitante, e um punhado de guardiões limita o fluxo das informações ao grande público. É um sistema ideal para partilhar informações, disse o físico quântico Michael Nielsen, desde que “você se atenha às tecnologias do século 17”.

Nielsen e outros defensores da “ciência aberta” afirmam que a ciência pode realizar muito mais, com mais rapidez, no ambiente livre de atritos da colaboração via internet. E, apesar do ceticismo de muitos pesquisadores, suas idéias estão se espalhando.

Nos últimos anos, surgiram arquivos e publicações com livre acesso, como o arXiv e a Biblioteca Pública de Ciências (PLoS, na sigla em inglês). O GalaxyZoo, um site de ciência-cidadã, já classificou milhões de objetos espaciais, descobrindo características que levaram a uma série de trabalhos científicos. E uma rede social chamada ResearchGate – onde os cientistas responder a perguntas de colegas, partilhar trabalhos e encontrar colaboradores -está rapidamente se popularizando. Editores de publicações tradicionais dizem que a ciência aberta, na teoria, parece boa. Mas, na prática, “a comunidade científica em si é bastante conservadora”, disse Maxine Clarke, editora-executiva da revista “Nature”, acrescentando que a publicação de trabalhos na forma tradicional ainda é vista como “uma unidade na concessão de verbas ou na avaliação de empregos e cargos”.

Nielsen, 38, que largou uma bem-sucedida carreira científica para escrever “Reinventing Discovery: The New Era of Networked Science” (“Reinventando a Descoberta: a Nova Era da Ciência em Rede”), admitiu que os cientistas estão “muito inibidos e lentos para adotar muitas ferramentas on-line”, mas acrescentou que a ciência aberta está se aglutinando para virar “meio que um movimento”.

O ResearchGate, com sede em Berlim, foi ideia de Ijad Madisch, 31, virologista e cientista da computação formado em Harvard. “Quero tornar a ciência mais aberta”, disse ele. Criada em 2008 com poucos recursos, a rede hoje reúne 1,3 milhão de membros, segundo Madisch, e já atraiu milhões de dólares em investimentos. O site é uma mistura de Facebook, Twitter e LinkedIn, com páginas de perfil, comentários, grupos, listas de vagas profissionais e botões de “curtir” e de “seguir”, embora só cientistas possam fazer e responder perguntas. Ele também tem um atalho para o restritivo acesso às publicações. Como a maioria das revistas autoriza os cientistas a colocarem em seus sites links para trabalhos apresentados por eles próprios, Madisch estimula seus usuários a fazerem isso nos seus perfis do ResearchGate.

 Greg Phelan, chefe do Departamento de Química da Universidade Estadual de Nova York, em Cortland, usou o site para encontrar novos colaboradores, receber orientação de especialistas e ler artigos acadêmicos que não estavam disponíveis por intermédio da sua pequena universidade.

Alterar o “status quo” – abrindo dados, trabalhos, sugestões de pesquisa e soluções parciais – ainda é algo mais para ideia do que para realidade. Como argumentam as publicações estabelecidas, elas oferecem um serviço crucial, que não sai barato. “Temos de cobrir os custos”, disse Alan Leshner, editor da “Science”, uma revista sem fins lucrativos. Esses custos rondam os US$ 40 milhões por ano, para bancar 25 editores e redatores, o pessoal de produção e de vendas, e escritórios na América do Norte, na Europa e na Ásia, sem falar dos gastos com impressão e distribuição.

Periódicos abertos e com revisão por pares, como a “Nature Communications” e a “PLoS One”, cobram taxas dos autores publicados – US$ 5.000 e US$ 1.350, respectivamente – para arcar com suas despesas, mais modestas.

Madisch admitiu que talvez jamais atinja muitos cientistas renomados para os quais as redes sociais podem parecer uma perda de tempo. Mas espere, disse ele, até os cientistas mais jovens, acostumados às redes sociais, começarem a comandar laboratórios. “Se anos atrás você dissesse: ‘Um dia você vai estar no Facebook compartilhando todas as suas fotos e informações pessoais com os outros’, não iriam acreditar em você”, disse ele. “Estamos só no começo. A mudança está vindo rapidamente.”Leshner concorda que as coisas estão se mexendo. “Será que o modelo das revistas científicas será o mesmo daqui a dez anos? Duvido muito, acredito na evolução.”

Por outro lado, quase na contramão, em seu novo livro “A Geração Superficial” o jornalista Nicholas Carr argumenta que a internet atua no comércio da distração. Este é outro artigo, mas da Folha.com de hoje.

Segundo jornalista americano Nicholas Carr, a internet pode ser capaz de homogeneizar as fronteiras culturais – Elisangela Roxo (São Paulo)

O jornalista americano Nicholas Carr acredita que a internet não estimula a inteligência de ninguém. Ele fez um apanhado teórico sobre a superficialidade que a web provoca no livro “A Geração Superficial – O que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros”, lançado agora no Brasil pela Agir. Na obra, o autor explica descobertas científicas sobre o funcionamento do cérebro humano e teoriza sobre a influência da internet sobre nossa forma de pensar. Graças a este livro, Carr se tornou referência quando o assunto é oposição aos avanços e às possibilidades criadas pela internet. Para ele, a rede torna o raciocínio de quem navega mais raso, além de fragmentar a atenção de seus usuários.

Mais: Carr afirma que há empresas obtendo lucro com a recente fragilidade da nossa atenção. “Quanto mais tempo passamos on-line e quanto mais rápido passamos de uma informação para a outra, mais dinheiro empresas de internet, como Google e Facebook, fazem”, avalia. “Essas empresas estão no comércio da distração e são experts em nos manter cada vez mais famintos por informação fragmentada em partes pequenas. É claro que elas têm interesse em nos estimular e tirar vantagem da nossa compulsão por tecnologia.”

A crítica de Carr começou com o artigo “O Google Está nos Deixando Mais Burros?”, publicado em 2008 na revista “The Atlantic Review”. A repercussão foi tamanha que a história virou livro.

No ano passado, a obra figurou entre as mais vendidas nos EUA e foi finalista da categoria de não ficção do Prêmio Pulitzer, o “Oscar literário”. O livro foi traduzido para mais de 20 línguas. Segundo Carr, a internet, com seu alcance ilimitado, pode ser uma ameaça às fronteiras culturais. “Nosso uso de tecnologia é influenciado por normas sociais e culturais. Mas, a longo prazo, a tecnologia tende a homogeneizar tudo. Ela já começa a apagar as diferenças culturais e estimula um uso padrão em todo o lugar”, ressalta Carr. “Acho que, ultimamente, a internet é usada de forma igual, com efeitos semelhantes, independentemente do lugar e da cultura.”

Para tentar recuperar o raciocínio perdido, o próprio jornalista resolveu se desconectar um pouco. Fechou suas contas no Facebook e no Twitter e mantém apenas a atualização de um blog pessoal. Carr afirma não ter interesse em voltar para nenhuma das duas redes sociais. Ele as considera fontes de “limitação do pensamento”. Apesar disso, o autor aderiu recentemente à nova rede social do Google, o Google+, que diz ter achado “muita chata”. “Entrei porque escrevo sobre tecnologia e quero entender esse serviço. Apesar de não ser tão banal quanto o Facebook, espero poder encerrar logo minha conta.”

É realmente curioso como dois argumentos de tanta importância no contexto atual possam ser quase que virtualmente opostos. Ao ressaltar as virtudes da internet, e suas múltiplas possibilidades, o artigo de Thomas Lin mostra que talvez o uso de ferramentas como o ResearchGate, a Academia.edu, o ResearcherID, e outras, sejam absolutamente imprescindíveis e inevitáveis para pesquisadores e cientistas.

Por outro lado, o artigo sobre Carr mostra que este pode não ser o caso.

O fato de pesquisadores e cientistas serem considerados “conservadores” com relação às ferramentas on-line, principalmente de estarem “plugados” nas redes sociais, pode ser conseqüência destes pesquisadores e cientistas, em grande parte, não terem sido formados nesta era em que parece ser mais importante trocar frases de 140 caracteres e visitar perfis de pessoas que nem se conhece. Mas, seria isso conservadorismo ou maturidade? De certa forma, os pesquisadores e cientistas dispõem de muito pouco tempo para perder com atividades que não estejam diretamente relacionadas à seu trabalho, para que, inclusive, possam se desconectar de vez em quando e exercitar sua criatividade.

Tenho sérias dúvidas se tais iniciativas de redes sociais científicas vão realmente vingar.



Categorias:ciência, divulgação científica, publicações científicas

Tags:, , ,

Deixe um comentário