Pós-doutoramento aonde?

O pós-doutorado é uma etapa da formação profissional do acadêmico que foi implantada apenas recentemente no Brasil, enquanto que nos EUA e na Europa o pós-doutorado existe há várias décadas e é considerado fundamental para aqueles que querem seguir na carreira acadêmica. Por prescindir da elaboração de uma tese, o pós-doutorado é um momento especial na carreira do pesquisador, em que pode se dedicar integralmente a desenvolver projeto(s) de pesquisa, de forma intensa e aprofundada. Por isso, muitos acadêmicos que coordenam grupos de pesquisa buscam doutores recém-formados para seus grupos de pesquisa, para conseguirem suporte e mais agilidade na condução de seus projetos junto com alunos de iniciação científica e pós-graduação. Isso porque frequentemente os pesquisadores de pós-doutorado acabam por assumir parte das responsabilidades do coordenador de grupo, o que é muito importante para aqueles doutores que buscam experiência para se inserir na carreira acadêmica.

No entanto, seria absolutamente necessário que os recém-doutores candidatos a pós-doutorado deixassem o grupo de pesquisa onde realizaram sua pós-graduação? Ou mesmo a instituição onde obtiveram seu título de doutor, para necessariamente trabalharem em outro local, muitas vezes longe de seu local de origem?

Este é o questionamento levantado por Mark S. Cohen (Semel Institute for Neuroscience and Human Behavior, UCLA, EUA), em carta publicada na revista Science da semana passada (veja aqui). Cohen argumenta que a recomendação que os estudantes devem mudar de instituição de doutorado para o pós-doutorado é regra na comunidade acadêmica norte-americana, mas pode ser muito questionável. Cohen diz que tal decisão envolve aspectos pessoais e familiares, e que muitas vezes o candidato ao pós-doutorado tem boas oportunidades na própria instituição onde obteve seu título de doutor, em outros grupos de pesquisa. Ou até mesmo no seio do próprio grupo em que desenvolveram sua tese de doutorado. Cohen defende a ideia de que ciência é um trabalho em equipe e, como tal, doutores recém-formados em um ambiente propício que ajudaram a criar podem ter um desempenho muito bom em seu pós-doutorado no mesmo grupo. Que a permanência destes doutores no mesmo grupo tende a fortalecer a equipe, usando como exemplo o fato de que empresas que tem um bom time jamais recomendariam a seus empregados irem trabalhar em outras empresas. E questiona as premissas básicas estabelecidas nos EUA, e nas principais agências de fomento norte-americanas (NIH e NSF), ao assumirem que os pós-doutores devem, necessariamente deixar as instituições e grupo onde obtiveram seu título de doutor.

No caso do Brasil, o CNPq estabelece, em suas diretrizes para os candidatos à bolsa de pós-doutoramento (veja aqui) que:

“o candidato poderá permanecer na mesma Unidade/Departamento onde completou o doutorado, se o mesmo foi desenvolvido em programa de pós-graduação com conceito 5, 6 ou 7 da CAPES. Caso contrário, deverá selecionar Unidade/Departamento distintos daqueles onde obteve o título de doutor.”

Já as recomendações apresentadas pela FAPESP (veja aqui) são que:

“Considera-se desejável que o pós-doutoramento não se realize no mesmo grupo em cujo âmbito se tenha realizado o doutoramento do candidato.”

Esta é uma questão interessante. Caberia ao candidato a decisão de escolher onde fazer seu pós-doutorado?

No contexto brasileiro atual, as oportunidades para se conseguir bolsas de estudo para o exterior são muito maiores do que há pouco tempo atrás. O desejo de estudantes de ir para o exterior, adquirir experiência de pesquisa, cultural e pessoal em outros países, é extremamente louvável, e até mesmo importante. Não é por acaso que os principais centro de pesquisa do mundo têm muitos pesquisadores de pós-doutorado de outros países. O investimento na formação de pesquisadores altamente qualificados é essencial para que o Brasil possa dar um salto de qualidade na pesquisa que é aqui realizada. Porém, é necessário que estes pesquisadores, quando retornem ao Brasil, tenham condições para se inserir em instituições acadêmicas nas quais seu potencial profissional possa ser plenamente aproveitado. O mesmo vale para a inserção no mercado de trabalho de empresas privadas. Profissionais com tais qualificações estão muitas vezes aptos a implementarem e desenvolverem projetos de inovação tecnológica empresarial que contribuirão significativamente para o desenvolvimento tecnológico, e econômico, do país.

Porém, é necessário que as políticas a serem estabelecidas pelo governo sejam coerentes. De que adianta investir bilhões de reais na formação de pessoal altamente qualificado no exterior se o mesmo governo estabelece cortes no orçamento para a ciência , tecnologia e inovação? Como as empresas brasileiras podem investir em inovação tecnológica com a alta carga tributária nacional?



Categorias:educação, pesquisa científica

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5 respostas

  1. Está mesmo difícil: cada vez mais teremos profissionais muito mais especializados e preparados; hoje em dia, em especial após o “Sem Fronteiras”, só não vai para o exterior quem não quer.
    Por fim, eis a velha questão: o que fazer depois do pós-doc? Como o governo e as empresar absorverão tais profissionais altamente especializados? Terão salário digno? Ou será que fazer pós-doc não vai virar um cabide temporário de emprego? Afinal de contas, o salário é convidativo, em especial em SP.

    • A sua pergunta: Terão salário digno? É bem otimista. A minha pergunta é: Teremos empregos? onde? quando? A resposta da minha pergunta eu já conheço é a seguinte
      : Você tem muita titulação! Estamos contratando especialistas. Obrigada por ter vindo.

  2. Essa discussão sobre o local de onde fazer o pós-doc, realmente é profícua. A sensação de que ficar na mesma instituição onde doutorou-se, não é algo saudável, é reforçada pela maioria dos editais que indicam bolsas. Disse maioria, pois na CAPES essa orientação não existe. Ainda bem!

    Particularmente vejo muitas vantagens em permanecer na mesma instituição, entre elas: O aprofundamento em linhas de pesquisa que já ocorrem desde o doutoramento, o entrosamento com o grupo de pesquisa e com o local onde se está instalado, a oportunidade de ser absorvido, caso haja possibilidade, pela própria instituição, etc.

    Realmente, é o velho ditado, em time que está ganhando, não se mexe.

    Parece que as agências fomentadoras de bolsas, não pensam assim. Por que? Será pelo receio de uma formação endógena? Mas qual o problema nisso?

  3. Berlinck!
    Você foi rápido! Estive pensando em escrever exatamente sobre isso no via gene, mas agora que já está aqui penso que um “link” sairá melhor que a encomenda! Fui alertada sobre esta matéria da Science por uma colega de laboratório e cheguei a comentar:”Nossa! Parece que fui eu que escrevi isso… “, tal minha identidade com a abordagem apresentada. Imagino que muitos tiveram a mesma impressão, mas nem sempre manifestamos isso em fóruns adequados. Que bom encontrar esta discussão aqui! Tive sorte de não ter sido impedida de realizar um pós-doc no mesmo laboratório onde me aventurei desde a iniciação científica até o doutrorado, foi um período muito produtivo e de grande aprendizagem, que me trouxe inclusive a oportunidade de retribuir ao grupo de pesquisa um pouco do que foi investido em mim durante anos. Pude assim ajudar a formar novos pesquisadores e construir novos horizontes para a investigação científica junto com grandes amigos. Nota 10! Obrigada pelo “post”.
    Grande abraço,
    ana claudia

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