Leitor(a), prepare-se. Esta série de postagens é longa. Mas, se o tema lhe interessa, vale a pena ler.
A National Academy of Sciences dos EUA disponibilizou, na última semana, o relatório do workshop “Challenges in Chemistry Graduate Education” (“Desafios na Educação de Pós-Graduação em Química”), que pode ser baixado na íntegra aqui. Realizado entre 23 e 24 de janeiro deste ano no National Academies Keck Center (Washington DC), o evento abordou inúmeros aspectos sobre o ensino de pós-graduação em química, tema considerado estratégico para o desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA nas próximas décadas.
O relatório se divide em seis seções: na introdução são apresentadas as questões a serem respondidas pelo workshop. Em seguida, se apresenta a natureza do problema a ser enfrentado, os objetivos da educação na pós-graduação em química (PGQ), as habilidades ensinadas na PGQ, a estrutura da PGQ e as ideias apresentadas pelos participantes para se promover mudanças na educação e na aquisição de habilidades que possam beneficiar os estudantes de PGQ.
Porque o foco na educação de pós-graduação em química?
De acordo com o relatório, fundamentalmente devido a duas razões. Em primeiro lugar pelo fato dos competidores internacionais dos EUA, especialmente na Ásia, estarem investindo pesado na formação de estudantes pós-graduados em química, e este “novo mercado de estudantes” estar atraindo multi-nacionais norte-americanas da indústria farmacêutica e química para aqueles países. Em segundo lugar porque a pesquisa química dos EUA sempre foi muito boa. E, por isso mesmo, os participantes do workshop consideram ser extremamente importante que a pesquisa química dos EUA continue sendo muito boa.
Por outro lado, a situação econômica dos EUA torna este panorama complicado. Várias universidades, especialmente aquelas do conjunto das estaduais “University of California” (Berkeley, San Diego, San Francisco, Los Angeles, Santa Barbara, etc), apresentam sérios déficits orçamentários desde 2011, que se acentuaram neste ano. E o financiamento federal para o ensino superior também diminuiu. O que fez com que as anuidades (tuitions) aumentassem, o que é problemático especialmente para cursos de graduação e pós-graduação caros, como de química.
As questões levantadas foram as seguintes:
– Os programas de PGQ dos EUA necessitam melhorar para preparar os seus formados para serem mais competitivos no mercado de profissões relacionadas à química?
– Os educadores de química sabem o que as indústrias buscam quando procuram pós-graduados em química para seus quadros?
– Quais são as perspectivas dos estudantes ao ingressar em programas de PGQ?
– A profundidade dos estudos de PGQ é mais importante do que sua abrangência?
– Se a abrangência dos estudos de PGQ deve ser enfatizada, do que se deve abrir mão em termos da profundidade dos mesmos estudos de PGQ?
– Os estudantes de hoje em dia necessitam estar melhor preparados para profissões não tradicionais, considerando-se que muitos se tornam empreendedores e outros não conseguem se inserir no “mercado de trabalho tradicional” ?
– Os programas de PGQ estão contribuindo para as necessidades sociais locais, regionais, nacionais e globais?
– Como a diversidade dos estudantes de PGQ pode ser aumentada?
A NATUREZA DO DESAFIO
“Change has already come. We can view this as na opportunity for our community and for the United States, or we can passively react to change and have it imposed on us.” (Matthew Platz, National Science Foundation)
Tendências preocupantes nos EUA
– O emprego nas indústrias químicas dos EUA diminuíram de mais de 1.000.000 em 1990 para menos de 800.000 em 2010.
– A taxa de desemprego de químicos afiliados à American Chemical Society aumentou para acima de 3% em 2010, sendo que até então esta taxa ocilava entre 1 e 3%. Esta taxa de desemprego de químicos da ACS é a maior desde que estes dados começaram a ser compilados.
– A taxa de desemprego para recém-doutores aumentou de 4% em 2000 para mais de 10% entre 2009 e 2010.
– Recém-graduados que optam por fazer pós-graduação e seguir carreira acadêmica nos EUA estão cientes que estarão empregados entre 28 e 32 anos, com um salário anual entre US$ 75.000 e US$ 92.000. Se estes recém-graduados em química optarem por fazer pós-graduação em odontologia ou farmácia, iniciarão suas carreiras profissionais não-acadêmicas aos 25 anos com salários entre US$ 150.000 e US$ 300.000.
– Tendências recentes mostram que os empregos em química estão em maior oferta em pequenas companhias, que não podem esperar que estes profissionais tenham 30 anos para iniciarem suas carreiras.
Observações de Georges Whitesides
Como um dos participantes principais do Workshop, Whitesides manifestou-se particularmente preocupado com mudanças e novas tendências na atuação dos químicos, principalmente no que se refere ao engajamento destes profissionais em atividades relacionadas aos grandes problemas que o mundo já enfrenta atualmente: descoberta e uso de novas fontes de energia, a natureza da combustão, a utilização da energia solar, efeitos da radiação nuclear, e como conservar energia e proteger o ambiente. Whitesides apontou alguns grandes desafios a serem pesquisados, como o funcionamento das células, como produtos químicos fluem de fora para dentro e de dentro para fora das grandes cidades, e os problemas químicos relacionados à sustentabilidade ambiental, os custos da assistência médica e para melhorar a segurança. Whitesides considera que, embora as indústrias tenham contribuído enormemente em processos e técnicas de desenvolvimento (industrial), análise e em invenções, é muito difícil para as empresas desenvolverem projetos de pesquisa e inovação por longos períodos. Por isso considera que o papel das universidades como sendo muito importante, pois estas têm uma estrutura mais flexível e têm a possibilidade de estabelecer seu próprio futuro, independentemente das tendências de mercado. Além do mais, as universidades têm a capacidade de formar profissionais não somente para atuar segundo as atuais tendências, mas também para enfrentar tendências futuras, em um mundo completamente diferente do atual.
O problema, segundo Whitesides, é que o modelo vigente de estrutura da PGQ não se modernizou, permanecendo focado em grupos de pesquisa acadêmicos, muitas vezes em relações unívocas orientador-orientado, além de dar muito mais importância à pesquisa do que ao aprendizado. “Muito da ênfase se direciona, na minha opinião, à produtividade científica, e não tanto na reflexão sobre os estudantes e seu aprendizado”, disse Whitesides.
Whitesides assinala que o contrato tácito entre a sociedade e a academia deve sofrer mudanças. Isso porque desde a 2a Guerra Mundial a sociedade paga impostos dos quais parte é utilizada pelo governo para financiar a pesquisa básica sendo desenvolvida pelas universidades, com o pressuposto que a pesquisa básica servirá de base para a resolução dos problemas da sociedade. No entanto, em um futuro próximo a sociedade deverá querer saber muito mais quais destes problemas a pesquisa básica está resolvendo. Neste sentido, as universidades deverão, em um futuro próximo, ser muito mais responsáveis pelo tipo de pesquisa que desenvolvem. Segundo Whitesides, “Precisamos pensar nas nossas obrigações para com aqueles que pagam a conta. Dinheiro não é um direito.”
Ainda segundo Whitesides, existem três atividades essenciais com relação à geração do conhecimento: ciência, engenharia e invenção e descoberta. A ciência procura entender as coisas. A engenharia busca resolver problemas. E a química deve atuar na invenção e descoberta. Desta forma, Whitesides lista alguns problemas de difícil resolução para quais tal mudança no contrato social sociedade-academia pode acarretar:
– As instituições de pesquisa e pesquisadores individuais deverão encontrar um ponto de equilíbrio para suas atividades entre pesquisa direcionada pela curiosidade (curiosity-driven research) e a pesquisa direcionada para a resolução de problemas (problem-solving research).
– A pesquisa acadêmica é uma “atividade fundalmentalmente elitista”, e deve se tornar ainda mais. Não é necessário que muita gente faça pesquisa acadêmica, segundo Whitesides, mas aqueles que a fizerem deverão também estar procupados em como criar novos empregos e como resolver problemas de difícil solução.
– No que se refere à educação em nível de pós-graduação, mais pode ser menos. Quanto mais tempo os estudantes levam para obter seus títulos de doutor, mais podem se tornar por demais especializados para depois ingressarem no mercado de trabalho.
– Todos os empregos de natureza técnica necessitam de um profissional com título de doutor? Um bom programa de mestrado pode ser suficiente para a aquisição de boas habilidades técnicas.
– Um único grupo acadêmico pode avançar mais na abordagem de grandes questões do que um consórcio de grupos acadêmicos?
– Em um futuro interdisciplinar, os cursos de PGQ necessitarão ser – e deverão ser – cada vez mais difíceis. Químicos orgânicos deverão ter conhecimento sobre biologia e imunologia. Os estudantes deverão trabalhar em uma cultura global, e necessitarão conhecer outras culturas.
– Os pós-doutores constituem o futuro da academia, embora não se saiba muito bem se os pós-doutores devam ser tratados como estudantes, “colegas júniores”, ou empregados. A necessidade em melhor se conhecer e estabelecer relações com estes pesquisadores será muito importante para o futuro da ciência.
Whitesides efetivamente gosta de se debruçar e refletir sobre grandes questões, vejam aqui e aqui e aqui outras postagens neste blog sobre artigos dele.
Categorias:educação, gestão acadêmica
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