A perspectiva de gestores acadêmicos
Holden Thorp se disse preocupado com a visão da sociedade sobre as universidades, uma vez que a sociedade considera que muitas universidades gastam dinheiro demais. Além disso, os custos de manutenção dos estudantes têm aumentado ano a ano e por isso as universidades têm sido questionadas para prover uma educação menos custosa. Como resultado, diz Thorp, espera-se que haja menos estudantes em todos os ramos do conhecimento: alguns destes ramos serão privilegiados por uma maior escolha. Além disso haverá mais pressão para que os estudantes adquiram formação para atender às demandas nacionais (dos EUA). Uma vantagem dos químicos é que estes, na maioria das vezes, estão bem preparados para ingressar no mercado de trabalho.
Marye Anne Fox ressaltou os enormes problemas que o sistema “University of California” têm enfrentado nos últimos anos (para notícias recentes sobre este fato, vejam aqui e aqui). Por isso, existe um grande esforço das universidades estaduais californianas em ser inovadoras, promover a interdisciplinaridade e projetos colaborativos para fortalecer o espírito acadêmico destas instituições.
Paul Houston manifestou-se dizendo que a comunidade química ainda não refletiu sobre a necessidade de se formar cada vez mais doutores para o mercado de trabalho. Um indicador é que muitos destes estudantes têm que fazer vários estágios de pós-doutorado antes de conseguirem um emprego, o que mostra que o mercado [dos EUA] está com excesso de doutores.
Evasão
Um dos grandes problemas dos programas de PGQ dos EUA é a evasão, principalmente feminina. Isso se deve a múltiplos fatores, principalmente de natureza cultural. Mas parece evidente que muitas vezes a relação orientador-orientando pode ser problemática, e contribui para a evasão nos programas de PGQ. A taxa de evasão média para todos os programas de pós-graduação em todas as áreas nos EUA é de 30 a 50%!!!.
Novas tendências na PGQ
Matthew Platz manifestou que, como agência federal da financiamento, a NSF poderia até mesmo financiar um experimento inovador de pós-graduação em química. E que um experimento desta natureza, que atraísse estudantes talentosos e levasse à formação de doutores excepcionais, inevitavelmente atrairia muita atenção e competição de outras instituições. Por outro lado, instituições que não mudarem com o tempo estariam com seus programas de PGQ fadados à extinção. “Os líderes nacionais deste século serão aquelas instituições que enxergarão o momento da mudança e estabelecerão um novo paradigma”, afirmou Platz. E o interesse do atual governo em ciência se reflete no aumento do dispêndio no financiamento de ciência e tecnologia. O aumento do financiamento de projetos vinculados à divisão de química da NSF ficam evidentes no gráfico a seguir.
Mas para que tais mudanças possam ser levadas adiante e grandes desafios possam ser enfrentados é necessário se estabelecer uma força de trabalho (workforce). Inclusive para se promover habilidades em profissionais para criarem oportunidades de trabalho nos EUA, mas não para que a mão-de-obra tenha que ser exportada. No caso da química, Platz considera que seria importante melhorar a qualidade dos programas de PGQ com menos recursos. E desafiou os participantes do workshop a elaborarem experimentos de educação em PGQ que injetem ânimo nos existentes e atraiam apoio financeiro.
A respeito do quadro sobre a pós-graduação em geral nos EUA, o documento traz um sumário informativo, do qual a primeira página está apresentada a seguir. A informação conjunta pode ser obtida no documento original, disponibilizado no início da postagem anterior deste blog.
OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO NA PÓS-GRADUAÇÃO EM QUÍMICA
“Depth, breadth, and communication could be the three anchors around which graduate education could be transformed.” (Wilfredo Colon, Renesselaer Polytechnic Institute)
Funções das Universidades
Pareceu claro aos participantes do workshop que o caráter das instituições acadêmicas mudou ao longo do tempo. Desde a fundação de Harvard em 1636 até quase a Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865), a função primordial das universidades era formar membros das elites. Com a aprovação da Lei Morrill em 1862 (veja aqui http://www.nd.edu/~rbarger/www7/morrill.html), as universidades assumem um caráter mais universal, e são criadas universidades em todos os estados da federação norte-americana para formar pessoas em agricultura, economia e em profissões técnicas. O principal objetivo era preparar os EUA para sua industrialização. Durante a 2ª Guerra Mundial (1941) o governo norte-americano criou o Office of Scientific Research and Development, para financiar pesquisa científica com propósitos militares. A partir de então se estabeleceu o sistema de financiamento à ciência nos EUA, com uma expansão sem precedentes no estabelecimento de centros de instrumentação (facilities), contratação de pessoal e adoção de procedimentos voltados para a educação e à pesquisa. Uma nova mudança ocorreu a partir de 1993, após a queda do Muro de Berlim e o colapso da antiga União Soviética, e as premissas básicas de apoio à pesquisa científica passaram a ter menos importância. A partir de então, muito da mão-de-obra de químicos que era contratada por diversas corporações passou a ter menos opções pelo fato destas empresas terem diminuído substancialmente seus quadros, ou terem se fundido, com cortes de empregos. Atualmente muitos recém-formados de química nos EUA são contratados por pequenas empresas, que necessitam profissionais com perfil diferente daqueles de um passado não muito distante: saber resolver problemas rapidamente. Para isso, precisam possuir conhecimentos específicos aprofundados sobre determinados assuntos, mas ao mesmo tempo ter a capacidade de pensamento crítico, serem hábeis em abordar a resolução de problemas de diferentes maneiras, fazer novas descobertas, conhecer aspectos de propriedade intelectual (patentes) e saber prover resultados de maneira efetiva.
Para Gary Schuster é importante que as universidades dos EUA reconheçam que devem se inserir no contexto atual. Não basta apenas desenvolver pesquisa básica, publicar artigos e obter financiamento de agências de fomento. Schuster argumenta que os programas de PGQ são por demais específicos, e sugere que o estudante, em vez de trabalhar em um mesmo projeto durante 5 anos, desenvolva projetos relacionados sob a orientação de 3 pesquisadores. “Sacrifica-se profundidade, mas se aumenta a abrangência.”
Outra sugestão de Schuster é o mestrado profissionalizante. Este deveria ser reforçado e implementado em uma maior extensão. Schuster assinala ainda que as universidades se encontram em um período de transição, e aquelas que buscarem e encontrarem novas estruturas e abordagens terão sucesso. De outra forma, ficarão para trás. Diz Schuster que “A universidade deve mostrar à sociedade para onde vai em vez de dizer o que o mundo precisa.”
Wilfredo Colon indicou que uma necessidade inegociável na educação de PGQ é um profundo conhecimento de química. Até mesmo pesquisadores que trabalham conjuntamente para abordar problemas interdisciplinares. Colon disse que as indústrias necessitam profissionais capazes de desenvolver projetos de maneira profunda, com capacidade de se comunicar, de cooperar com outras pessoas, de prover treinamento em segurança, empreendedorismo, gestão e conhecimento em propriedade intelectual.
Warren Jones manifestou sua preocupação com a fato que muitos estudantes de PGQ de preocupam excessivamente em obter resultados e publicações. E menos em se aprimorar, melhorando sua base de conhecimento e buscando se desenvolver como um cientista criativo para a resolução de problemas. Ou seja, com muita ênfase na técnica e muito menos na intelectual. Mas, segundo Jones, o problema jaz no próprio sistema que exerce muita pressão sobre os estudantes para obterem publicações. Consequentemente, os pesquisadores formados estão, na verdade, mal formados.
Expectativas
As expectativas dos alunos e orientadores de PGQ parecem ser bastante diferentes. Desta forma, é necessário que exista diálogo entre as duas partes para uma melhor compreensão do que é desenvolver um projeto de PGQ. Para isso, sugeriu-se que as instituições elaborem manuais contendo informações do que se espera dos estudantes de PGQ e procedimentos a serem adotados pelos estudantes em diferentes situações.
Categorias:educação, gestão acadêmica

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