A ESTRUTURA DA EDUCAÇÃO EM PÓS-GRADUAÇÃO EM QUÍMICA
De acordo com o que foi discutido entre os participantes do workshop, a estrutura da educação na pós-graduação é um reflexo tanto dos amplos objetivos desta educação como dos conhecimentos e habilidades específicos da pós-graduação que os estudantes devem adquirir.
De maneira a tornar os programas de pós-graduação mais efetivos, Georges Whitesides deu sugestões de várias alternativas de estruturas de programas de PGQ que poderiam ser adotadas por diferentes instituições. Por exemplo, dois anos de mestrado e depois três anos de doutorado. Ou três anos de doutorado e depois dois anos de pós-doutorado. E os estudantes de pós-graduação poderiam realizar um ano de serviços públicos ou trabalhar em um país estrangeiro antes de continuar seus estudos de pós-graduação. Já de acordo com Kristie Boering, na Europa os programas de doutorado são de três anos, mas resultam na realização de projetos de baixo risco, dificilmente interessantes ou inovadores. Porém, Robert Bergman contra argumentou dizendo que a pesquisa imaginativa ou não resulta mais da filosofia de trabalho do supervisor do que do aluno, e considera que muita pesquisa realmente interessante pode ser realizada em 3 anos.
O mesmo Bergman sugere que, no caso de estudantes que queiram desenvolver projetos de mais longo termo, deveriam estar dispostos a trabalhar com vários grupos de pesquisa diferentes e com diferentes supervisores. Tomar conhecimento de tal diversidade de abordagens poderia ser muito positiva para os estudantes perceberem que existem diferentes maneiras de se pesquisar um mesmo assunto. Além disso, ao estarem expostos a diferentes supervisores, assimilariam diferentes visões sobre como fazer ciência.
Já Siddharta Shenoy assinalou que nem todo estudante de pós-graduação necessita obter um título de doutor, que para muitos um título de mestre é plenamente satisfatório para terem uma carreira profissional bem sucedida. Este ponto foi enfatizado por Michael Doyle, que no Japão a ênfase da pós-graduação é formar mestres para trabalharem na indústria.
Barbara Gerratana assinalou que outra formação muito negligenciada pelas universidades é de formar professores (lecturers) que não fazem pesquisa. Isso porque nas universidades, tais professores são vistos como cidadãos de segunda classe, sendo que, todavia, muitos contribuem de maneira determinante para a boa formação dos estudantes. Cita o fato que na Finlândia, que tem o mais alto nível de desempenho estudantil do mundo, é mais difícil de ingressar em um programa de mestrado em ensino do que em medicina. E considera que bons professores poderiam exercer uma influência positiva tremenda na educação e preparo dos estudantes para o mercado de trabalho.
O financiamento dos estudantes foi outro tópico abordado no workshop. Nos EUA é bastante comum os estudantes de doutorado em química ministrarem aulas de laboratório, ou ainda corrigirem provas. Sendo assim, os participantes consideraram que aprender a ensinar pode ser realmente muito importante. Foi discutido como financiar estudantes com bolsas de estudo ou com dinheiro de auxílios, pois existem restrições nesta última forma, uma vez que pode-se considerar que, ao conceder bolsas a estudantes que também ministram aulas, a bolsa de estudo estaria favorecendo a instituição e não o estudante em si.
Pesquisa interdisciplinar
Um ponto consensual entre os participantes do workshop é que, à medida em que a pesquisa de uma mesma universidade se torna mais colaborativa e interdisciplinar, as divisões estruturais dos departamentos tendem a diminuir. Aqui, cabe assinalar que o significado de “department” em inglês é mais de instituto ou de faculdade do que de “departamento”, propriamente dito. No Instituto de Química de São Carlos da USP em São Carlos, por exemplo, existem dois departamentos. No Instituto de Química de USP em São Paulo também existem dois departamentos. Voltando ao assunto, os participantes consideraram que as agências financiadoras podem atuar positivamente nesta diminuição de divisões intra-institucionais ao financiar mais projetos de caráter interdisciplinar.
A boa alocação de pessoal também pode promover a redução de barreiras, e tais iniciativas tem profundo efeito na educação em nível de pós-graduação pelo fato dos estudantes poderem ter interações diferentes em diferentes níveis com diferentes professores e pessoal técnico. Mas o mais importante em tais interações, colaborativas e multidisciplinares, é a qualidade. Os estudantes necessitam de um retorno (feedback) honesto sobre seu desempenho de forma a poderem tomar decisões acertadas sobre seu futuro.
Parcerias com a indústria
Segundo os participantes, o potencial das universidades de trabalhar com empresas ainda é muito pouco explorado (até mesmo nos EUA!). Mas, Whitesides argumentou que os programas de pesquisa das universidades não devem ser estabelecidos com direcionamento tecnológico. Apenas quando um projeto científico é concluído é que deve ser transferido para uma empresa, de maneira a que tais projetos possam criar oportunidades de empregos e novos desenvolvimentos. O interessante é que existem cerca de 20 programas acadêmicos de especialização em biotecnologia nos EUA que são desenvolvidos com a participação de empresas. Tais experiências têm sido extremamente bem sucedidas, pois ganham os estudantes, ganham as empresas e ganham os laboratórios de pesquisa acadêmicos. Os estudantes admitem que é como desenvolver pesquisa em um outro ambiente, e assimilam novos conhecimentos e habilidades, os quais contribuem positivamente para o bom andamento de seus projetos de pós-graduação.
Mudanças Institucionais
Esta foi a discussão final do workshop. Platz, da National Science Foundation, disse que apesar de algumas instituições disporem de recursos suficientes para evitar qualquer mudança, as instituições de liderança perceberão que o momento atual é de realizar mudanças e de oportunidade para melhorar a educação de pós-graduação. Schuster sugeriu que ocorra uma diversificação dentre as universidades, para que todas 3.000 universidades dos EUA que recebam algum tipo de financiamento federal se diferenciem em seus perfis e atividades.
Este é um ponto interessante, assinalado por Simon Schwartzman recentemente, no seu texto “A greve nas universidades federais” (veja aqui) e também em entrevista recentemente concedida ao jornal O Estado de São Paulo (veja aqui).
Schuster considera que a formação de doutores é necessária não somente para preencher cargos acadêmicos, empresariais e do governo mas muitos outros. Desta forma, cada universidade deveria procurar diferentes ambientes de atuação, considerar sua história, objetivos e recursos institucionais de maneira a buscar metas a serem alcançadas que possam resultar em respostas para problemas que a sociedade espera que sejam resolvidos. E Schuster afirma que bolsas de estudo e outros apoios financeiros podem apoiar a diversificação de atividades das diferentes universidades.
Os participantes do workshop avaliaram que um pequeno número de programas de PGQ dos EUA forma a maioria dos doutores em química, e questionam a criação de outros programas para o mesmo objetivo. E que o caráter único de cada programa, com características próprias, deveria ser visto como uma qualidade e não como um problema. Este ponto é interessante considerando-se o sistema brasileiro de avaliação dos programas de PG, uma vez que, da forma como esta avaliação é realizada, tende a uniformizar os programas de PG e não a promover sua diversificação. Schuster afirmou ainda que é difícil para “as pessoas dentro do sistema” [de PGQ] perceberem que o mundo ao redor está em mudança, e que é necessário dar passos adiantes para além do que está sendo feito para buscar novas formas de atuar no momento atual da PGQ. E por isso estimulou aqueles que atuam nos programas de PGQ a pensar em novos modelos de pós-graduação para atrair pessoas [estudantes?] criativas e compromissadas, assinalando que “o risco que estas iniciativas sejam mal sucedidas é alto, mas que de muitas talvez uma seja muito bem sucedida e provoque uma mudança completa de abordagem de PGQ.”
Categorias:educação, gestão acadêmica
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