Qualidade x Quantidade

articlesptNa última quinta-feira, dia 25 de julho, o boletim da Agência FAPESP divulgou notícia sobre debate ocorrido durante a Reunião Anual da SBPC sobre a qualidade da ciência feita no Brasil, e como esta se reflete no impacto dos artigos publicados por cientistas brasileiros.

Pesquisa de qualidade, não de quantidade – Elton Alisson, de Recife

Depois de crescer em quantidade, a ciência brasileira enfrenta o desafio de melhorar a qualidade e aumentar seus impactos científico, social e econômico. Para isso, são necessárias, entre outras medidas, mudanças nos critérios de avaliação de pesquisadores e de instituições adotados pelas agências de fomento à pesquisa do país.

A análise foi feita por integrantes de uma mesa-redonda sobre “Impacto e avaliação da pesquisa”, realizada na terça-feira (23/07), durante a 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Recife (PE).

O encontro teve a participação de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e Jorge Almeida Guimarães, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

De acordo com dados apresentados por Brito Cruz, desde 1980 vem aumentando o número de artigos científicos publicados por autores do Brasil. “Isso indica um avanço inconteste do sistema de ciência brasileiro, especialmente se levarmos em conta que é um sistema tardio [em comparação com países com tradição científica] e que ainda enfrenta grandes dificuldades”, disse Brito Cruz.

Mas o impacto dos artigos científicos brasileiros – medido pelo número de vezes que o trabalho é citado por outros pesquisadores – ainda é baixo. “Ao longo de sua história, a ciência feita no Brasil, na média, tem tido pouca repercussão internacional, atingindo 60% da média do impacto científico do restante do mundo”, ponderou Brito Cruz.

Um dos fatores apontados pelos participantes da mesa-redonda como responsável pelo baixo impacto da ciência feita no Brasil é a pouca cooperação de cientistas brasileiros com pesquisadores do exterior.

Segundo dados apresentados pelo diretor científico da FAPESP, nos últimos anos diminuiu muito a cooperação internacional dos cientistas brasileiros, evidenciada pela queda de 40% para 27% da publicação de trabalhos em coautoria.

 “Esse é um dos menores percentuais de coautoria em artigos científicos observado hoje em países que fazem ciência e almejam ter alguma relevância no cenário científico mundial. É importante recuperarmos nossa capacidade de colaboração científica porque isso ajuda a aumentar o impacto”, disse Brito Cruz.

O Brasil publica muito mais trabalhos na área de ciências de plantas e animais, por exemplo, do que a Coreia do Sul. O impacto científico dos artigos científicos publicados pelos pesquisadores sul-coreanos nessa área, no entanto, é superior ao dos trabalhos publicados por brasileiros.

Em Física – área na qual a Coreia do Sul aumentou muito nos últimos anos sua quantidade de artigos publicados e o Brasil estacionou um pouco –, o impacto dos trabalhos publicados por cientistas brasileiros em 2012 cresceu mais do que o dobro da média mundial.

 “Isso tem relação com a participação do Brasil nas grandes colaborações internacionais que há na área da Física [como os realizados no Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), da Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Cern), na Suíça]. Esses trabalhos geram artigos muito citados na comunidade científica internacional porque têm muitas ideias fundamentais”, disse Brito Cruz.

Guimarães, por sua vez, destacou que os outros países latino-americanos colaboram mais com nações europeias e com os Estados Unidos do que com o Brasil. “O Chile tem seu observatório astronômico. Por isso, todo o mundo colabora com eles e o fator de impacto dos artigos científicos deles é mais alto. O Brasil se descuidou da colaboração científica internacional”, disse.

As universidades brasileiras também exercem pouca influência científica em comparação com instituições congêneres na Europa e nos Estados Unidos, destacou Brito Cruz. “É preciso que as universidades brasileiras progridam mais em termos de impacto científico mundial”, disse.

Ações necessárias

Uma das ações indicadas por Brito Cruz para aumentar o impacto da ciência feita no Brasil é proteger o tempo do pesquisador contra tarefas extracientíficas – como o preenchimento de relatórios para prestação de contas. Segundo ele, há poucas universidades no Brasil com escritórios voltados para auxiliar pesquisadores em tais tarefas, a exemplo do que fazem os Grants management offices nos Estados Unidos.

 “As agências que financiam a pesquisa no Brasil precisariam cobrar muito mais das instituições de ensino e de pesquisa no momento em que se concede financiamento a um projeto, com relação à questão da proteção do tempo do pesquisador contra tarefas extracientíficas”, ressaltou Brito Cruz. “Não é possível obter crescimento de impacto se não dermos aos pesquisadores brasileiros condições similares de trabalho às que seus colegas nas universidades de Stanford ou de Oxford, por exemplo, possuem”, frisou.

Outras medidas sugeridas são aumentar a cooperação internacional, a visibilidade e o impacto das revistas científicas publicadas pelo Brasil – uma vez que 33% dos artigos científicos de autores brasileiros saem em periódicos nacionais –, e valorizar a qualidade, em detrimento da quantidade, dos artigos científicos publicados por pesquisadores na análise de seus projetos de pesquisa na hora de conceder financiamento ou na promoção de cargo, entre outras situações.

A necessidade dessa mudança de critério de avaliação de pesquisadores também foi ressaltada por Oliva. “Ao premiarmos a quantidade, em detrimento da qualidade dos trabalhos publicados, podemos sinalizar uma direção errada, desencaminhar os jovens pesquisadores e, eventualmente, contribuir para acomodar cientistas seniores naquilo que aprendemos rapidamente a fazer, que é publicar”, disse.

A mudança de critério de avaliação da qualidade dos trabalhos científicos publicados, em vez da quantidade, não implicará na diminuição do número de publicações, avaliou Oliva.

 “Temos que superar a ideia de que quantidade e qualidade são necessariamente opostas. É possível manter a produção científica brasileira atual e, ao mesmo tempo, almejar mais”, afirmou.

Quantidade X qualidade

O problema de se publicar em quantidade em detrimento da qualidade, é um problema antigo – bem antigo. No livro de Robert Darnton, The Case for Books,1 o autor relata

… a letter by Niccolo Perotti, a learned Italian classicist, to Francesco Guarnerio, written in 1471, less than twenty years after Gutenberg’s invention:

My dear Francesco, I have lately kept praising the age in which we live, because of the great, indeed divine gift of the new kind of writing which was recently brought to us from Germany. In fact, I saw a single man printing in a single month as much as could be written by hand by several persons in a year. … It was for this reason that I was led to hope that within a short time we should have such a large quantity of books that there wouldn’t be a single work which could not be procured because of lack of means or scarcity. … Yet—oh false and all too human thoughts—I see that things turned out quite differently from what I had hoped. Because now that anyone is free to print whatever they wish, they often disregard that which is best and instead write, merely for the sake of entertainment, what would best be forgotten, or, better still be erased from all books. And even when they write something worthwhile they twist it and corrupt it to the point where it would be much better to do without such books, rather than having a thousand copies spreading falsehoods over the whole world.

Este trecho se refere a um fato ocorrido apenas 16 anos depois da impressão da Bíblia por Johannes Gutenberg. No caso dos livros, o mercado dita muito do que se publica e o quanto vale a pena se publicar, mesmo que literatura muitas vezes de qualidade questionável. Mesmo que livros e mais livros sejam resenhados, criticados e analisados, nada impede que o público faça sua escolha. Muito diferente dos artigos científicos, que, em princípio, devem ser analisados antes de serem publicados. Tudo depende de como é feita esta análise, que leva em conta vários fatores, como o escopo da revista científica e a qualidade do artigo em função da(s) pergunta(s) que se quer responder, a qualidade dos dados obtidos e analisados, a qualidade do texto e a relevância do assunto abordado, por exemplo.

Publicações e a avaliação da pesquisa e de pesquisadores

A reportagem acima menciona necessidade de “mudanças nos critérios de avaliação de pesquisadores e de instituições adotados pelas agências de fomento à pesquisa do país.” No Brasil os pesquisadores são essencialmente avaliados pela análise de seu Currículo Lattes. Por exemplo, na avaliação pelas Coordenações de Área do CNPq quando o pesquisador pleiteia ou desfruta de bolsa de produtividade em pesquisa, por sua instituição (quando é o caso), por assessores ad hoc que avaliam solicitações de auxílios, por comitês que organizam eventos científicos, etc. A avaliação do Currículo Lattes é de longe a mais fácil, pois as informações estão disponíveis on-line. Apesar de muitos aspectos do CV Lattes poderem ser levados em conta, aquele que frequentemente é o mais considerado é o número de “artigos completos publicados em periódicos”. Aqui cabe uma primeira observação. O título deste ítem não explicita que os artigos ali incluídos tenham que ser “artigos científicos” (mas isso está implícito?), o que implicaria de, na maioria das vezes, terem sido avaliado por pares (submetidos ao peer-review). Análise cuidadosa de publicações inseridas neste ítem do CV Lattes de vários pesquisadores mostra que muitas vezes não são incluídos somente artigos publicados em revistas científicas, mas vários outros tipos de publicações, inclusive resumos estendidos publicados em anais de congressos. Seria realmente interessante que o preenchimento do CV Lattes possibilitasse diferenciar artigos científicos que tenham sido avaliados por pares e publicados em revistas indexadas, de outros.

Outros itens do CV Lattes também são levados em conta, e cada vez mais, porque às vezes se observa que o número de “artigos completos publicados em periódicos” pode ser um critério enviesado para se avaliar um pesquisador. Outras questões poderiam neste caso serem consideradas, como a autoria dos artigos. Este é um tópico muito controverso, fruto de discussões acaloradas nos corredores acadêmicos. Afinal: quem deve ser autor de um artigo? Como se define a autoria de um artigo? Extensa bibliografia a este respeito já foi publicada, de forma que não cabe aqui uma discussão aprofundada sobre este assunto. Porém, vale a pena se reportar à definição de autoria apresentada no Código de Boas Práticas Científicas da FAPESP2:

2.2.6. Em um trabalho científico, devem ser indicados como seus autores todos e apenas os pesquisadores que, tendo concordado expressamente com essa indicação, tenham dado contribuições intelectuais diretas e substanciais para a concepção ou realização da pesquisa cujos resultados são nele apresentados. Em particular, a cessão de recursos infraestruturais ou financeiros para a realização de uma pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, materiais, recursos humanos, apoio institucional, etc.) não é condição suficiente para uma indicação de autoria de trabalho resultante dessa pesquisa.

2.2.7. Cada um dos autores de um trabalho científico é responsável pela qualidade científica desse trabalho como um todo, a menos que os limites de sua contribuição científica para a obtenção dos resultados expostos no trabalho sejam nele expressa e precisamente definidos.

Para também diversificar os critérios de avaliação, em sua versão mais recente o CV Lattes traz o mini-ícone do JCR (Journal of Citation Reports do ISI Web of Knowledge) associado a cada revista que está classificada no JCR com seu fator de impacto. Assim, na avaliação dos pesquisadores muitas vezes se leva em conta o fator de impacto das revistas onde estes publicam, já que este fator de impacto pode medir a qualidade do periódico no qual os artigos são publicados. Mas, é consensual que o Fator de Impacto não deve ser utilizado para avaliar a qualidade da pesquisa de um pesquisador. Porque? Porque, segundo o editor da revista Science, Bruce Alberts3

The impact factor, a number calculated annually for each scientific journal based on the average number of times its articles have been referenced in other articles, was never intended to be used to evaluate individual scientists, but rather as a measure of journal quality.

Além disso, o Fator de Impacto pode ser, e é, manipulado. Fatos recentes ocorridos com algumas revistas brasileiras ilustram tais casos. Mas estes não ocorrem somente aqui no Brasil, não. Logo, como se analisar a qualidade da pesquisa dos cientistas levando-se em conta o fator de impacto das revistas? Além disso, até mesmo trabalhos muito bons são publicados em revistas de baixo fator de impacto.4 Além do que, muitas áreas de pesquisa não possuem revistas com alto fator de impacto, como muitas revistas de biologia e de ciências humanas, por exemplo. Logo, como analisar a qualidade da pesquisa de pesquisadores analisando-se o fator de impacto das revistas em que publicam? Simplesmente a correlação é excessivamente tênue entre a qualidade da pesquisa e o fator de impacto das revistas onde os trabalhos são publicados, além de ser totalmente impossível se comparar a qualidade da pesquisa de cientistas que atuam em áreas, ou sub-áreas, distintas. Consequentemente, como assinala Bruce Alberts, a avaliação da qualidade da pesquisa de um pesquisador levando-se em conta o fator de impacto das revistas onde este pesquisador publica é por demais questionável para ser levada em conta.

Porém, independentemente de onde se publica e dos fatores de impacto de revistas científicas, é de consenso na comunidade brasileira que “quanto mais publicações se tiver no CV Lattes, melhor”, embora tal paradigma esteja mudando, como assinala o texto da reportagem. A pressão por publicar artigos seria uma das “grandes culpadas” pela “inflação” do CV Lattes. Relacionado ao incremento do currículo de publicações está o ganho de prestígio e de visibilidade por parte dos pesquisadores, duas consequências altamente desejadas, intimamente associadas com a obtenção de verbas para laboratórios e grupos de pesquisadores, bem como a atração de estudantes e pesquisadores talentosos. Este é um quadro corriqueiro, que faz parte da prática científica.

A pressão por publicar artigos científicos existe há muito tempo. A expressão “publish or perish” (publicar ou perecer) pode ser encontrada no Google Acadêmico como tendo sido pela primeira vez utilizada em 1934 no obituário do geógrafo William Morris Davis5, no seguinte contexto:

To Professor Davis is due the organization of the Association of American Geographers in 1904, at a meeting in his native Philadelphia. He immediately urged that the Association “publish or perish.” “If it’s worth doing it’s worth printing,” was his advice to students.

Em editorial publicado em 1963 para a revista Bulletin of the Medical Library Association, Alfred N. Brandon advertiu6

Today there is much being written in the various scientific fields by researchers who must “publish or perish.” In order to receive grants or promotions it is necessary for them to keep their names in print over articles that show their capacity for learning and writing. Although they may be engaged in full time teaching, it is mandatory that they conduct research and report it in the literature.

A pressão por publicações não é, então, uma novidade. Faz parte do métier científico. Com isso, o pesquisador se encontra compelido a publicar, de qualquer maneira.

Embora o CV Lattes seja uma ferramenta muito útil para se avaliar o perfil dos profissionais que atuam na área de pesquisa, muito mais complexo é avaliar a qualidade da pesquisa realizada pelos pesquisadores. O impacto da pesquisa desenvolvida por um determinado pesquisador, ou grupo de pesquisa, é bem diferente do fator de impacto das revistas científicas. Não existe correlação nenhuma entre estes dois tipos de impacto, embora exista entre o impacto que um determinado artigo exerce sobre a comunidade e o impacto da pesquisa realizada por autores de artigos de impacto. Parafraseando Berlinck,5 a qualidade da pesquisa está relacionada à influência que esta exerce ao longo do tempo. Logo, como medir a qualidade da pesquisa se muitas vezes esta influência somente poderá ser observada tempos depois? Artigos de impacto podem ter impacto imediato, ou não. Um caso clássico é o artigo de Gregor Mendel sobre a hereditariedade, “Versuche über Pflanzen-Hybriden, apresentado em duas sessões subsequentes da Sociedade dos Naturalistas de Brünn, datadas de 8 de fevereiro e 8 de março de 1865, o qual discorre a respeito da transmissão dos caracteres vegetais da ervilha (Pisum sativum) e estabelece as leis fundamentais da hereditariedade que deram origem à genética.”8 Segundo Freire-Maia: “Há quem diga que Mendel foi citado doze vezes antes de 1900. Convenhamos que é pouco, se compararmos esse número com a citação que mesmo trabalhos medíocres merecem atualmente na literatura internacional; seja como for, não se pode dizer que tenha ficado totalmente desconhecido.”8 Hugo de Vries, Correns e Tschermak descobriram o trabalho de Mendel. Hugo de Vries chegou aos mesmos resultados de distribuição de caracteres dominantes, “mestiços” e recessivos, trabalhando com plantas dos gêneros Agrostema, Chelidonium, Hyoscyamus, Lychnis, Oenothera, Papaver, Zea, Aster, Chrysanthemum, Coreopsis, Solanum, Veronica e Viola. de Vries publicou seu trabalho no Comptes Rendues de l’Académie des Sciences em 1900, e enviou uma cópia a Correns. Este, no dia seguinte enviou uma nota ao Berichte der Deutschen Botanischen Gesellschaft, relatando seus achados e os de Hugo de Vries, mas referindo-se a Mendel como o autor original das descobertas.8 Que falta fazia as bases de dados eletrônicas para indexação e catalogação das publicações científicas!

Proteger o tempo do pesquisador contra tarefas extracientíficas

Este é um aspecto imprescindível, frequentemente abordado por Brito Cruz em suas palestras recentes. Não somente o preenchimento de relatórios para prestação de contas, mas qualquer tipo de atividade pouco vinculadas à atividades acadêmicas, de ensino e de pesquisa acabam por afetar o tempo, a dedicação e a concentração dos profissionais de ensino e pesquisa. Uma síndrome que frequentemente afeta unidades das universidades públicas brasileiras é a de se criar comissões para assumirem responsabilidades e resolver problemas. Muitas vezes surgindo da incompetência de “gestores” que assumem cargos administrativos, tais comissões acabam por proliferar e ocupar tempo excessivo de professores/pesquisadores, que deveriam estar se dedicando ao ensino e à pesquisa. Não conseguir resolver problemas de infra-estrutura, organização e gestão acaba por afetar diretamente a qualidade da pesquisa realizada nas universidades brasileiras. Além disso, enfrentar problemas burocráticos para importação de materiais (equipamentos e bens de consumo), regulação de atividades científicas, organização de eventos (às pencas no Brasil) consome um tempo absurdamente excessivo por parte de muitos pesquisadores. Fundamentalmente seria necessário se re-pensar e propor um novo modelo de administração e gestão das universidades brasileiras, de forma a se minimizar consideravelmente o investimento do tempo dos professores/pesquisadores em atividades extra-acadêmicas. Deve ser o sonho de todo pesquisador brasileiro ter “condições similares de trabalho às que seus colegas nas universidades de Stanford ou de Oxford”, como assinala Brito Cruz. Boa parte dos bons pesquisadores de instituições norte-americanas de excelência ministram quantidade mínima de aulas, não exercem cargos administrativos, nunca organizaram um evento científico.

Melhorar a qualidade das revistas científicas brasileiras

Uma iniciativa importante, que pode contribuir significativamente para dar mais destaque à ciência que se faz aqui, uma vez que os problemas locais, regionais, nacionais e continentais podem ser de muito interesse para pesquisadores estrangeiros. Porém, seria necessário várias medidas que muitas vezes são consideradas impopulares: que as revistas publicassem somente artigos em inglês (o que implicaria em se estabelecer um excelente serviço de revisão de textos), que os artigos fossem selecionados com maior rigor, que as revistas adotassem medidas de disseminação e “marketing científico” mais eficazes, que as revistas melhorassem seu sistema de indexação, dentre outras ações.

O que fazer?

Para se valorizar a qualidade da pesquisa e dos trabalhos científicos em vez da quantidade dos artigos publicados, é necessário uma mudança cultural da visão científico-acadêmica no Brasil. E mudanças culturais não são estabelecidas nem ocorrem rapidamente. São fruto de um trabalho contínuo de aperfeiçoamento do sistema de avaliação e do sistema científico-acadêmico.

Para tanto, seria necessário se considerar mais seriamente a qualidade dos artigos científicos publicados pelos pesquisadores quando da concessão de auxílios, bolsas, verbas para eventos, etc. Levando-se em conta que a avaliação da qualidade pode ser um processo bastante complexo, como assinalado acima, seria prudente que a avaliação dos pesquisadores não se limitasse à análise de indicadores quantitativos, como número de artigos, número de citações, fator de impacto das revistas onde se publica, índice h, etc, que podem ser manipulados ou inflacionados. Uma possível solução seria que, quando o(a) pesquisador(a) fosse ser avaliado(a), que o(a) próprio(a) indicasse, por exemplo, 5 ou 10 publicações oriundas de sua pesquisa ao longo dos 5 anos mais recentes. Talvez este seja um bom critério, que daria escolha ao próprio pesquisador para indicar como anda sua pesquisa, apesar de dar muito mais trabalho aos avaliadores, pois estes trabalhos deveriam ser consultados para que se conhecesse seu teor, onde foram publicados, em que língua, qual seu alcance, etc.

Também é necessário, como bem assinala Brito Cruz, se desonerar os pesquisadores de atividades extra acadêmicas, que possam comprometer seu desempenho como educadores e pesquisadores. Talvez muitos não percebam a diferença que tais atividades exerçam no output de suas pesquisas, mas a diferença pode ser significativa, em termos de originalidade, de inovação científica, de criatividade, de qualidade intrínseca (no desenvolvimento dos projetos, orientação de alunos, elaboração de projetos, artigos, apresentações para eventos, etc) e obviamente de quantidade também, principalmente quando pesquisadores não fazem parte de grandes grupos de pesquisa. Contudo, é de escolha pessoal o envolvimento dos pesquisadores em atividades extra-acadêmicas, de ensino e de pesquisa. Certamente é necessário que bons cientistas atuem em comissões, órgãos de fomento, em atividades administrativas, de política científica, de tomada de decisões – de outra forma o sistema entraria em colapso. Mas o afastamento das atividades de pesquisa e ensino certamente comprometerá a qualidade destas para o pesquisador.

Questões relativas à avaliação, como ética, sigilo, meritocracia, imparcialidade, excelência, devem ser continuamente debatidas no meio acadêmico. Talvez seja importante que os princípios da prática científica e da prática acadêmica sejam ensinados durante a graduação e a pós-graduação, de maneira a preparar adequadamente os estudantes que porventura venham a se inserir profissionalemente no meio acadêmico. Ações efetivas podem incluir a valorização da elaboração de textos realmente originais para se evitar o plágio, a valorização de propostas realmente inovadoras do ponto de vista científico para melhorar a qualidade e o impacto da ciência, a valorização das atividades de orientação, de ensino e do entrosamento pesquisador-orientando no desenvolvimento de projetos científicos desde a iniciação científica até o pós-doutoramento. Se valorizar o estabelecimento de colaborações com universidades internacionais de qualidade, se adotar critérios mais rigorosos na seleção de estudantes para ir ao exterior, que tenham bom conhecimento básico da língua estrangeira e boa base de formação para exercer as atividades nas instituições do exterior podem ser iniciativas bastante efetivas para se melhorar a qualidade da pesquisa que é realizada no Brasil.

Neste sentido, a própria avaliação por pares deveria ser mais valorizada, tanto pelos próprios assessores ad hoc quanto pelas revistas científicas brasileiras como pelas agências de fomento. Avaliações muito bem feitas tendem a favorecer projetos de pesquisa de qualidade, que são a base para que seus resultados possam ter impacto, serem publicados em boas revistas, e aumentar a qualidade, a visibilidade e o reconhecimento da pesquisa.

A mudança cultural da qualidade da ciência brasileira, apresentada pelos debatedores na SBPC, Brito Cruz, Glaucius Oliva e Jorge Guimarães, é essencial para uma maior inserção e valorização da pesquisa nacional no cenário internacional. Porém, tal mudança cultural só ocorrerá com verdadeiro compromisso de todas as partes – professores/pesquisadores, estudantes, gestores e administradores, tomadores de decisões e lideranças da política científica.

Referências

1. http://www.guardian.co.uk/books/2009/nov/15/case-for-books-robert-darnton

2. http://www.fapesp.br/boaspraticas/codigo_050911.pdf

3. http://www.sciencemag.org/content/340/6134/787.full

4. Alguns poucos exemplos (escolhas pessoais):

a) http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/np020375t citado 75 vezes em uma revista de fator de impacto 3.285.

b) http://ijs.sgmjournals.org/content/55/5/1759.short citado 150 vezes em uma revista de fator de impacto 2.112.

c) http://spin.niddk.nih.gov/bax/lit/508/98.pdf citado 168 vezes depois de publicado em uma revista com fator de impacto de 2.373. Este artigo verdadeiramente revolucionou a análise estrutural de moléculas orgânicas complexas por RMN.

d) O artigo “Narrative analysis: Oral versions of personal experience” do linguista William Labov, com 3239 citações no google scholar, foi publicado na revista Journal of Narrative & Life History que só teve 7 volumes publicados entre 1991 e 1997. Atualmente o nome da revista mudou para Narrative Inquiry, com um fator de impacto de 1.323.

e) O artigo “A review of BF Skinner’s Verbal Behavior” (http://cogprints.org/1148/1/chomsky.htm) de outro linguista, Noam Chomsky, tem 3407 citações no google scholar. Foi originalmente publicado na revista Language, com fator de impacto 1.886 de 2009.

5. Bowman, I. Obituary – William Morris Davis. Geographical Review, 1934, 24, 177-181.

6. Brandon, A.N. “Publish or Perish”. Bulletin of the Medical Library Association, 1963, 51, 109-110.

7. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-47142012000300001&script=sci_arttext&tlng=es

8. http://quipronat.wordpress.com/2010/09/07/descobertas-e-surpresas/



Categorias:pesquisa científica, política científica, publicações científicas

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4 respostas

  1. Caro Roberto.
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    Como me aposentei há poucos meses fiquei livre da sina “publish or perish”. Na verdade já me sentia liberto disto há bastante tempo, pois quando fui atualizar o meu Lattes vi que ele estava atrasado no mínimo em quatro ou cinco anos (dependia da dificuldade de preenche-lo), atualizei algumas coisas, porém não tive a mínima disposição de seguir a diante. Mas isto é mais uma piada do que qualquer coisa, o que gostaria de comentar é outro aspecto.
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    Em todo o mundo se entrou na lógica do “paper”, porém para pontuações em concursos públicos e outras pontuações acadêmicas, esta lógica está sendo altamente destrutiva para o ensino de graduação, pois ela não premia em nada trabalhos de consubstanciação de conhecimento que era feita através de livros.
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    O que nos leva isto? Se um experiente professor utilizar dois ou três anos de sua vida acadêmica para escrever um livro que resuma o conhecimento científico com no máximo dois anos de retardo de um determinado assunto, ele ganhará a mesma pontuação do que dois “papers” em jornais de nível médio ou pior do que dois capítulos daqueles famosos livros falsamente editados por uma pessoa que simplesmente numera os capítulos.
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    Esta tendência atual, do inédito, da última notícia, leva que bons livros não estão sendo colocados no mercado editorial brasileiro ou internacional. Esta falta de bons livros está levando a verdadeiras descobertas da pólvora em todos os níveis.
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    Comecei há pouco tempo a auxiliar na orientação (agora está bom, faço o que quero) num tema que fiz uma dissertação há vinte anos e que continuava me atualizando para uma das disciplinas que ministrava (talvez continue ministrando?), e para minha surpresa notei que as três maiores equipes em termos internacionais que publicaram em 2011, 2012 e 2013 artigos sobre o assunto, estavam rateando em conceitos básicos que já eram correntes há mais de dez anos.
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    Atribuo a isto a falta de livros textos, pois os últimos livros textos sobre o assunto foram editados a muito mais tempo, seguindo o pessoal a publicar “papers” que se baseavam em artigos mais recentes. Estamos perdendo a memória, pois lendo dezenas destes artigos, vi que havia em muitos deles fantásticos “dejá vu” e conclusões óbvias que em 1950 eram conhecidas (o ano 1950 não é um ano jogado ao acaso, é uma data real), concluía num desses artigos de 2012 que deveria haver um efeito que não era identificado mas era importante, e este efeito era algo extremamente bem detalhado por um pesquisador alemão em 1950!
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    Não adianta seguirmos nesta sanha insana da modernidade esquecendo de seguir no início a trilha do que já passou. Todos publicam nos assuntos da moda, usam novos algoritmos, novos modelos e esquecem dos velhos fenômenos. Talvez na área de muitos isto não aconteça, porém em determinadas áreas da engenharia, se passou praticamente 25 anos na implementação de simulações numéricas de leis físicas conhecidas, os modelos evoluíram até o ponto em que se esgotavam estas leis, e no momento em que se começou a retomar a simulação física, ou uma mera observação mais refinadas dos fenômenos simplesmente a capacidade de observação e as metodologias para tento estão esquecidas. Temos novos aparelhos, equipamentos que dão informações muitissimamente mais elaboradas e precisas que tínhamos nas décadas de 70 a 80, porém os olhos e a percepção de quem usa estes aparelhos está embotada.
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    Quando se estabelece uma métrica única para a quantificação da qualidade de um pesquisador, só uma dimensão é considerada, e como os problemas são multidimensionais simplesmente as outras dimensões são ignoradas.
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    Acho que esta discussão de número de citações, qualidade das revistas e outras variantes sobre o mesmo tema, são importantes, porém quanto mais nos aprofundarmos nisto mais criaremos um fosso nas outras dimensões.

    • Oi Rogério, tudo bem?

      Seu comentário é importante por se deter sobre o aspecto da educação. Parece este aspecto está sendo deixado em segundo plano. Então existe um problema, que é o do real ensino e o do real aprendizado. Nas circunstancias atuais, em que o professor pesquisador tem que se envolver com atividades em excesso (comentadas na postagem), sobra pouco tempo para ele ensinar de verdade a seus alunos em sala de aula e a seus orientandos. Conheço alguns orientadores que se ocupam bastante do aspecto educacional de seus orientandos.

      Você aponta também para dois outros pontos relevantes, que são o da formação básica e o da síntese do conhecimento (escrita e publicação de livros). O primeiro todo mundo conhece, e estamos todos cansados de comentar e reclamar em prol dos alunos de 2º grau que a situação não vai bem. No que se refere ao segundo, vale a pena dizer que publicar livro-texto hoje em dia é démodé, pois, além de tomar tempo para ser escrito, se não for de um assunto para formação básica em pouco tempo estará ultrapassado, o escritor é mal pago, as editoras estão lançando cada vez menos títulos e recentemente fiquei sabendo que só imprimem o estritamente necessário após a encomenda. Além disso, quem lê livros-texto? Eu comecei a ler um importante livro-texto de minha área há 2 anos e o abandonei, por absoluta falta de tempo. Pretendo ainda voltar nele, mas a falta de tempo é crítica. Comprei um outro livro-texto há pouco tempo, de outro assunto. O livro está muito bem recomendado em fóruns de resenhas de livros, mas não tive tempo nem de folhear.

      De forma que a situação está complicada. O que eu acho é que os professores/pesquisadores que estão interessados em “fazer a diferença” precisam de mais tempo para poder se dedicar às atividades científico-acadêmicas. Então entram em cena os aspectos da infra-estrutura, do modelo da gestão administrativa, do enxugamento das atividades extra-acadêmicas, etc., para que o professor/pesquisador que está interessado possa ter um maior tempo de dedicação. Sem esquecer, porém, que não terá mais reconhecimento por isso. O reconhecimento será pelo que ele publicar, e só. E momentâneo se ocupar algum cargo importante.

      Abraço,
      Roberto

      PS – Recentemente estou lendo bastante sobre um assunto específico, e estou pasmo em ver o quanto estou aprendendo.

      • Roberto, “papers” para quem já tem uma forte formação básica, como professores mais antigos, são excelentes, livros textos não são feitos para os velhos, só se for para criticá-los.
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        Porém quando se pega um aluno de mestrado ou até de iniciação científica é um imenso problema, pois eles simplesmente terão que perder uns bons meses para lendo 1001 artigos antes de ter uma noção sobre o assunto, além disto artigos não são feitos com características didáticas, a cada parágrafo há umas dez referências e estas ainda não explicam nada.
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        Quanto ao aspecto educação nem gostaria de falar, pois ela para muitos parece um estorvo na carreira, e se o professor tem dois ou três alunos de doutorado ele joga parte da carga didática sobre os ombros do mesmo. è um assunto que até me aborrece falar.
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  2. Avatar de Amaro Trindade Silva

    Roberto, excelente texto! Vejo aqui sugestões pertinentes, e que podem ser tomadas como diretrizes nessa “mudança cultural da qualidade da ciência brasileira”. Parabéns por ter dedicado tempo para se debruçar sobre o assunto. Esse debate é crucial para o direcionamento da pesquisa nacional rumo à qualidade e inovação.

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