As mais antigas flechas envenenadas têm 60 mil anos

Artigo de Reynaldo José Lopes, na Folha de São Paulo

Não sei ao certo quando topei pela primeira vez com o conceito de flecha envenenada. Talvez tenha sido ao ler “O Minotauro”, de Monteiro Lobato, que relata a primeira viagem da criançada do Sítio do Picapau Amarelo à Grécia Antiga. Lobato conta como o herói Hércules molhou as pontas de suas flechas no sangue da Hidra de Lerna, monstro de muitas cabeças que tinha acabado de derrotar. Dali em diante, nenhum ser vivo que fosse varado pelas setas de Hércules escaparia da morte. (Spoiler: tamanha eficiência na arte de matar acabaria se voltando contra ele mesmo). Desde então, passei a enxergar as flechas envenenadas como uma espécie de magia potentíssima –mas nem imaginava que ela podia ser muito mais antiga que os heróis sonhados pelos gregos.

Bem, agora dá para ser preciso: o estratagema adotado pelo filho de Zeus tem pelo menos 60 mil anos de idade –arredondando, 40 vezes mais tempo do que o intervalo que nos separa da Grécia da Idade do Bronze. E, apesar da mania que muita gente ainda tem de atribuir todas as invenções relevantes da humanidade à civilização helênica, a técnica foi criada na África, o continente-berço da nossa espécie, conforme mostra um estudo que saiu nesta semana na revista Science Advances.

As pontas de flecha feitas de pedra e com resquícios de um veneno de origem vegetal foram identificadas por um trio de cientistas sob liderança de Sven Isaksson, da Universidade de Estocolmo. Os artefatos vêm do abrigo rochoso de Umhlatuzana, na África do Sul, e o grau de preservação das substâncias tóxicas é tão impressionante que ainda se podem ver manchas do preparado venenoso na superfície do objeto.

A tecnologia do arco e flecha, de fato, é ainda mais antiga e também tem origens africanas, e uma série de exemplos do continente, incluindo flechas do Egito Antigo, já tinham sido identificados com traços de veneno. O achado sul-africano, porém, catapulta essa origem para um momento remotíssimo, antecedendo inclusive a maior parte da expansão dos humanos de anatomia moderna para fora da África.

Análises químicas revelaram, nas pontas de pedra, a presença de bufandrina e epibufanisina, compostos que também estavam presentes em flechas envenenadas muito mais recentes da região, com 250 anos de idade. O mais provável é que a fonte das substâncias sejam os bulbos da planta arbustiva Boophone disticha, muito comum na região e usada para o mesmo fim pelos caçadores-coletores da região.

O extrato do bulbo, depois de seco, adquire consistência de goma. Em doses pequenas, mata roedores em meia hora; em seres humanos, pode causar náusea, flacidez muscular, inchaço nos pulmões, paralisia respiratória e coma. Provavelmente era usado para caçar antílopes, como faziam os grupos mais recentes da área.

Boophone disticha

Não percamos de vista o que tudo isso significa do ponto de vista da história cognitiva da nossa espécie. Produzir esse tipo de artefato exige: 1) conhecimento das propriedades bioquímicas da flora; 2) habilidade técnica para preparar o extrato e aplicá-lo à flecha; 3) planejamento para flechar o animal-alvo e acompanhá-lo por tempo suficiente para que o veneno o derrube.

E isso para ficar só no básico. Dezenas de milênios atrás, na África, pessoas com uma mente tão complexa quanto a minha e a sua descobriram esse tipo de magia no meio da savana.

O artigo a que Reynaldo se refere é Direct evidence for poison use on microlithic arrowheads in Southern Africa at 60,000 years ago, publicado na revista Science Advances.



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