Um terço das escolas brasileiras não desenvolve ações de educação ambiental

Reportagem de Paulo Iannone no jornal Folha de São Paulo de hoje.

Um terço das mais de 179 mil escolas públicas e privadas no Brasil não desenvolve nenhuma atividade relacionada ao ensino sobre meio ambiente ou mudança do clima, de acordo com os dados mais recentes sobre o tema registrados no Censo Escolar 2024, do Inep.

Incluído na Constituição de 1988, o ensino sobre meio ambiente foi disciplinado pela Lei 9.795, de 1999, que estabeleceu a PNEA (Política Nacional de Educação Ambiental). Desde 2024, temas relacionados às mudanças climáticas e riscos dos desastres socioambientais fazem parte da política.

O Sudeste apresentou o pior índice entre as regiões do país: 42% das instituições de ensino não executaram nenhuma ação na área em 2024. Em seguida, vem o Norte, com 39%.

São Paulo, estado com maior número de escolas no país (30.401), registrou o menor índice de adesão às ações de educação ambiental entre os entes federativos. Mais da metade das instituições de ensino (51%) declaram não ter trabalhado o tema.

Por meio de nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que busca realizar ações para a formação de profissionais em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e mencionou a mobilização de mais de mil escolas na 6ª Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, realizada em 2025. No entanto, o órgão não forneceu esclarecimentos sobre os números do Censo Escolar.

Para Paulo Boggiani, professor do IGC-USP (Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo), a educação ambiental é fundamental para a sobrevivência da humanidade. “É preciso que exista uma conscientização ambiental que faça o indivíduo repensar seu papel na sociedade.”

Na avaliação do docente, os baixos níveis de desenvolvimento do ensino sobre o tema refletem a deficiência da educação brasileira, problema para o qual ele aponta como caminho a valorização e formação dos professores em todos os níveis. “Educação ambiental não pode ser só fazer árvore de Natal com garrafa pet”, diz.

De acordo com os dados do Inep, o Paraná foi o estado com o melhor resultado na área: 95% dos centros educacionais realizaram ações relacionadas ao meio ambiente.

Segundo o secretário de educação, Roni Miranda, o estado estimula ações transversais sobre o tema e desenvolveu um currículo unificado, com pensamento crítico e relacionado ao dia a dia do estudante.

Na sequência, os estados com melhores indicadores são Tocantins (84%), Santa Catarina (82%), Espírito Santo (80%), Rondônia (77%), Pernambuco (77%), Sergipe (75%) e Ceará (75%). Mesmo entre os mais bem colocados, os percentuais indicam que a implementação da educação ambiental ainda está distante do patamar ideal.

Como forma de valorizar iniciativas na área, o governo cearense criou, em 2017, o Selo Escola Sustentável, concedido a escolas públicas estaduais que se destacam em projetos de responsabilidade socioambiental.

O Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos) Guilherme Gouveia, instituição localizada em Granja, na região norte do estado, com cerca de 830 estudantes, recebeu em dezembro de 2025 o selo com a nota máxima (1.000) e prêmio de R$ 10 mil.

Segundo a diretora da escola, Sueli Magalhães, o ensino ambiental está presente em todas as disciplinas. Entre as ações realizadas pela unidade, ela destaca a coleta seletiva e destinação adequada de materiais, a reutilização de água para irrigação de jardins e hortas, a compostagem e o uso de energia solar para carregamento de dispositivos.

Para Magalhães, a formação e as ações sobre ecologia são determinantes para “formar cidadãos conscientes e capazes de agir de forma responsável na comunidade em que estão inseridos”.

“Não basta fazer ações isoladas em datas comemorativas, é preciso haver práticas pedagógicas permanentes, projetos interdisciplinares e atividades contextualizadas no território”, afirma Zara Figueiredo, secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC (Ministério da Educação).

De acordo com a secretária, uma das explicações para o resultado abaixo das expectativas nas escolas do país deve-se à paralisação da PNEA no governo anterior, com a interrupção de “apoio técnico e financeiro às secretarias estaduais e municipais de educação”.

Figueiredo afirma que a política de ensino ambiental foi retomada e “reúne um conjunto de ações articuladas, como a oferta de cursos de formação para professores, gestores e demais profissionais da educação, a produção de protocolos de adaptação e resposta às mudanças climáticas”, além do “repasse de recursos diretamente às escolas para o desenvolvimento de projetos e adequações em sua infraestrutura física”.

Esta reportagem é resultado do laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.



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