O texto a seguir é uma tradução livre do artigo do Professor Martin Peterson, da University of Texas A&M, publicado no site MS NOW.
Como professor de filosofia e ética, estou mais acostumado a ler notícias do que ser assunto delas. Porém, muitos veículos de comunicação noticiaram esta semana uma diretriz que recebi para excluir lições de Platão do programa de um curso. Compartilho este relato para dar uma ideia das minhas experiências na Texas A&M, tanto recentes quanto de forma mais ampla.

Já estive em Atenas muitas vezes e, em todas as visitas, faço questão de conhecer o sítio arqueológico da Academia de Platão, a primeira universidade do mundo, fundada por volta de 387 a.C. Enquanto outras escolas da época ensinavam os alunos principalmente em retórica e na arte de vencer debates, Platão incentivava explicitamente seus alunos a buscarem a verdade — mesmo quando fosse desconfortável ou controversa. É justamente essa postura em relação ao ensino e à pesquisa que tornou as universidades americanas as melhores do mundo. Não tornamos as universidades grandes novamente censurando os clássicos.
A proibição do ensino do “Simpósio” de Platão na Universidade Texas A&M é, em certo sentido, compreensível. Se aceitarmos a norma da universidade, adotada em novembro, que proíbe o ensino de “ideologia racial e de gênero”, Platão se junta a uma longa lista de pensadores proeminentes cujas ideias podem ser consideradas corruptoras para os jovens e, portanto, sujeitas à censura.
No “Simpósio”, Platão descreve a homossexualidade como totalmente natural e sugere que existem mais de dois gêneros: “vocês deveriam aprender sobre a natureza da humanidade… antigamente, nossa natureza não era a mesma que é agora, mas diferente. Pois, em primeiro lugar, existiam três tipos de seres humanos e não dois como hoje em dia, masculino e feminino. Não, existia também um terceiro tipo, uma combinação de ambos os gêneros.”
Ao ser notificado de que parte do meu currículo para a disciplina “Questões Morais Contemporâneas” não estava em conformidade com as normas da universidade, fiquei, de certa forma, agradavelmente surpreso com o conhecimento de que o alto escalão da Texas A&M tinham de Platão. Mas ainda assim foi um choque que eles se recusassem a deixar isso passar.
Me ofereceram a opção de remover as passagens de Platão em desacordo com as normas do meu programa de curso, ou ser realocado para lecionar outra disciplina de filosofia. Informei aos gestores que substituiria os módulos em questão por palestras sobre liberdade de expressão e liberdade acadêmica.
Para que fique claro, Platão dificilmente pode ser acusado de ser um extremista de esquerda. Ele rejeita explicitamente a democracia em favor de filósofos-reis iluminados. Ele é o filósofo preferido de líderes autoritários que buscam limitar a liberdade de expressão, a liberdade acadêmica e muitas outras coisas que consideramos garantidas há gerações. Portanto, não seria ele exatamente o tipo de filósofo que eu deveria pedir aos meus alunos para lerem se meu objetivo fosse agradar os líderes conservadores responsáveis pela nova política de censura?
Para deixar claro, não sou um extremista de esquerda; sou firmemente moderado. Sei que não estou sozinho nessa posição na minha instituição. Um ex-aluno enviou recentemente a seguinte mensagem ao reitor e ao presidente da universidade, com cópia para mim, que cito com permissão:
“Beneficiei-me dos desafios que os professores da Texas A&M me apresentaram durante minha graduação. Escolhi a A&M por ser um campus seguro e ideologicamente conservador. No entanto, como alguém que estudou em escola cristã do jardim de infância ao ensino médio, meus professores e colegas me desafiaram a repensar algumas coisas, a avaliar por mim mesmo no que eu acreditava. Foi um bom exercício, e me tornei uma pessoa melhor por causa disso. Tornei-me um cristão mais forte.”
Parece totalmente absurdo? Pois, fatos de certa forma relacionados aconteceram na USP em 2018, há oito anos. Segundo reportagem do Jornal do Campus, alunos da entidade Estudantes em Solidariedade ao Povo Palestino (ESPP-USP) repudiaram o curso “Para entender o Oriente Médio e o Conflito Israelo-palestino”. Em nota, o grupo se colocou contrário ao programa do curso, que consideraram ser uma promoção da agenda sionista.
É censura à liberdade acadêmica.
Vejam aqui o que o sociólogo Frank Furedi tem a dizer sobre a ação de alunos contra a liberdade de expressão e a liberdade acadêmica. O Prof. Furedi publicou em 2017 um livro sobre esse assunto, intitulado What’s Happened To The University?.
Vale a pena assistir ao filme “Sócrates” de Roberto Rossellini.
Também vale a pena assistir à análise do filme pelo Professor Roberto Bolzani, da FFCLCH da USP.
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