Notícia publicada na Folha de São Paulo, originalmente de Andrew Jacobs do New York Times (é uma tradução/adaptação, diferente da original)
Na corrida bilionária para comercializar a medicina psicodélica, a psilocibina, um alucinógeno natural mais conhecido como cogumelos mágicos, definitivamente tomou a dianteira.

A FDA (Food and Drug Administration, equivalente à Anvisa nos Estados Unidos) informou em novembro que anteciparia a revisão de um tratamento com psilocibina para depressão severa em nove a 12 meses, segundo o solicitante, Compass Pathways. A empresa espera receber a aprovação da agência para a terapia antes do final do ano.
A notícia está entre os primeiros sinais concretos de que a administração Trump está reconhecendo a medicina psicodélica como uma potencial ferramenta terapêutica. As medidas injetaram uma nova dose de otimismo em um campo nascente, que foi abalado pela rejeição da FDA, em 2024, da terapia assistida por MDMA, o primeiro psicodélico a chegar a uma revisão formal pelos reguladores federais.
“Entre os resultados de pesquisas e mudanças políticas, este é um momento decisivo para os cuidados de saúde psicodélicos, e a psilocibina é a estrela”, diz Nate Howard, diretor de operações da InnerTrek, uma clínica de psilocibina em Portland, Oregon. Howard foi uma força motriz por trás de uma medida bem-sucedida nas urnas em 2023 que criou o programa de psilocibina do Oregon.
Legisladores estaduais não estão esperando pelos reguladores da capital. No ano passado, o Novo México se juntou ao Colorado e Oregon na oferta de terapia legal com psilocibina para adultos. Legisladores em uma dúzia de estados, incluindo Carolina do Norte, Maryland, Geórgia e Califórnia, estão considerando flexibilizar as restrições sobre a droga, usando fundos públicos para pesquisar os potenciais benefícios da terapia com psilocibina.
Mas a implementação do programa de Oregon nos últimos dois anos não ocorreu tão bem quanto o previsto, considerando os desafios que estados e empresas provavelmente enfrentarão à medida que a medicina psicodélica se torna mais disponível. Requisitos caros de licenciamento e pessoal tornaram o preço das sessões inacessível para muitos, levando ao fechamento de um terço dos 36 centros de serviço licenciados do Oregon.
O preço de US$850 a US$3.000 (entre R$ 4.500 e R$ 16,1 mil, na cotação atual) por sessão individual reflete taxas anuais de licenciamento de cerca de e US$10.000 (R$ 53,8 mil) e regras administrativas e restrições de zoneamento que aumentam os custos operacionais de um centro.
Os proprietários de negócios enfrentam outros obstáculos ligados ao fato de que a psilocibina permanece ilegal sob a lei federal; empresas de cartão de crédito não processam pagamentos, e plataformas de mídia social como Meta proíbem anúncios relacionados à psilocibina. O seguro de responsabilidade civil, segundo os proprietários, pode custar até três vezes mais do que outras práticas médicas e relacionadas à saúde pagam.
“Temos uma operação bem enxuta e estamos entre os centros de atendimento de maior sucesso do estado, mas só conseguimos cobrir nossos custos”, afirma Andreas Met, diretor da Satya Therapeutics, um centro de serviços de psilocibina em Ashland, Oregon, que atende cerca de 50 clientes por mês.

Psilocybe mexicana
Uma experiência com psilocibina com um facilitador licenciado geralmente dura de cinco a seis horas, e isso não inclui as sessões de preparação e acompanhamento que os clientes são obrigados a participar antes e depois do tratamento.
Um número crescente de estudos sugere que a psilocibina é eficaz no tratamento de condições complexas de saúde mental, como transtorno obsessivo-compulsivo, anorexia e transtorno por uso de álcool. Outros ensaios clínicos estão avaliando sua eficácia para dor crônica nas costas, depressão e cessação do tabagismo.
Chuck Lovett, 63, um sobrevivente de abuso sexual da Pensilvânia que viajou para o Oregon no ano passado para uma sessão de psilocibina, afirma que o tratamento proporcionou alívio duradouro da depressão e pensamentos suicidas que o assombravam desde que foi abusado por um padre católico na adolescência. “A psilocibina me devolveu minha vida”, acrescenta.
“Oregon oferece uma oportunidade sem precedentes para examinar como a terapia psicodélica funciona em uma população diversa”, diz Matthew Hicks, pesquisador da Universidade Nacional de Medicina Natural em Portland.
Mais de 18 mil pessoas já passaram pelo programa de psilocibina do Oregon, e os dados iniciais sobre eventos adversos têm sido positivos.
De acordo com a autoridade de saúde do estado, 23 incidentes exigiram serviços de emergência, o que os especialistas consideram um número baixo. Muitas chamadas envolveram clientes em sofrimento que procuraram deixar prematuramente sua sessão contra o conselho de um facilitador.
Angela Allbee, que supervisiona os serviços de psilocibina na Autoridade de Saúde do Oregon, afirma que nenhum dos incidentes foi grave.
“Estatisticamente falando, a terapia com psilocibina é mais segura do que jogar golfe”, diz Ryan Reid, diretor de operações e cofundador da Bendable Therapy em Bend, Oregon.
O estado proíbe pessoas com esquizofrenia e psicose ativa de participar do programa, porque a droga pode desencadear ou exacerbar sintomas maníacos e psicóticos. Para aqueles sem diagnósticos psiquiátricos, os efeitos colaterais podem incluir dores de cabeça, náusea, ansiedade e flutuações na pressão arterial.
Os benefícios terapêuticos da psilocibina estão ligados à capacidade da droga de temporariamente reconectar o cérebro, ajudando os pacientes a quebrar o ciclo de pensamento negativo que é a marca registrada de muitas condições de saúde mental difíceis de tratar.
O fechamento de tantos centros, no entanto, destaca falhas no programa do Oregon. Restrições de zoneamento que limitam onde os centros de serviço podem operar levaram a aluguéis elevados. E como as sessões de psilocibina podem aumentar a vulnerabilidade de um paciente, o Oregon exige que dois funcionários estejam no local o tempo todo, aumentando os custos operacionais.
Uma proposta para aumentar as taxas de licenciamento, segundo os operadores, poderia forçar mais centros de serviço a fechar.
Por enquanto, o alto preço de uma sessão está levando as pessoas a buscar tratamento em clínicas clandestinas, muitas operadas por uma legião de facilitadores recém-licenciados que se encontram excluídos do sistema administrado pelo estado devido aos preços.
O Colorado procurou abordar algumas das questões de acessibilidade estabelecendo taxas de licenciamento cerca de 20% mais baixas que as do Oregon, e fornecendo mais flexibilidade para operadores e consumidores.
Em contraste com Oregon, Colorado descriminalizou a psilocibina para uso pessoal em 2022. O estatuto não permite que os condados proíbam negócios de psilocibina.
Há outras diferenças: diferentemente do Oregon, Colorado permite que os clientes consumam a droga em casa, facilitando o acesso ao programa para aqueles em cuidados paliativos. Microdosagem em pequenas quantidades, uma abordagem cada vez mais popular, também é mais fácil e menos cara de fazer.
Allison Robinette, diretora de política e assuntos regulatórios na Divisão de Medicina Natural no Colorado, afirma que o estado já aprovou 30 licenças de centros de cura, com mais 20 solicitações pendentes.
O Novo México está adotando uma abordagem diferente. O programa de psilocibina do estado, assinado como lei no ano passado, usa um modelo médico que limita o acesso àqueles com condições qualificadas de saúde mental. Por enquanto, isso inclui depressão resistente ao tratamento, transtorno de estresse pós-traumático e ansiedade de fim de vida. Espera-se que as primeiras clínicas do estado abram no final deste ano.
A coluna Virada Psicodélica do jornalista Marcelo Leite, na Folha de São Paulo, é uma das melhores sobre o assunto.
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