Astrônomos detectam misteriosa ‘barra de ferro’ na Nebulosa do Anel

Reportagem de Will Dunham, da Reuters, Washington, publicada na Folha de São Paulo

A Nebulosa do Anel, uma concha brilhante de gás e poeira expelida por uma estrela moribunda, foi descoberta em 1779 e tem sido objeto de estudos desde então. Mas isso não significa que já descobrimos tudo sobre ela.

Em um artigo que saiu no último dia 16 no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, pesquisadores descreveram a identificação de uma grande nuvem de átomos de ferro em forma de barra que se estende por cerca de 6 trilhões de quilômetros através da face da nebulosa.

É possível, segundo eles, que os átomos de ferro, coletivamente comparáveis à massa do núcleo de ferro fundido da Terra, sejam os restos de um planeta rochoso que foi vaporizado quando a estrela expeliu suas camadas externas. Essa explicação, no entanto, é uma mera conjectura, segundo eles.

Os autores do estudo fizeram a observação usando um novo instrumento chamado Weave (WHT Enhanced Area Velocity Explorer), do telescópio William Herschel. O equipamento fica na ilha de La Palma, uma das Ilhas Canárias da Espanha.

“É emocionante ver que mesmo um objeto muito familiar, muito estudado ao longo de muitas décadas, pode apresentar uma surpresa quando observado de uma nova maneira”, disse o astrônomo Roger Wesson, da Universidade de Cardiff (País de Gales) e do University College London (Inglaterra), autor principal da pesquisa.

“É um objeto clássico para astrônomos profissionais e amadores observarem”, afirmou o pesquisador. “Embora seja muito fraco para ser visto a olho nu, é bastante fácil de localizar com binóculos. Com um pequeno telescópio, você pode ver a aparência de anel.”

Também chamada de Messier 57, a Nebulosa do Anel fica a cerca de 2.600 anos-luz da Terra na constelação de Lira —um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, 9,5 trilhões de quilômetros. Acredita-se que ela tenha se formado há aproximadamente 4.000 anos, muito recentemente em tempo cósmico.

A nebulosa é familiar até mesmo para estudantes iniciantes de astronomia. “Você a encontrará em muitos livros de astronomia”, disse a astrônoma Janet Drew, do University College London, coautora do estudo.

Por isso, a barra de ferro é tão intrigante.

“Nenhum outro elemento químico que detectamos parece estar nessa barra. Isso é estranho, francamente. Sua importância está no simples fato de que não temos uma explicação pronta para isso”, disse Drew. “A origem do ferro pode remontar à vaporização de um planeta. Mas pode haver outra maneira de criar essa característica que não envolva um planeta.”

“Um planeta como a Terra conteria ferro suficiente para formar a barra, mas não existe uma explicação de como ele acabaria em forma de barra”, acrescentou Wesson.

A nebulosa formou-se quando uma estrela com cerca de duas vezes a massa do Sol esgotou seu combustível nuclear no núcleo, inchou transformando-se no que é chamado de gigante vermelha e expeliu suas camadas externas antes de se tornar um remanescente estelar compacto conhecido como anã branca, aproximadamente do tamanho do nosso planeta.

“Da perspectiva da Terra, tem a aparência de um anel, embora acredite-se que seja na verdade mais como um cilindro de material que estamos vendo de ponta”, explicou Wesson.

Cerca de 3.000 dessas nebulosas são conhecidas em nossa galáxia. Estudá-las permite que os astrônomos examinem o estágio da vida das estrelas quando elementos químicos forjados por processos nucleares dentro delas são liberados no espaço interestelar para serem reciclados e contribuírem para a próxima geração de estrelas e planetas.

“Esperamos obter mais dados para dar continuidade a essa descoberta, para tentar desvendar de onde veio a barra de ferro”, disse Wesson.



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