Minerais que moldam o futuro energético mundial

Texto do site Grist, traduzido livremente.

Desde que o mundo se comprometeu a enfrentar as mudanças climáticas sob o Acordo de Paris, os sistemas energéticos globais passaram por uma revolução. O emprego da energia solar nos Estados Unidos aumentou seis vezes, e o emprego da energia eólica mais que dobrou. Atualmente mais de 40 milhões de veículos elétricos circulam em todo o mundo. Porém, diminuir significativamente, ou eliminar a dependência de combustíveis fósseis, e adotar novas tecnologias verdes exige uma enorme quantidade de metais.

São necessários lítio e cobalto para fabricar as baterias de veículos e bicicletas elétricos; níquel e terras raras para a fabricação de painéis solares e turbinas eólicas; cobre para fios que conduzem energia renovável. Quanto mais rápido os combustíveis fósseis serão substituídos, mais metais e minerais críticos serão necessários. Nesta transição energética, a demanda global por metais críticos quadruplicará até 2040, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Isso explorar minas a céu aberto, construir refinarias para purificar minério bruto e estabelecer novas fábricas de baterias e turbinas.

Assim como o século XX foi definido pela geografia do petróleo, provavelmente o século XXI será definido pela geografia dos metais: complexas cadeias de suprimentos industriais que fluem do mundo em desenvolvimento para o mundo desenvolvido e vice-versa.

Em seu primeiro dia de mandato, Donald Trump assinou duas ordens executivas que mencionaram os minerais críticos, afirmando que o país os estava extraindo em um ritmo “muito inadequado para atender às necessidades da nossa nação”. Desde então, Trump tem tentado acelerar a emissão de licenças para projetos de mineração no país. Ao mesmo tempo busca mais suprimentos no exterior. Inclusive na Groenlândia, a qual afirmou há um ano que deveria estar sob controle dos EUA. E na Ucrânia, onde tentou garantir acesso a minerais em troca de proteção contra a Rússia.

Comentário: desde então este cenário só tornou-se ainda mais complexo.

Embora Trump busque todas as medidas possíveis para impedir o desenvolvimento de energia renovável, a busca do seu governo por estes recursos reflete uma realidade inexorável: a crescente necessidade mundial de minerais críticos tem enormes implicações geopolíticas, para as políticas climáticas e ambientais.

Os minerais

Um componente ou produto que gera ou utiliza energia chamada de “energia renovável”, baterias de veículos elétricos ou painéis solars, contém dezenas de minerais. Alguns são abundantes, como o cobre, por exemplo. Outros minérios, mais escassos, são muito mais difíceis de obter. Governos e empresas correm para reforçar seus suprimentos.

LÍTIO

O lítio é essencial para a tecnologia limpa porque é ideal para as baterias de veículos elétricos e baterias que armazenam a energia produzida pela energia solar e eólica. Embora seja relativamente comum, a extração de lítio só é economicamente viável em locais de grandes depósitos e de fácil acesso. A Austrália é maior produtor mundial de lítio, respondendo por cerca de 50% da oferta global. O país considera o lítio como um substituto fundamental para exportações ameaçadas, como o carvão.

Bolívia, Argentina e Chile formam o chamado “triângulo do lítio”, produzindo quantidade relativamente pequena do mineral. Porém, juntos detêm mais da metade das reservas mundiais. Os depósitos na Bolívia estão localizados no imenso Salar de Uyuni, maravilha ecológica que abriga o povo indígena Aymara. Enquanto que os governos bolivianos vêem a exploração do lítio como estratéica, os moradores de Uyuni protestam contra os impactos ambientais da mineração no salar.

Nos Estados Unidos o suprimento de lítio se encontram em um deserto no norte do estado de Nevada. Thacker Pass abriga um dos maiores depósitos de lítio conhecidos do mundo, estimado em mais de 40 milhões de toneladas recuperáveis do metal. A Lithium Americas está construindo a maior mina de lítio do país. O projeto recebeu apoio tanto do governo Biden quanto do primeiro governo Trump, além de mais de US$ 600 milhões em compromissos financeiros da General Motors, que detém os direitos exclusivos sobre o primeiro produto mineral extraído da mina.

COBALTO

A República Democrática do Congo (RDC) domina a produção mundial de cobalto, ingrediente crucial das baterias de íon-lítio. A RDC responde por 80% da produção global de cobalto. Contudo, a China detém ou é uma das principais acionistas da vasta maioria da infraestrutura mineral do país, que cresceu rapidamente nos últimos anos. As operações de mineração na RDC forçaram milhares de pessoas a deixarem suas casas, poluíram o ar com poeira tóxica de cobalto e despejaram rejeitos tóxicos em rios e córregos. As minas dependem amplamente do tráfico de pessoas e do trabalho infantil.

Nenhum outro país possui reservas comparáveis de cobalto. A RDC detém mais da metade do suprimento mundial, o dobro da Austrália, o segundo país com maior reserva. Rússia e Canadá, possuem reservas suficientes para suprir apenas cerca de um ano da produção mundial de cobalto. Considerando-se de que não haverá descobertas de outras reservas de cobalto em outros países nos próximos anos, o caminho para uma transição energética bem-sucedida necessariamente passará pela RDC.

Nos oceanos, a Zona de Clarion-Clipperton, uma vasta extensão do Oceano Pacífico entre o Havaí e o México, contém talvez as maiores reservas de cobalto do mundo. Os sedimentos a mais de 3.000 metros de profundidade contém cerca de 50 milhões de toneladas de cobalto, várias vezes mais do que as reservas da RDC. Todavia, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos é crítica à exploração de cobalto de sedimentos marinhos.

NÍQUEL

O níquel é utilizado em baterias de veículos elétricos, em painéis solares, turbinas eólicas e na produção de “hidrogênio verde”. Diversos países, como Rússia, Austrália, Brasil, Indonésia, e o território ultramarino francês da Nova Caledônia possuem enormes reservas de níquel. Como o níquel é usado há muito tempo no aço inoxidável e em outras ligas, existem muito mais minas maduras e prontas para produção do que para o cobalto.

A Indonésia responde por metade da produção global de níquel. Mas, o país depende da China para refinar seu minério de níquel bruto e investir em sua infraestrutura de mineração. Em esforço para reduzir essa dependência, a Indonésia impôs proibição à exportação de minério de níquel bruto em 2020, forçando os produtores a investir em recursos de fundição no país.

O Brasil abriga algumas das maiores reservas de níquel inexploradas do mundo. A empresa Vale busca investir bilhões de dólares na expansão da mineração de cobre e níquel.

TERRAS RARAS

Os elementos de terras raras são essenciais para a energia eólica moderna. São componentes de ímãs ultra-potentes e de longa duração que acionam turbinas para gerar energia. Mais da metade da exploração global de terras raras está concentrada na China, que detém o controle absoluto da cadeia de suprimento. O país explora esses elementos em enormes minas a céu aberto. Na província de Jiangxi as operações de mineração devastaram florestas e deixaram para trás poços de águas residuais contaminadas. Já o Vietnam possui 22 milhões de toneladas de terras raras no subsolo, cerca de 20% da oferta mundial conhecida. Em 2023 estabeleceu acordo com os EUA para desenvolver o setor.

Donald Trump está empenhado em tomar a Groenlândia da Dinamarca. Dentre outras, as estratégias buscam garantir um posto militar estratégico no Ártico, acesso a uma das maiores reservas inexploradas de metais de terras raras do mundo, além de se beneficiar de rotas marítimas comerciais.

A CADEIA DE SUPRIMENTOS

A rocha bruta da qual os minérios são extraídos em locais como a Austrália ou a Indonésia necessita passar por um complexo processo de refino para se tornar um condutor adequado de eletricidade. Em seguida os minérios refinados precisam ser transportados para uma fábrica e serem integrados a uma bateria.

O refino é a origem do maior gargalo da transição energética mundial. Praticamente todo o metal extraído, seja da Indonésia ou do Canadá, precisa ser transportado para a China para ser refinado. A China detém 90% da capacidade mundial de refino de terras raras, cerca de dois terços da capacidade de refino de lítio e cobalto e cerca de um terço da capacidade de refino de níquel. O Estado chinês reconheceu desde cedo que os minerais críticos seriam essenciais para um futuro onde os combustíveis fósseis estivessem em declínio. Investiu bilhões de dólares na construção de refinarias. O país também investiu na alta produção desses minerais em outros países em desenvolvimento, por meio de sua política “Cinturão e Rota” (de US$ 1 trilhão), permitindo-lhe alcançar a integração vertical em toda a cadeia de suprimentos de vários minerais.

Os Estados Unidos têm feito tentativas de construir sua capacidade de refinarias de lítio, mas este é um processo lento e gradual. Graças à natureza protecionista das políticas climáticas dos EUA — a Lei de Redução da Inflação restringe os subsídios para veículos elétricos a carros fabricados com material de bateria produzido e refinado exclusivamente nos Estados Unidos — toda a transição energética dos EUA depende desse progresso lento.

O esforço mais promissor para tornar os Estados Unidos competitivos na cadeia de suprimentos pode ser plantas industriais de reciclagem. A startup Ascend Elements inaugurou sua primeira grande instalação para reciclagem de baterias de íon-lítio em Covington, Geórgia, em 2023. A cada ano, a instalação tritura baterias contendo o equivalente ao lítio de 70.000 veículos elétricos usados e utiliza uma solução líquida para transformar o pó triturado em novo material catódico. Se essa abordagem puder ser ampliada substancialmente, poderá reduzir a dependência dos EUA da complexa cadeia de suprimentos da mineração.

Além do refino ser a maior vantagem da China, o país também é fabricante de baterias, carros e turbinas eólicas. As tarifas impediram que as principais montadoras alemãs se popularizassem nos Estados Unidos. Mas a marca chinesa BYD (BuildYourDreams) agora detém cerca de 15% do mercado global de veículos elétricos, ultrapassando a Tesla como o carro elétrico mais popular do mundo. No setor de energia eólica, a China produz 60% das turbinas eólicas do mundo.

O fato de uma das maiores fábricas da Tesla estar localizada na Alemanha, a milhares de quilômetros de distância de minas e refinarias de lítio, demonstra claramente uma ironia crucial no desenvolvimento global: países ricos como os Estados Unidos e a Alemanha fizeram o possível para manter empregos bem remunerados na indústria pesada, mas agora dependem dos países em desenvolvimento para os minerais que abastecem seus setores industriais.

Comentário: com um detalhe – a economia alemã vai de mal a pior.


Vale a pena visitar o site da reportagem da Grist, que têm gráficos interativos muito bons. Além disso, o mesmo site têm vários outros textos relacionados ao mesmo assunto.



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