Por que o Vaticano é contra a IA?

Texto de Rodrigo Toniol, Professor de antropologia da UFRJ, membro da Academia Brasileira de Ciências, publicado no jornal Folha de São Paulo em 24 de março de 2026

Uma cena que mais parece tirada de um episódio da série “Black Mirror” ocupou as páginas dos sites de notícias do Vaticano. Em fevereiro deste ano, o papa reuniu padres de diferentes faixas etárias para uma conversa. Os sacerdotes talvez esperassem uma conversa sobre os mistérios da fé. Receberam, em vez disso, uma recomendação papal sobre um tema que se tornou central no Vaticano: os padres estão proibidos de usar inteligência artificial para fazer seus sermões. Como é de se imaginar, a indicação do papa só existe porque a prática tem se difundido.

Essa proibição, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de uma relação já longa e tensa do Vaticano com a inteligência artificial.

Não seria exagero dizer que o Vaticano tem sido um dos atores globais que mais consistentemente aponta para os problemas no uso disseminado de IA pelo mundo. O tema já ocupava Francisco.

Em fevereiro de 2020, mais de dois anos e meio antes do lançamento do ChatGPT, uma comissão do Vaticano, chamada Pontifícia Academia para a Vida, elaborou o documento Apelo de Roma para Ética na IA. O objetivo era arrancar das grandes empresas de tecnologia o compromisso de desenvolver produtos pautados por fundamentos éticos incontornáveis, como responsabilidade e segurança. Gigantes deste mercado como IBM, Microsoft e Cisco assinaram o documento.

Em junho do ano passado, já sob o papado de Leão 14, a romaria de CEOs e representantes das big techs para dialogar com a cúria sobre IA se repetiu. Em um evento realizado dentro dos muros do próprio Vaticano, na mesa com cardeais e bispos estavam Google, IBM, Anthropic, Palantir Technologies, Cohere e AI21 Labs.

Dessa movimentação, duas coisas chamam atenção. A primeira é que, enquanto os países individualmente têm procurado estabelecer regulações nacionais para o uso de IA, o Vaticano, de fato, tem procurado se colocar no lugar de mediador global no diálogo com as empresas do ramo. A segunda é que o fundamento da desconfiança dos religiosos com essas novas tecnologias diz respeito menos à tecnologia em si do que a uma pergunta filosófica antiga, que incomoda igualmente religiosos e não-religiosos.

O problema fundamental que o Vaticano tem com a IA tem duas faces de uma mesma moeda. Por um lado, essas tecnologias simulam, em suas habilidades e formas de interação, aquilo que não são: humanas. Por outro lado, o uso extensivo de IAs por humanos pode levá-los a deixar de reconhecer aquilo que nos singulariza: a capacidade de pensar, criar e buscar sentido por conta própria.

Ocorre que essa crítica à IA, fundada não em questões técnicas, mas nas consequências existenciais de sua disseminação para as gerações atuais e futuras, não é exclusiva de bispos e cardeais. Pelo contrário, sem nenhuma referência a Deus ou à teologia, pesquisadores contemporâneos críticos à inteligência artificial chegam a diagnósticos semelhantes.

Shoshana Zuboff, professora emérita de Harvard, argumenta que as grandes empresas de tecnologia transformam a experiência humana em matéria-prima e corroem a autonomia individual. Byung-Chul Han, influente filósofo sul-coreano, sustenta que a IA não pensa, porque pensar exige paixão, narrativa e contemplação, coisas que nenhum algoritmo é capaz de produzir. Éric Sadin, filósofo francês, é ainda mais direto e diz que o ChatGPT representa uma abjeção civilizatória, que redefine o que se espera do ser humano e transfere para máquinas o domínio sobre a linguagem e a criação, que nos eram exclusivos.

Para todos esses pensadores contemporâneos, assim como para os religiosos da cúria romana que têm se ocupado do assunto, debater sobre IA é discutir uma questão tão profunda quanto o que nos distingue de tudo o mais. Nesse caso, não surpreende que pregar um sermão feito por inteligência artificial não seja um limite que o papa esteja disposto a cruzar.



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