Biopirataria

A notícia a seguir foi publicada no jornal Folha de S. Paulo, na edição de sábado 01/08/09, e é aqui transcrita na íntegra.

Insetos brasileiros estão à venda em sites na internet – artigo de Ricardo Mioto

Insetos brasileiros saídos ilegalmente do país estão à venda por poucos dólares na internet. Qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode adquiri-los. Basta digitar no “Google” as palavras “dried insects” (“insetos secos”) e preparar o cartão de crédito. Na última semana, a reportagem da Folha encontrou pelo menos três sites que vendem insetos mortos brasileiros e os entregam em qualquer lugar. Um deles está fazendo até um “saldão” e dando 25% de desconto em todas as peças.

Trata-se do belga Bug Maniac, onde recentemente um grupo de cientistas da Universidade de Utah (EUA) encomendou por 4 o besouro brasileiro Lamprocyphus augustus, o “besouro fotônico”. As propriedades de sua carapaça verde, descritas em um artigo no periódico “Physical Review E”, podem ajudar a desenvolver novos chips de computador.

insetos

O site diz ter “mais de mil clientes”, recebendo algo entre “100 e 200 e-mails por dia”. São mais de 70 espécies de insetos brasileiros à venda. Capturar esses animais e enviar para o exterior sem autorização é crime. A multa para pessoas físicas chega a R$ 50 mil. Mas a diversidade na oferta mostra que os fornecedores no Brasil não estão tendo dificuldades.

De onde esses animais, muitos exóticos e raros, vêm? Segundo a loja virtual Butterflies and Things, sediada no Estado americano de Ohio, entre os fornecedores estão “pessoas no Terceiro Mundo que ganham a vida coletando borboletas e insetos”. Além do Brasil, há dúzias de espécimes da Argentina, do Peru, da Bolívia, do Paraguai e do Chile, para ficar só na América do Sul.

O Ibama só autoriza a coleta de exemplares da fauna silvestre – assim como da flora – a cientistas e profissionais de instituições credenciadas, como universidades ou institutos de pesquisa. Não é o caso.

Quem compra são desde colecionadores apaixonados, museus, escolas e artistas até revendedores pelo mundo. É animado o mercado internacional de borboletas mortas.

biopirataria

Acusações de biopirataria

Enquanto a porteira parece continuar aberta de um lado, cientistas brasileiros sofrem com a burocracia e reclamam, dizendo que são tratados como criminosos e que se leva muito tempo para conseguir autorizações para coleta de espécimes.

O biólogo Carlos Jared, por exemplo, do Instituto Butantan, foi multado em R$ 21 mil pelo Ibama, em 2007. Tentava enviar onicóforos, animais de aspecto vermiforme, para um colega na Alemanha.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, diz que “é difícil fiscalizar” os criminosos, mas que o tratamento aos pesquisadores vai melhorar. Minc diz que o país está sendo “fraudado, depenado” pela biopirataria. “Estamos aumentando a fiscalização nas unidades de conservação. É muito pouca gente, uma pessoa pra tomar conta de uma unidade enorme, é uma covardia”, diz. A ideia do ministério é barrar a biopirataria tanto na hora da coleta quanto nos aeroportos. “Estamos montando um sistema com a Infraero”, afirma.

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Sobre as reclamações dos pesquisadores, Minc diz que uma nova lei de acesso irá para o Congresso até o final de agosto e que, em breve, os pesquisadores levarão poucos dias para conseguir licenças de coleta e envio. “Se forem de uma instituição de peso como a Fiocruz ou a USP e elas assumirem a responsabilidade por eles, a licença será automática.”

Comentários do autor deste blog:

Além do texto da reportagem ser de péssima qualidade, fica claro que, apesar da existência da Medida Provisória 2.186-14, de 28 de Junho de 2001, que regulamenta o acesso à biodiversidade e ao patrimônio genético no Brasil, a aplicação efetiva desta MP ainda deixa a desejar, principalmente por deficiência de pessoal para fiscalização.

As leis e as regulamentações devem ser feitas para atender aos interesses do povo de uma nação. Veja aqui, de onde tomo emprestado o texto seguinte, de autoria da Professora Terezinha Oliveira, do Departamento de Fundamentos da Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá:

“(…) uma sociedade só caminha para o bem comum quando seu governo cuida para que suas leis e instituições estejam voltadas para o bem comum de todos os homens, sejam eles súditos, como no medievo, ou cidadãos, como nas nossas sociedades do Ocidente. Entretanto, além da existência de leis justas e de um governo que dirige a sociedade com eqüidade, é imprescindível que as autoridades que zelam e aplicam as leis não só as conheçam, mas, acima de tudo, as apliquem com retidão.”

Nota: vejam os comentários ao texto de Marcelo Leite da postagem anterior, aqui.



Categorias:educação, informação

5 respostas

  1. Já tive ocasião de apontar à “Folha” alguns erros grosseiros nessa reportagem, mas aproveito para resumir:
    Borboletas do Brasil à venda na Web têm origem majoritariamente LEGAL, em criadouros registrados no IBAMA em SC – consulte site do IBAMA. As borboletas da ilustração são duas fêmeas em estado perfeito: foram criadas… fêmeas são raramente avistadas na natureza e difíceis de coletar perfeitas, sempre tem riscos ou falhas nas asas. Teve época em que parte dos insetos brasileiros no mercado de colecionadores (… como Filatelia ou Numismática) era coletada, especialmente na Amazônia, em cidades como Santarém e Óbidos, que tinham sua maior renda nesse comercio; depois que foi proibido na década de 70, o desmatamento ao redor delas aumentou bastante, pois seus habitantes tiveram que procurar outro ganha-pão. Hoje, por causa da fiscalização conjunta CORREIOS/IBAMA é virtualmente impossível enviar material coletado para fora –que o digam os pesquisadores- na Internet se oferece material estocado faz anos. A criação comercial de insetos é uma forma de Biotrade -atividade de desenvolvimento sustentável- promovida pelo WWF e outros, pois EXIGE a manutenção das matas para obtenção das matrizes. O homem compra e vende muita coisa: ovos, hortaliça, flores, galinhas, etc., não vejo mal em fazer isso com insetos e outros não ameaçados. Se uma espécie deve ser protegida tem que haver argumentos para tal, pois a Natureza foi feita para ser usada, mantida, manejada e preservada pelo Ser Humano. No Brasil o tratamento é genérico; impera uma “Lei Seca” que não distingue a mosca varejeira da ararinha azul, para efeitos de proteção, coleta, manejo, etc. Aqui alguns exemplos de trabalho –Biocomércio- com insetos por esse mundo, inclusive na África, que neste quesito dá de 10 a zero no Brasil
    http://www.amanibutterflyproject.org
    http://www.kipepeo.org/index.php
    http://www.butterflyfarm.co.cr
    http://www.marinduque-butterfly.com

    Veja como a mesma matéria foi ainda mais deturpada na “Isto É”.
    http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2074/artigo146099-1.htm
    A Morpho catenarius é muito comum e criada no Sul… Fui no site indicado e vi o preço: exemplares normais “OUT of STOCK” e depois um único exemplar fêmea aberrante (variação genética ocasional): 425… acontece que é um exemplar antigo, de coleção e aberrante, o macho figurado na reportagem vende por $US 2-3, uma fêmea “normal” $US4-6.

  2. quero ver a possíbilidade de resceber mais matérias sobre este assunto.

  3. eu ñ gostei das fotos pq estão muito pequenas

  4. Parabéns pelo comentário Sr. Jorge Bizarro.

    O que a gente mais vê aqui é desinformação a respeito do tema.

    Por um lado os echochatos, por outro, o IBAMA que nada mais é que é um orgão de ideologia xiita e não o orgão que se preocupa com a extinção e favorece a criação das espécies ameaçadas.

    Parece que existem 26 espécies na lista em extinção. Ora, exceto a Dasyophtalma vertebralis que está extinta, por quê o IBAMA não autoriza a criação dessas espécies para repovoamento ao invés de deixá-las extinguir ? É o óbvio !

    O problema é que virou fonte de renda ser ECOLOGISTA seja ONG’a nacionais e internacionais que recebem dinheiro aos montes seja os ECOLOGISTAS de terno e gravata, com escritórios refrigerados na orla de Copacabana, como o ex-ministro Carlos Minc.

    Completando seus exemplos de trabalho –Biocomércio cito http://www.ifta.com.pg que re-introduziu o gênero Ornithoptera na natureza ( exceto O. alexandre ), comercializa-as LEGALMENTE ( CITES ) etc…

    Se o IBAMA quer preservar ele deve ter uma política mais flexível para o estudioso, o entomologista amador, para fins didáticos etc.

    Da maneira que está, somente proibindo isso e aquilo VAI ACABAR EXTINGUINDO TODA A NOSSA FAUNA NATIVA.

    Enquanto isso, o Brasil está cada vez mais desmatado, com os fazendeiros fazendo o que querem e cada vez mais destruindo nossa fauna nativa e o fiscal do IBAMA multando um comerciante por causa de um quadro de borboletas que depois se verifica que vem de criador legalizado.

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