Nem um pouco. Mas sim inovador. Artigo publicado por Fabio de Castro no Boletim da Agência FAPESP relata um método inovador de avaliação, desenvolvido pelo professor Marcelo de Hermes-Lima, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília e autor do blog “Ciência Brasil“. O artigo:
Erros que ensinam – Fábio de Castro
Os erros cometidos por jornais, revistas e sites sobre ciência e saúde podem ser de grande utilidade para avaliar os conhecimentos de estudantes de medicina e nutrição, de acordo com uma nova proposta pedagógica desenvolvida e aplicada em aula por um professor da Universidade de Brasília (UnB). O método de avaliação, criado por Marcelo Hermes-Lima, professor do Departamento de Biologia Celular da UnB e utilizado na disciplina Bioquímica e Biofísica, foi descrito em um artigo que será publicado em breve na revista Biochemistry and Molecular Biology Education.
De acordo com Hermes-Lima, nas provas, os alunos de graduação devem responder se determinadas informações veiculadas em diferentes mídias são verdadeiras ou falsas, com base em seus conhecimentos de bioquímica metabólica, clínica e nutricional. O método é utilizado neste formato desde 2006. “A capacidade para reconhecer os erros pode exigir um bom conhecimento na área biomédica. Para isso, utilizamos textos com informações corretas e erradas retiradas de veículos teoricamente confiáveis, mas que eventualmente contêm erros de diferentes magnitudes”, disse Hermes-Lima à Agência FAPESP.
Segundo o professor, monitores de graduação que são alunos de uma disciplina avançada de bioquímica participam ativamente da elaboração das provas. “O alto grau de envolvimento desses estudantes, quando se lançam a uma revisão crítica dos conteúdos da mídia, é um dos aspectos mais interessantes da experiência”, disse o professor. Julia Martins Oliveira e Diego Martins Mesquita – alunos de Medicina da UnB e ex-monitores de bioquímica – são coautores do artigo. Além de descrever o método, o artigo reporta a reação de 258 estudantes em relação às provas. “Os resultados mostram que 71% deles acharam as provas difíceis. Os que consideraram as provas de boa qualidade foram 87%. E 94% acharam que o uso de questões extraídas da mídia é relevante para a avaliação do aprendizado”, disse.
A média de notas dos alunos nas provas aplicadas entre 2006 e 2008 foi de 5,85 (com 10 de nota máxima). Segundo Hermes-Lima, o baixo desempenho é possivelmente decorrente do fato que os alunos não estão familiarizados com provas que não enfatizam a memorização e os processos bioquímicos. “Infelizmente, no ensino universitário brasileiro, os estudantes ainda são impelidos a decorar”, ponderou. Para classificar os tipos de questões feitas nas provas, o estudo utilizou a escala de Bloom, uma escala cognitiva empregada em pedagogia. “Um dos objetivos do uso de artigos publicados pela mídia nas provas foi enfatizar o nível 3 da escala, que corresponde à aplicação do conhecimento – enquanto o nível 1, por exemplo, corresponde à ênfase na memorização. Concluímos que um terço das questões das nossas provas estão no nível 3 da escala”, disse.
Hermes-Lima explica que, ao selecionar as imprecisões veiculadas em diferentes mídias para utilização nas provas, sua equipe evitou incluir os erros mais grosseiros. “Utilizamos equívocos de diferentes níveis, mas escolhemos erros normais de quem faz jornalismo científico na pressa das redações. Descartamos os absurdos completos”, disse. As provas podem incluir, por exemplo, matérias corretas publicadas por revistas de entretenimento e conteúdos errados veiculados por colunistas consagrados. Fazemos isso como uma desmistificação, para mostrar que o erro e o acerto podem estar em qualquer lugar. Achamos que os estudantes terão que lidar com forte influência da mídia na maneira como seus futuros pacientes percebem questões de saúde. Como os erros e simplificações exageradas são comuns, temos que preparar os futuros profissionais para identificá-los”, disse.
O artigo “What’s on the news? The use of media texts in exams of clinical biochemistry for medical and nutrition students”, de Marcelo Hermes-Lima e outros, pode ser lido por assinantes da Biochemistry and Molecular Biology Education em www3.interscience.wiley.com.
Observações do autor deste blog: achei muito interessante a proposta do Prof. Hermes-Lima, que traz à discussão em sala de aula a utilização de conceitos de maneira crítica, na avaliação da qualidade da informação científica veiculada na mídia em geral.
Categorias:ciência, educação, informação


Eu achei bem interessante o método aplicado…Apesar que é legal observar que muitas vezes isso acontece indiretamente nas provas comuns realizadas pelos alunos, onde o aprendizado “memorizável” é colocado em prática a partir de fontes nem sempre condizentes. Como por exemplo diferentes considerações entre autores de livros e principalmente em traduções que trazem erros bem piores…Tem uma reportagem legal chamada “História da mentira”, linkada abaixo.
“Por não tolerar mais falhas nos livros didáticos, o professor de Química do Centro Educacional 4 de Taguatinga, Peterson Paim, decidiu colocar o material pedagógico para escanteio. Em vez das teorias impressas nos manuais, ele explica conceitos guiando-se por exemplos práticos. Selecionou filmes de ficção para explicar as reações e transformações químicas aos estudantes. Pela idéia inovadora, Peterson foi premiado no Encontro Nacional de Química. A decisão aplaudida pelos alunos é uma forma de evitar o que o professor chama de autoritarismo das obras didáticas. Para ele, a abordagem ao conteúdo condiciona os estudantes a decorar teorias e não pensar sobre elas.”
Essa parte final é uma ponte legal para a reportagem que apresentou. Pois talvez seja sensato desde do ensino básico que haja o desenvolvimento de um criticismo por parte do aluno a tudo aquilo que se lê e não considerar nada como verdade absoluta: seja um livro/revista/site.
http://www.universia.com.br/noticia/materia_clipping.jsp?not=1495
Muito bom o post, Berlinck !!
Abraços!
Roberto
Legal vc ter divulgado nosso trabalho.
:o))
Marcelo Hermes