Tratado de Kyoto à prova

Reportagem de Claudio Angelo, correspondente do Jornal Folha de São Paulo em Bangcoc, local em que está sendo realizado reunião com representantes de mais de 70 países, relata que países desenvolvidos ameaçam “implodir” o tratado de Kyoto.

Investida contra o tratado de Kyoto ameaça novo acordo – Claudio Angelo, enviado especial da Folha de S.Paulo a Bancoc

A tentativa dos países ricos de extinguir o Protocolo de Kyoto causou celeuma ontem nas negociações sobre aquecimento global das Nações Unidas em Bancoc, com alguns países em desenvolvimento ameaçando abandonar as conversas. O racha pode colocar em risco o próximo acordo do clima, que será negociado em Copenhague, em dezembro. O estopim da confusão foi um documento apresentado ontem à tarde (madrugada em Brasília) no grupo de trabalho que discute redução de emissões até 2020. Segundo Kevin Conrad, negociador de Papua-Nova Guiné, o documento “borrava a distinção” entre países ricos (com metas obrigatórias de corte por Kyoto) e pobres (que devem apresentar só desvios na sua trajetória de aumento de emissões).

Os países do chamado Grupo dos 77 (que reúne o Terceiro Mundo) viram no documento um golpe contra Kyoto e ameaçaram abandonar a reunião. O Brasil não fez menção de interromper as discussões, mas o negociador-chefe do país, Luiz Alberto Figueiredo Machado, pediu para que a imprensa ganhasse acesso às reuniões, que em geral são fechadas. O objetivo é expor o que os países pobres vêm chamando de “sabotagem” dos ricos, para acabar com Kyoto. No final da tarde, outro documento apresentado numa reunião -fechada- dividia a redução de emissões em três partes: as dos países desenvolvidos, as dos em desenvolvimento e as “gerais”.

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No item “mitigação geral” consta a frase “agendas nacionais”, que, segundo o embaixador extraordinário para Mudança Climática do Brasil, Sérgio Serra, é a senha para implodir o pacto de Kyoto. “Agendas nacionais” são uma proposta feita pela Austrália para que as ações de corte de gases-estufa sejam feitas por meio de políticas nacionais, ajustadas segundo as condições de cada país e sem necessariamente uma meta de corte preestabelecida. A ideia conta com a simpatia dos EUA e do Japão. A União Europeia, apesar de defender Kyoto, não quer que os EUA desistam, pois o país é historicamente o maior poluidor do planeta. “O problema é quererem acabar com o protocolo com duas semanas de negociação pela frente antes de Copenhague, sem texto para pôr no lugar”, disse Serra.

Comentários do autor deste blog: como já mencionado anteriormente neste blog, existe muito pouco interesse das nações desenvolvidas em abrir mão de suas agendas econômicas. Ainda mais em se considerando o atual quadro semi-recessivo que ainda permanece, especialmente nos EUA e no Japão. Nos EUA, o desemprego está quase na casa dos 10% da população economicamente ativa, o maior desde 1983. Sendo assim, a questão ambiental é considerada de menor prioridade – o importante é o crescimento econômico.

Ao lado das nações desenvolvidas, o “seleto” grupo formado pela China, Índia, Brasil e Rússia tenta não se contrapor de maneira contundente, pois estes países querem entrar na cúpula, o G8 que passaria para G12, caso todos estes países fossem admitidos. A ambição mais forte do Brasil é participar do conselho de segurança da ONU.

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Resta saber até quando esta agenda “desenvolvimentista” poderá se manter, em detrimento dos problemas ambientais. Problema este que “bate à nossa porta” quase todos os dias, quando assistimos na televisão a ocorrência de fenômenos naturais de proporções acima do normal, como secas, furacões e similares, chuvas torrenciais, derretimento das geleiras polares e de países que costumavam ter estas geleiras mesmo durante o verão, mas que estão diminuindo de intensidade ano a ano. Talvez tais fenômenos não estejam associados ao aquecimento global, o qual é contestado por muitos. Pelo sim, pelo não, vale a pena arriscar? Considero este caso como um típico caso de manutenção de saúde do planeta: em se tratando de saúde, o melhor é a medicina preventiva.



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