Prêmio Nobel da Paz

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Na segunda metade do século XIX, Alfred Nobel desenvolveu a nitroglicerina que matou seu irmão Emil. Devido a inúmeros acidentes, desenvolveu a dinamite, na qual a nitroglicerina é envolta com terra de diatomáceas. Seus explosivos foram muito utilizados em obras de engenharia e no fim de sua vida Nobel era um homem muito rico. Sabedor que seus inventos poderiam vir a ser utilizados para matar, deixou como herança a fundação Nobel para premiar aqueles que promovessem avanços na ciência e na promoção da paz.

A indicação de Barack Obama ao prêmio Nobel da paz de 2009 causou muita surpresa no mundo todo. Primeiramente porque esta foi a primeira indicação de um prêmio Nobel da paz a um presidente no início de seu exercício. Vários presidentes receberam o Nobel da paz, mas a maioria depois do término de seu mandato: Jimmy Carter (mandato: 1977-1981) recebeu o prêmio em 2002, Yasser Arafat (Palestina) e Yitzhak Rabin (Israel; mandato: 1974-1977) receberam o prêmio em 1994, Mikhail Gorbachev (Rússia; mandato: 1985-1991) em 1990, Mohamed Anwar al-Sadat (Egito; mandato: 1970-1981) e Menachem Begin (Israel; mandato: 1977-1983) em 1978, Willy Brandt (Alemanha; mandato: 1969-1974) em 1971, Thomas Woodrow Wilson (Estados Unidos; mandato: 1913-1921) em 1919, Theodore Roosevelt (Estados Unidos; mandato: 1901-1909) em 1906. Nada contra Barack Obama, muito pelo contrário. Porém, no meu ponto de vista o prêmio Nobel da paz não deveria ser concedido a presidentes de nações. Isso porque a promoção da paz deveria ser parte das obrigações do líder de qualquer país. Opinião pessoal.

Em se considerando uma opinião pessoal, faço minha indicação para prêmio Nobel da paz (póstumo) de 2009: Sergio Vieira de Mello. Sergio Vieira de Mello trabalhou na ONU durante 33 anos: dos 22 aos 55, principalmente em missões de paz. Para aqueles que não sabem quem foi Sergio Vieira de Mello, reproduzo a seguir artigo publicado pelo Professor Jacques Marcovitch, professor titular da Faculdade de Economia e Educação, no portal “Sergio Vieira de Mello”.

Há cinco anos, em 19 de agosto de 2003, um atentado matou no Iraque o brasileiro Sergio Vieira de Mello, enviado da ONU com a missão de abreviar os conflitos e tentar a restauração de uma nação em pedaços. A rememoração do triste acontecimento será sempre um dever de consciência mundial. O morto deixou a reputação de exemplar construtor da harmonia e dos direitos humanos em vários territórios conflagrados, como Timor Leste, Sudão, Líbano, Chipre e Kosovo.

Nestas missões internacionais ele chamou a atenção pela conquista de resultados, mas também por uma forte personalidade, que se manifestava, sobretudo, na comunicação de opiniões e propósitos. A sua linguagem foi o avesso da demagogia e da ambigüidade tão freqüentes nos discursos do métier. “Os povos em primeiro lugar, não a política”, insistia, sem perder a serenidade. Presidindo uma sessão do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, propôs aos burocratas presentes, usuários contumazes da escrita longa e desnecessária, que alinhassem, “no máximo em três páginas” os elementos de seus sistemas nacionais de proteção. Tinha obstinação pela justa medida e pela clareza. Distinguiu-se como grande inovador na gestão de conflitos e nas práticas da paz.

A Universidade de São Paulo mantém, desde 2004, um portal na Internet em memória do grande brasileiro sacrificado. Em seu conteúdo há muitos documentos que revelam detalhadamente um nítido perfil de estadista e pensador. Aqui lembramos apenas dois escritos de extensão mínima, cujo teor nos dá uma idéia viva de sua dimensão como líder.

Publicado em forma de artigo pelo Institut Universitaire d´Étude du Développement, de Genebra, sob o título Les dix enseignements du Timor, um dos registros apresenta-se no estilo direto que marcaria todos os seus comunicados em outras missões, inclusive como Alto Comissário da ONU. Sergio expõe avanços na construção institucional do Timor Leste, riscos a enfrentar, deveres das Nações Unidas com a organização do novo Estado. Nessa exposição, ausência total de jargões diplomáticos e uma objetividade inusitada na retórica dos formuladores de projetos nacionais.

Sempre advertindo contra a fácil tentação do improviso em administração, ele insiste no desmantelamento por tropas internacionais do que chamou “forças da sombra”. Forças que eram no Timor as milícias clandestinas e depois, em Bagdá, os comandos suicidas que o mataram. Ao defender um adequado recrutamento de recursos humanos aproveitáveis nos tribunais e grupos de polícia, como forma de anular o veneno da incompetência, relata iniciativa marcante de sua gestão, que foi a rigorosa paridade entre homens e mulheres no corpo funcional do novo Estado. É fortemente sublinhada a inércia da comunidade internacional, que muitas vezes retardou o aporte de dotações. Falhas da ONU e dos países membros não são omitidas.

Crítico incansável da organização a que servia, Sergio era também severo no rebater censuras injustas e formuladas sem conhecimento da realidade que ele vivenciava tão intensamente. Foi o caso de artigo publicado no Brasil por um conhecido escritor, a partir de fonte apenas identificada com iniciais, criticando a “intervenção branca no Timor” e apontando como racistas ou corrompidos todos os funcionários da ONU, militares e policiais.

“O seu artigo é uma vergonha e uma covardia”, começa o texto-resposta em forma de carta ao articulista, pontuando todas as realizações e assumindo inteira responsabilidade pelos erros que não puderam ser evitados – exceções definidas como regra pelo articulista e sua fonte.

Sergio lança um desafio para que os acusadores encaminhem provas ao inspetor geral da administração. Invoca o testemunho de José Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz e chanceler da jovem nação, que afirmara ter a ONU realizado no Timor, em pouco mais de um ano, respeitadas as proporções, mais do que se fez na Alemanha e no Japão do pós Segunda Guerra Mundial.

Assim atuou este obstinado guerreiro da paz, usando a palavra como instrumento de persuasão ou de combate. Inscreveu seu nome no panteão dos heróis contemporâneos. Por isso, o brasileiro Sergio Vieira de Mello, receberá para sempre, nos agostos que virão, a grata reverência de toda a humanidade.

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