O cúmulo do óbvio

Duas reportagens publicadas hoje na Folha de São Paulo on-line retratam quadros evidentes.

A primeira

Estudo comprova que criança que lê mais escreve melhor

Está comprovado que as crianças que lêem e escrevem mais são melhores na leitura e na escrita. E escrevendo posts de blogs, atualizações de status, mensagens de texto, mensagens instantâneas, e todas as coisas semelhantes, motivam crianças a ler e escrever.


No mês passado, o “The Nacional Literancy Trust”, Fundo Nacional de Alfabetização do Reino Unido, divulgou o resultado de uma pesquisa com 3 mil crianças. Eles observaram a correlação entre o engajamento das crianças com as mídias sociais e seu conhecimento da leitura e da escrita.

No resultado eles perceberam que as mídias sociais têm ajudado as crianças a se tornarem mais literatas. Além disso, a Eurostat, organização estatística da Comissão Europeia, recentemente publicou uma matéria mostrando a correlação entre educação e atividade online, que indicou que a atividade online aumentou com o nível de atividade formal (os fatores sócio-economicos estão, é claro, influenciando potencialmente).

Comentários: a começar pela primeira frase, que é mais do que óbvia, a reportagem não traz novidade, a não ser, talvez, o uso de mídias digitais para a expressão escrita. No entanto, faz tempo, muito tempo que os educadores SABEM que estudantes que têm prazer em ler escrevem também melhor. A chave do segredo é como estimular a boa leitura e a boa escrita, em um mundo onde os jovens estão cada vez mais propensos a lerem textos cada vez mais sintéticos e escreverem de forma cada vez mais abreviada. Quem tem filhos com menos de 20 anos conhece bem este problema.


A segunda

Estudo aponta que aluno da rede pública já chega pior à 1ª série – ANTÔNIO GOIS, da Folha de S.Paulo

Os alunos que ingressam nas escolas particulares chegam à primeira série já com larga vantagem em relação às crianças de escolas públicas. E essa desigualdade nas médias pouco se altera até o final da quarta série do ensino fundamental. Esta é uma das conclusões de um estudo pioneiro no Brasil, o projeto Geres, que acompanhou, de 2005 a 2008, 20 mil alunos de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Campinas, Campo Grande e Salvador.

Em português, a distância inicial entre alunos da rede pública e privada até diminuiu, mas permaneceu significativa ao final da quarta série. Em matemática, ela cresceu.

O Geres tem como diferencial o fato de ter monitorado, ano a ano, a mesma geração de alunos desde a entrada na primeira série do fundamental até a conclusão da quarta série. Os exames do MEC (Ministério da Educação) não permitem essa comparação pois as avaliações externas só começam a partir da 4ª série (ou quinto ano, no caso de redes que já ampliaram o ensino fundamental de oito para nove anos).

Para Fátima Alves, pesquisadora da PUC-Rio e uma das coordenadoras do projeto, é preciso investir mais na educação infantil (creches e pré-escolas) para diminuir essa desigualdade inicial.

Outra conclusão é que, diferentemente do que os pesquisadores supunham, os maus resultados na 4ª série não são gerados por falhas no primeiro ano de alfabetização. Ao final da 1ª série, os estudantes avaliados até conseguiam adquirir habilidades de leitura que, para os autores do Geres, eram adequados para os sete anos.

“O problema não estava nessa fase inicial. Nossa hipótese é que esteja na consolidação. Em vez de reforçar a leitura e interpretação de texto, muitos professores podem estar partindo para etapas seguintes, como o ensino de normas gramaticais”, afirma Fátima. Cláudia Costin, secretária municipal de Educação do Rio, concorda que há uma abordagem precoce da gramática nos primeiros anos. “É como se a pessoa ainda estivesse aprendendo a dirigir e o instrutor já passasse a explicar como funciona o motor.”

Já o educador João Batista Oliveira, do Instituto Alfa e Beto e defensor do método fônico, que enfatiza o ensino pela associação de letras e sons, discorda: “O que os alunos aprendem no primeiro ano é muito pouco e não dá para dizer que seja suficiente. A escola pode fazer mais diferença nesse primeiro ano, garantindo uma boa alfabetização, com métodos de eficácia comprovada”.

Os estudos a partir do Geres mostram também que o uso efetivo do livro didático em sala de aula está associado a melhores notas.


Comentários: também poucas novidades. Também faz muito tempo que o ensino em escolas particulares é bem melhor do que em escolas públicas. Ao contrário de cerca de 50 anos atrás, mais ou menos, quando a qualidade do ensino público e particular se equiparava. E por vezes escolas públicas eram melhores do que as particulares. Como reverter estes quadro: investimento maciço em educação DE MUITO BOA QUALIDADE. Afinal, maquiar números é fácil. Difícil é oferecer uma excelente formação a alunos ao longo de toda sua formação escolar.



Categorias:ciência, educação, informação

Tags:, , , ,

1 resposta

  1. Muito bem colocado, Roberto!
    Enche a paciência essa mania de reinventar a roda, ainda mais com assunto tão sério…

Deixe um comentário