O quadro negro da educação no Brasil

Confesso que muitas vezes fico bastante irritado e indignado com alguns fatos ruins que se perpetuam. Com decisões importantes que apenas prejudicam a maioria. Como no caso das últimas notícias sobre educação publicadas no jornal Folha de S. Paulo on-line.

Relatório da Unesco diz que Brasil tem baixos índices na educação básica – da Agência Brasil

O Brasil apresenta alta repetência e baixos índices de conclusão da educação básica, aponta o relatório “Monitoramento de Educação para Todos 2010”, lançado nesta terça-feira pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Na região da América Latina e Caribe, a taxa de repetência média para todas as séries do ensino fundamental é de 4,4%. No Brasil, o índice é de 18,7% –o maior de todos os países da região. Apesar disso, o Brasil está no grupo de países intermediários em relação ao cumprimento de metas sobre acesso e qualidade de ensino estabelecidos pela organização. O país ocupa a 88ª posição em um ranking de 128 países.

Em 2000, mais de 160 países assinaram o compromisso Educação para Todos, que previa o cumprimento de seis metas incluindo a universalização do ensino fundamental, a redução da taxa de analfabetismo e a melhoria da qualidade do ensino. Para isso, criou um Índice de Desenvolvimento de Educação para Todos (IDE). A Noruega lidera o ranking da Unesco. Ela e mais 60 países estão no grupo daqueles que já cumpriram ou estão perto de atingir todos os objetivos firmados no compromisso. Trinta e seis estão no grupo “intermediário” e 30 são classificados como tendo IDE baixo.

Entre as quatro principais metas estabelecidas pela Unesco, o Brasil tem um bom desempenho na alfabetização, no acesso ao ensino fundamental e na igualdade de gênero. Mas tem um baixo desempenho quando se analisa o percentual de alunos que conseguem passar do 5º ano do ensino fundamental. O relatório destaca algumas iniciativas do Brasil para melhorar a qualidade da educação, como o programa Brasil Alfabetizado, o Bolsa Família, o Fome Zero e as mudanças na política de financiamento.

“No Brasil, por exemplo, o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) desempenha papel importante para a redução do déficit de financiamento de educação e para uma distribuição mais equitativa dos recursos entre áreas ricas e pobres”, aponta o relatório.

País perde 12 posições em ranking de educação – da Folha de S.Paulo, em Brasília

O Brasil perdeu 12 posições no índice de educação feito pela Unesco, o braço da ONU (Organização das Nações Unidas) para a educação e a cultura. A queda, do 76º para o 88º lugar entre 128 países, ocorreu principalmente em razão da piora no índice de crianças que chegam até a quarta série. Segundo a Unesco, de 80,5%, em 2005, o percentual caiu em 2007 para 75,6%. Com isso, o IDE (Índice de Desenvolvimento Educacional) do Brasil, caiu de 0,901 para 0,883 em uma escala de 0 a 1, o menor entre todos os países do Mercosul. Isso mantém o país em um patamar considerado mediano pela Unesco.

O IDE é composto pelas taxas de alfabetização de adultos, igualdade de gênero, matrícula na educação primária e sobrevivência na escola até a quinta série -no caso do Brasil, foi considerado o dado relativo à quarta série. Os primeiros lugares ficaram com Noruega, Japão e Alemanha. Os últimos, com Etiópia, Mali e Niger, todos no continente africano.

Um dos piores indicadores brasileiros mostrados pelo relatório é a repetência. Com 18,7% de taxa de reprovação no ensino fundamental no ano de 2005, de acordo com o relatório, o Brasil só perde nesse quesito para 13 países que fazem parte da África subsaariana. No dado mais recente, relativo a 2007, essa taxa estava em 12,1% segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao Ministério da Educação.

Em relação ao investimento em educação, o Brasil gastava em 2005 menos de um quarto do que os países considerados como desenvolvidos: US$ 1.257 por aluno contra US$ 5.312 por aluno. O coordenador da Unesco no Brasil, Paolo Fontani, ressaltou a alta taxa de repetência, mas avaliou que o Brasil se saiu bem no relatório ao ter sido bem avaliado no combate ao analfabetismo e na distribuição de recursos, como o Fundeb -fundo que recebe recursos da União, Estados e municípios e viabiliza o financiamento da educação em locais mais pobres.

Procurado para comentar o relatório, o Ministério da Educação afirmou que está analisando os números mas que, de qualquer forma, todos eles se referem ao período anterior ao lançamento do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), o chamado “PAC da Educação”, que ocorreu em 2007.

O quadro geral da educação no âmbito nacional ainda é extremamente deficiente. Mesmo depois de 16 anos de “democracia consolidada” de governos supostamente engajados com a educação, os números apontam que além do investimento em educação no Brasil ser baixo, a qualidade do ensino está longe, muito longe de ser satisfatória.

São Paulo admite ter de usar professor reprovado em exame – FÁBIO TAKAHASHI, da Folha de S.Paulo

A Secretaria da Educação de SP anunciou ontem (22/1/2009) que poderá atribuir aulas a professores reprovados em seu processo de seleção para docentes temporários para a educação básica. Dos temporários que já trabalharam na sala de aula (pouco menos da metade do total de docentes), 40% foram reprovados –não conseguiram acertar metade das 80 questões.

Segundo o secretário da Educação, Paulo Renato Souza, haverá dificuldades para preencher vagas em algumas escolas, principalmente para as matérias de física e matemática. Ao justificar a possibilidade de convocar professores reprovados, o secretário afirmou que “a nossa prioridade é garantir aulas aos alunos”.

Os sindicatos do setor dizem que é quase certo que os abaixo da nota de corte sejam convocados, principalmente para atuar na periferia das cidades da Grande SP, onde o desempenho dos alunos já é mais baixo. Ainda não é possível saber quantos dos reprovados terão de lecionar, pois o processo de distribuição de aulas não começou –primeiro escolhem os concursados; os temporários preenchem as aulas que faltam. Apesar do ano passado ter terminado com 80 mil temporários e cerca de 130 mil concursados, a rede chegou a precisar de mais de 100 mil não concursados (para suprir casos como licença e aposentadoria). Além dos temporários, o exame também foi feito por outros candidatos –total de 182 mil, dos quais 48% não atingiram a nota de corte. O total de aprovados foi de 94 mil.

Novo discurso

A prova para seleção de temporários foi adotada no ano passado pelo governo José Serra (PSDB). Antes, o critério para a contratação eram os diplomas do candidato e o tempo de serviço. Ao lançar o projeto, o governo afirmou que quem não atingisse a nota mínima não poderia lecionar. A possibilidade de reprovados darem aulas neste ano letivo foi anunciada ontem.

Paulo Renato afirmou que o corpo docente deste ano está melhor. A explicação do secretário é que foi “uma inovação” classificar docentes com base em seus conhecimentos. Disse ainda que, caso tenha de contratar os reprovados, serão selecionados os de melhor desempenho. Além disso, a pasta irá criar cursos a distância para capacitação específica em física e matemática.

Um atenuante para o desempenho dos docentes, afirma Paulo Renato, foi a dificuldade das provas, consideradas por ele como “complexas e longas”. O presidente do CPP (um dos sindicatos dos docentes), José Maria Cancelliero, teve avaliação semelhante. O exame foi feito pela Vunesp, que aplica o vestibular da Unesp. Além de permitir que reprovados lecionem, o governo alterou outro critério. Inicialmente, só iria valer a nota da prova. Após negociar com sindicatos, a pasta decidiu levar em conta o tempo de magistério (que dá bônus de até 20% na nota).


Segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, esta notícia é

Muito pior do que enchente – Gilberto Dimenstein (também da Folha on-line)

Cerca de 40% dos professores temporários da rede pública de São Paulo não passaram no teste de conhecimento. O resultado só não foi pior porque parte da nota é composta por tempo de serviço. Mesmo assim – e por falta de alternativa – muitos deles vão dar aulas. Essa notícia é pior (muito pior, diga-se) do que enchente. As enchentes vão e voltam, mas o professor sem capacitação fica, causando danos diários.

Não poderia deixar de reconhecer que merece apoio a decisão do governo estadual de fazer a prova, enfrentando o corporativismo. Até compreendo o anúncio de que os professores reprovados vão continuar dando aula – é isso ou nada. Melhor isso. A prova toca na questão mais grave do país. Não há pais civilizado sem boa educação – e não há boa educação sem bom professor. Poucas coisas são mais relevantes do que tentar atrair talentos para dar aula nas escolas públicas, valorizando o papel do professor, com melhores salários e condições de trabalho. Se a população visse na péssima qualidade da educação uma enchente diária, causando danos por todos os lados (e, pior, na cabeça das crianças), haveria uma revolta permanente.

Paulo Renato de Souza é economista. Foi reitor da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) entre 1987 e 1991. Foi ministro da educação durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Atualmente é secretário da educação do governo do estado de São Paulo.

Embora “garantir aulas” aos alunos da rede pública deve ser prioridade, de acordo com a opinião do jornalista Gilberto Dimenstein, esta situação está distante, muito distante de ser satisfatória. Principalmente considerando-se que o PSDB, partido ao qual o Prof. Souza é filiado, está no governo do estado de São Paulo há quinze anos (Mario Covas: 1995-2001; Geraldo Alkmin: 2001-2006; José Serra: desde 2007).

Coloca-se o fato de que a avaliação dos candidatos a professores tenha sido uma inovação. Na verdade, esta avaliação se revela uma obrigação, e não uma inovação. Uma inovação teria sido se ao longo de 15 anos de governo no estado de SP os governadores do PSDB tivessem realmente investido na formação de profissionais na área de educação.

Mas o pior foi colocar a culpa nas provas, “longas e extenuantes” (veja as provas aqui). Bem, quem elaborou estas provas? A Fundação VUNESP, também responsável pela elaboração da prova de vestibular da UNESP (Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho). A prova foi elaborada por professores. Educadores. Ou seja: a culpa não poderia ser das provas, e sim daqueles que elaboraram as provas. Mas a questão é mais profunda: que vai assumir o ônus de qualquer responsabilidade neste caso? Do fato que 40% dos candidatos a professores da rede pública não têm capacidade satisfatória para exercer suas atividades? Do fato que, talvez, tais provas tenham sido mal elaboradas?

Embora em outro contexto, a situação do ensino a nível federal não é diferente. Porque não? Simplesmente porque a verba de educação é repassada do MEC para os estados (no caso do ensino médio) e para os municípios (no caso do ensino fundamental). Ou seja, o MEC deveria se manifestar diretamente sobre a decisão tomada no âmbito estadual em São Paulo.

Se você, cidadão brasileiro que lê este blog, está satisfeito com a aplicação do seu dinheiro (recolhido na forma de impostos) na área de educação, considero que você se satisfaz com muito pouco.




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2 respostas

  1. Roberto
    Dá uma olhada neste post aqui:

    http://cienciabrasil.blogspot.com/2010/02/olavo-de-carvalho-discute-retrocesso-da.html

    gostaria que vc comentasse no post, ja que vc é um dos poucos no Brasil que escreve sobre as coisas feias (e das belas) da ciencia brasileira sem o “pudor oficial”

  2. A verdade é que as pessoas estão um tanto perdidas sobre o porque destes resultados. Atacam apenas um elemento de todo esse processo. O único que conseguem ou esperam conseguir controlar: o professor.
    Porque 40% dos professores foram reprovados? Porque seus cursos eram ruins.
    Porque o MEC não deixa de fazer média com essas faculdades e as fecha logo?
    Não cabe a Secretaria da Educaçao de nenhum Estado capacitar completamente o professor. Ela pode oferecer alguma atualização se este prof desejar fazer com o Estado. A Faculdade/Universidade é que deve oferecer qualidade e não um “negócio” ao seu aluno.
    Agora, é um MITO de quem não conhece Educação achar que basta ter professor capacitado em sala de aula. Se todos passassem com louvor nas provas, as reprovações seriam ainda maiores, sabiam? Sim, pq existe a esculhambação do prof limitado em ensinar qualquer coisa, banalizar tudo, aceitar muita besteira escrita e então fica muuuuuuito mais fácil ser aprovado. E mais: entre os aprovados e mesmo os concursados isso tb é pratica, pq se vc tiver muitas notas “vermelhas”, vc é considerado mal prof.
    A verdade é que por um lado, os adolescentes não querem ter de estudar mais, pq a escola deles melhorou, o que seria uma consequencia. O momento atual, de mais oportunidades para os alunos, exige mais dedicação. O Estado de SP ofereceu um caderno de atividades e a grande maioria “rasgou” e “queimou” eles em flagrantes pela tv, mostrando que estavam fartos de fazerem seus deveres.
    Por outro lado, a grande maioria dos pais que não eram cobrados quando estudavam, tb não cobram de seus filhos, aceitam serem enganados e até apoiam seus rebentos quando estes são advertidos por não estarem estudando ou por estarem atrapalhando as aulas. Os alunos do período Noturno utilizam o trabalho como desculpa “mor” para não fazerem absolutamente nada e acharem que basta virem de vez em quando para serem aprovados. E seus pais continuam aprovando tais comportamentos.
    E tem mais ainda: PROCURE um, eu disse apenas UM histórico escolar recente onde haja uma ÚNICA nota “vermelha” em QUALQUER disciplina. PROCURE! Vcs não vão encontrar!!! Sabe porque? Pq é uma PRÁTICA de todas secretarias colocar ao menos 5 se esse aluno foi aprovado. Não importa se ele tirou ZERO o ano inteiro e em várias disciplinas. Se o “conselho” o aprovou, a nota do seu histórico será ao menos 5. E nem preciso dizer que para uma escola não ter um “índice” baixo pq seus alunos não estudaram, o conselho distribui vários “5” para passar vários sem qualquer condição de prosseguirem seus estudos.
    É, quem está fora da “educação” não sabe da metade do rolo.
    A solução, na verdade, poderia ser muito simples. Mas requer seriedade e eu não sei se os corruptos deixarão, não.
    Faculdade ruim que administra um “negócio” tem de ser fechada. Se o MEC não fecha é pq tem o rabo preso.
    Estes índices são uma mistura de demagogia e hipocrisia das mais puras. Quando não havia índices, a educação só era pior em lugares em que realmente faltava infraestrutura e mão de obra qualificada. Bastou seriedade do político responsável da região e isto melhorou dentro do possivel.
    Hoje vc da bonus para os profissionais da educação pública se a nota da escola for boa. Quanta mentira não é feita por escrito para todo mundo ganhar uma nota a mais, hein?
    As escolas tem de ter infraestrutura compativel e carga horaria maior.
    Repetencia não significa má qualidade. É um diagnóstico. O aluno tb tem o livre arbítrio de, por falta de maturidade, não querer estudar. Precisarei mentir que ele estuda???
    Pais tem de ser mais cobrados. Não o são pq são eleitores??? Se não podem exigir compromisso de seus filhos com o estudo, como se espera que este seja aprovado.
    Quem já foi aprovado sem nada estudar, sem nada saber???

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