Taxonomia clássica: uma ciência em extinção

A classificação das coisas do mundo é parte essencial do conhecimento humano, pois desde seus primórdios, na idade da pedra, o homem buscou classificar. Tudo. Lugares, situações e coisas. Principalmente seres vivos. A arte da classificação dos seres vivos pode ser primeiramente atribuída a Aristóteles, que desenvolveu o primeiro sistema de classificação, ainda que com alguns critérios questionáveis. Durante séculos a classificação Aristotélica permaneceu em uso, até que a ciência da classificação dos seres vivos, a taxonomia, nasceu na Europa e vingou. Principalmente com o sistema de classificação binária de Linneu, que propôs que todo ser vivo pode ser nomeado em termos de seu gênero e sua espécie. Homo (gênero) sapiens (espécie). Ou ainda em gênero, espécie e sub-espécie, como Canis lupus familiaris (o melhor amigo do homem).


A diversidade biológica está intrinsecamente associada à identificação dos seres vivos, através da taxonomia, uma vez que o conhecimento das espécies biológicas define o grau de sua diversidade. Embora se estime que o número de espécies biológicas seja de 10 a 15 milhões, apenas cerca de 2 milhões já foram classificadas. A classificação das espécies permite que se conheça sua variabilidade, ciclo de vida, nicho ecológico, sua função nas comunidades e nos ecossistemas em que estão presentes. Além disso, muitas espécies de seres vivos podem ser extremamente úteis para a sociedade, numa visão bastante antropocêntrica. A humanidade tende a julgar como mais importantes aquelas espécies que são úteis, em detrimento de todas que participam da biodiversidade, numa enorme rede de vida. Mas mesmo adotando uma visão antropocêntrica, muitas espécies podem ser úteis para gerar produtos (remédios, pesticidas, herbicidas, etc. ,etc.), realizar processos (enzimas), divertir o homem (como animais de passeio ou por seu comportamento único, como macacos. Embora todos os humanos também apresentem comportamentos únicos, em todos os sentidos), causar impressões estéticas de beleza, prazer (música), tranqüilidade. E tudo o mais.

Mas, nada disso seria possível sem o auxílio da taxonomia, a ciência de classificação dos seres vivos. Afinal, sabemos que um ipê é um ipê. Mas também sabemos que um ipê roxo não é um ipê amarelo nem um ipê branco. E mesmo os ipês amarelos são de pelo menos 7 espécies diferentes. Porém, a taxonomia clássica de classificação está em desuso, rumo à extinção. Por algumas razões.

Segundo Boero, a primeira das razões pelas quais a ciência da taxonomia está desaparecendo se deve às decisões estabelecidas logo após a Convenção da Diversidade Biológica, realizada no Rio se Janeiro em 1992. Embora a sociedade e seus representantes tenham determinado a importância em se conhecer e preservar a biodiversidade, as ações subseqüentes foram tomadas por órgãos e agências de financiamento, sob a avaliação de cientistas. Ora, embora tal processo dificilmente pudesse ter sido realizado de outra maneira (pela avaliação por pares), poderia-se ter consultado as partes participantes desta empreitada. Certamente taxonomistas teriam sido muito importantes para opinar. Mas eventualmente não foram, ou não tiveram força suficiente para tal.

Ainda segundo Boero, o nascimento da cientometria teria, de certa forma, iniciado o processo de condução da taxonomia clássica ao ostracismo. Isso porque a adoção do fator de impacto das revistas como único critério de mensuração de relevância das publicações levou ao abandono de revistas de museus e entidades afins, utilizadas por nichos de cientistas muito específicos. E, por isso mesmo, são pouco citadas em um contexto mais global. Se, por outro lado, fosse também utilizado o critério de meia vida de citação (cited half life, CHL), as revistas de descrição de espécies biológicas certamente teriam os maiores índices, pois uma vez estabelecidos critérios de classificação de uma espécie, e uma vez que determinadas espécies são descritas, estas são citadas ad infinitum. Infinito segundo os critérios do Institute for Scientific Information é um CHL > 10. Assim, por exemplo, poderia-se prevenir o esquecimento de obras seminais, publicadas até mesmo recentemente, como a monografia “An introduction to hydrozoa”, por Bouillon et al. (Mémoires Du Muséum d’Histoire Naturelle, 2006, 194, 1-598).

Mas a importância da taxonomia renasceu com as técnicas de biologia molecular. Atualmente se considera uma taxonomia correta aquelas realizadas pela análise de RNA e de DNA, nuclear, mitocondrial ou rimossomal. Por isso, hoje em dia “os bons taxonomistas” devem fazer uso de técnicas de biologia molecular. Ironicamente, segundo Boero, muitos destes nunca se preocuparam em descrever tais espécies do ponto de vista fenotípico, simultaneamente à descrição de seu genoma. Paradoxalmente, são obtidos resultados discrepantes de classificação molecular de uma espécie, dependendo da metodologia que for adotada para tal. Ora, do ponto de vista fenotípico isso não acontece. Os mesmos critérios de descrição fenotípica são adotados universalmente. Logo, o melhor seria que fossem utilizadas conjuntamente ferramentas moleculares e critérios fenotípicos para a descrição das espécies.

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O mesmo vale para a recentemente criada moda de classificação por códigos de barras. Grandes projetos multi-nacionais, envolvendo inúmeros países, estão implementando a classificação dos seres vivos com códigos de barras. Mas classificando o quê, mesmo? De acordo com quais critérios? Moleculares. E os fenotípicos? Estão sendo levados em conta? Compreendo, de certa forma, a indignação de Boero. Afinal, a colocação de organismos em prateleiras de supermercados, com seus códigos de barras, para que simplesmente possa se comparar seus genomas quando passados em um leitor a laser, deixa de lado a essência da biologia. Pode ser uma visão romântica, mas não deixa de ser válida. Embora as características moleculares incluídas em um código de barras possam ser extremamente úteis para a classificação de espécies e o agrupamento de espécies similares, tais ferramentas não permitem a visualização da biodiversidade em um contexto mais amplo. Além disso, certamente as empresas fabricantes dos instrumentos para a classificação por códigos de barras irão ganhar um bocado de dinheiro.

Ainda de acordo com Boero, muito pior é o completo descaso com a diversidade funcional dos seres vivos. Muitas vezes, a grande maioria destes apresenta particularidades extremamente importantes para sua descrição e conhecimento. Como no caso de alguns hidrozoários que nunca morrem: quando atingem o estágio de medusa se fragmentam e geram novos indivíduos. Mesmo assim, as generalidades sobre as espécies são estabelecidas com aquelas de fácil manutenção em laboratório – que são as mais raras. Ou seja, a descrição de generalidades é feita sobre os casos biológicos excepcionais, em que é possível se manipular espécies de forma controlada durante longos períodos!

Não sem surpresa, o “abandono dos taxonomistas” levou a ciência de descrição das espécies a uma situação crítica. A ponto do National Science Foundation, a principal agência de financiamento científico dos EUA, reconhecer o problema e estabelecer prioridades para a re-construção da massa crítica de taxonomistas nos EUA. Mas, o problema persiste. Porquê? Bom, qual cientista obtém reconhecimento com publicação de seus trabalhos em revistas de baixo fator de impacto, como são as revistas de biologia dedicadas à descrição de espécies? Mesmo assim, o número de taxonomistas no Brasil ainda é muito maior quando comparado ao número de taxonomistas em outros países.


O perigoso reducionismo e pragmatismo em estabelecer, a priori, o que é bom ou ruim, válido ou não, relevante ou desimportante em ciência são ressaltados no artigo de Boero, que poderia facilmente ser estendido, de maneira mais abrangente, para outras áreas do conhecimento. As ciências humanas, por exemplo. Durante os anos 60-70, as ciências humanas eram consideradas o ponto forte do conhecimento gerado pela comunidade acadêmica brasileira. Atualmente as ciências humanas estão completamente marginalizadas. Por não publicarem em revistas de alto fator de impacto, de grande visibilidade, de conseguir angariar verbas para a realização de projetos vultosos.

Contudo, tais projetos são realizados e em curto prazo demonstram sua enorme importância. Como, por exemplo, na publicação da gigantesca obra “Gramática do Português Culto Falado no Brasil” em cinco volumes, da qual os volumes 1 (“Construção do texto falado”, 557 páginas, 2006) e 2 (“Classes de palavras e processos de construção”, 1167 páginas, 2008) já foram publicados pela editora da UNICAMP.

Taxonomistas. Cientistas das humanidades.

A ciência é uma só.

Referência.

ResearchBlogging.orgBoero, F. (2010). The Study of Species in the Era of Biodiversity: A Tale of Stupidity Diversity, 2 (1), 115-126 DOI: 10.3390/d2010115



Categorias:ciência, educação, informação

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3 respostas

  1. Nunca vi texto mais ingênuo e desconectado da realidade do que esse…o autor deveria circular pelos museus e institutos de biologia para ver como está redondamente enganado. E espécies são descritas na Science e Nature também, sabia? O CNPq lançou há pouco edital de 12 milhões específico para taxonomia. A Taxonomia e Sistemática são os pilares de toda a Biologia.

    • Oi CRis,

      Você achou mesmo o texto ingênuo e desconectado? Você chegou a ler o artigo do qual o texto desta postagem foi elaborado? O artigo é livre. Se você clicar no link do DOI, você terá acesso ao artigo, poderá baixá-lo e lê-lo.

      Infelizmente a taxonomia clássica é amplamente desvalorizada hoje em dia. Basta você buscar reportagens publicadas na web sobre as duras críticas que foram feitas aos pesquisadores do acervo biológico do Butantan, quando este acervo foi queimado pelo incêndio deste ano, pelo fato de boa parte da pesquisa em andamento ali ser de natureza taxonômica.

      A taxonomia CLÁSSICA está em franca desvalorização, no mundo todo. Atualmente se considera que as técnicas de taxonomia moleculares são absolutamente essenciais para a descrição taxonômica de organismos vivos. Certamente a Science e a Nature não publicam um artigo de taxonomia clássica há já muito tempo. Se você puder me indicar um artigo de taxonomia clássica publicado recentemente nestas revistas eu agradeceria.

      Além do mais, além do uso de técnicas de biologia molecular atualmente existe forte ênfase na utilização de técnicas de códigos de barras (barcoding) para a classificação taxonômica. Eu tenho sérias dúvidas que o CNPq tenha lançado um edital de taxonomia com ÊNFASE em taxonomia clássica.

      Acho que o seu comentário é que foi ingênuo e desconectado.

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