Qualidade da ciência no Brasil preocupa

Artigo de Germana Barata publicado na revista ComCiência, editada pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em 19/04/2010 teve boa repercussão na internet na semana que passou. Em uma semana o Google lista 44 links para o título do artigo de Germana, “A relação entre qualidade de artigos, ensino e carreira científica”. Trechos do artigo são transcritos e comentados a seguir.

O Brasil tem se destacado nos últimos anos com o crescimento da sua participação na produção científica mundial, hoje em 2,12%. Há dez anos, ela não passava de 1%. Atualmente, a maior preocupação é em relação à qualidade dessa produção, refletida tanto pelo baixo número de citações de artigos brasileiros quanto pelo maior volume de publicações em periódicos com baixo fator de impacto.

Caro Leitor, faço uso de análise realizada pelo Professor de Bioquímica da Universidade de Brasília, Marcelo Hermes-Lima, membro do corpo editorial da revista Comparative Biochemistry and Physiology e também da revista Plos One. O Prof. Hermes-Lima se debruçou sobre este assunto no início deste ano, em uma série de postagens no seu blog, Ciência Brasil. Em uma primeira postagem, analisou a posição do Brasil em uma classificação (ranking) de citações por artigo em publicações de medicina e em bioquímica/genética no período entre 1996 e 2008. O gráfico gerado pelo Prof. Hermes-Lima a partir de dados coletados no Institute for Scientific Information-Web of Science Scimago mostra que a posição do Brasil nesta classificação sofreu uma queda acentuada a partir do ano 2000.

No eixo das ordenadas, as posições do Brasil na classificação geral de citações por artigos de bioquímica/genética (bioch+gen) e medicina (med). Ou seja, quanto mais o gráfico “sobe”, mais a posição do Brasil na classificação (ranking) cai. Fonte.

Em uma segunda postagem, o Prof. Hermes-Lima indicou que tal queda na classificação do Brasil em citações por artigos também é observada nas áreas de biologia e agricultura, química, física e astronomia, e matemática. Segundo o Prof. Da UnB, “(…) essa queda no rank seria causada por um exagerado aumento da quantidade de publicações por ano do Brasil, mas sem o devido aumento de citações.”

O Prof. Hermes-Lima continuou sua análise por várias postagens. Veja aqui a 3a parte. Em seguida, sua análise teve a intervenção do Prof. Rogério Meneghini, um dos fundadores e atual coordenador científico do SciELO. Veja aqui. A análise do Prof. Hermes-Lima continuou por mais duas postagens. Veja aqui, na qual ela compara o desempenho do Brasil com a Espanha, e aqui a comparação com a África do Sul.

Continuando com o artigo de Germana…

Embora um dos principais argumentos para a pouca penetração brasileira em periódicos considerados de alta qualidade seja normalmente atribuída às dificuldades na comunicação científica feita em inglês, essa parece ser a questão mais simples a ser solucionada. O problema, no caso brasileiro, é mais complexo. “Muitos erros conceituais estão sendo multiplicados nos periódicos de menor impacto”, afirmou Gilson Volpato, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, que tem se dedicado a cursos para melhorar a redação científica. Erros que, segundo ele, se referem, sobretudo, à base empírica das pesquisas – argumentos que sustentem os dados, ou poucos dados para construir teorias, por exemplo -, ao excesso de informações e ao modo de se pensar o fazer científico. Sua análise aponta para falhas nos cursos de graduação, que deveriam ensinar as perguntas importantes para se pensar a ciência, ao invés de focar apenas no conteúdo.

Hum, mau sinal. Sinal que a educação em nível superior está falha. Sinto que a declaração do prof. Volpato esteja fundamentalmente correta, uma vez que, na maioria do tempo ensinamos aos alunos como resolver questões pontuais, e não pensar cientificamente de forma geral.

O artigo de Germana continua…

“O importante no curso de biologia é saber dissecar um sapo. Fomos ensinados a ser técnicos, mas não cientistas”, concordou Márcia Triunfol, consultora para cientistas escreverem artigos para periódicos de alto impacto e doutora em biologia molecular pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em sua fala, Triunfol reforçou que, além do país não ter tradição científica forte, há dificuldades que contribuem para tornar os cientistas menos competitivos. Entre elas a conhecida falta de agilidade para comprar e receber insumos necessários para os experimentos. (…) Diante de tantas dificuldades, os cientistas brasileiros, acredita a especialista, não se arriscam e preferem fazer pesquisas que são variações de estudos já existentes, além de não conseguirem realizar trabalhos experimentais completos, e assim, acabam publicando o trabalho em partes, em periódicos de menor impacto.

Mas as razões para a baixa qualidade da produção brasileira não param por aí. Martha Sorenson, do Departamento Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), investigou as razões que levam as pesquisas nacionais a conquistarem baixo impacto em relação à média mundial. Segundo ela, enquanto os artigos de física, uma das áreas de pesquisa de maior impacto internacional do país, recebem 14% menos citações do que a média internacional, a biologia e bioquímica estão atrás em 57%. Para entender essa discrepância, a bióloga comparou a qualidade da produção científica de cientistas brasileiros com os norte-americanos, ambos com indicadores de alto nível de produção. No caso nacional, todos os especialistas recebem bolsa produtividade em pesquisa níveis 1A ou 1B do CNPq, incluindo alguns membros da Academia Brasileira de Ciências, em várias áreas de atuação da bioquímica.

Comparativamente os brasileiros, embora publiquem em periódicos de alto impacto, recebem, em média, menos citações por artigo que os colegas norte-americanos. Isso ocorre, segundo ela, porque os cientistas brasileiros estão envolvidos em inúmeras atividades extra-pesquisa, consideradas altamente dispersivas, a saber: atividades que deveriam ser exercida por técnicos e secretários, grande número de orientação de graduandos e pós-graduandos, poucos pós-doutores, e a burocracia típica dos projetos que coordenam. Há também, afirma, baixa competitividade entre os brasileiros. “A estabilidade ocorre muito cedo na carreira dos professores e professores associados”. Todos esses fatores, segundo Márcia Triunfol, fazem com que os brasileiros se sintam intimidados. Muitas vezes, se produz pesquisas de qualidade, mas seus autores não se julgam capazes de ter um trabalho aceito em periódicos de alto impacto ou aceitam o parecer negativo de seu artigo passivamente.

Ao que tudo indica, para que o país se torne mais competitivo será preciso uma revisão no ensino e na prática científica no Brasil, de modo a fortalecer uma cultura científica entre os futuros cientistas. A 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que ocorre em maio em Brasília, terá como desafio estabelecer estratégias de atuação para alavancar o impacto e a qualidade da ciência brasileira. Em 2008, o país formou cerca de 10.700 doutores, com planos de chegar a 16 mil neste ano.

O Prof. Marco Antonio Zago, ex-presidente do CNPq e atualmente Pró-Reitor de Pesquisas da USP, proferiu, neste última semana, palestra no Instituto de Química de São Carlos em que manifestou sua preocupação com a qualidade da ciência feita no Brasil, em particular na USP. Ressaltou a importância de se valorizar a qualidade dos projetos científicos em desenvolvimento na USP. Também concordou com o Prof. Sérgio Mascarenhas, presente à palestra, que manifestou sua preocupação com a sobrecarga de atribuições dos professores, que, como ressalta o artigo de Germana Barata, pode comprometer o desempenho científico de excelência que se deseja para pesquisadores da USP.

É evidente, em conversas com colegas, que o sistema acadêmico brasileiro precisa ser revisto. Não é possível que se exija de professores universitários um desempenho excepcional em tarefas paralelas de ensino + pesquisa + extensão + gestão. Não por acaso, alguns de meus colegas tiveram problemas de saúde relacionados a excesso de trabalho. No meu ver, para se fazer ciência de qualidade, é absolutamente necessário:

a) ter tempo para ler e se atualizar em sua área de atuação;

b) ter tempo para pensar (absolutamente essencial);

c) ter tempo para discutir com os alunos orientandos sobre os vários aspectos do desenvolvimento de seus projetos de pesquisa;

d) ter tempo para participar de encontros científicos, fóruns de discussão, seminários de grupos e encontros com colegas que possibilitem a troca de idéias e opiniões;

e) ter acesso a condições instrumentais (equipamentos) que possibilitem uma coleta de dados de qualidade que possibilitem uma análise criteriosa do fenômeno sob investigação;

f) ter tempo para escrever com calma os resultados do desenvolvimento de um projeto em particular, dentro de um projeto mais global.

Será que esqueci de algo? Sugestões são bem-vindas.

PS – Hoje assisti ao episódio “A Jornada do Herói” da série “O Poder do Mito”, sobre a obra do Dr. Joseph Campbell, considerado um dos luminares da história e significado da mitologia comparada. Em determinado momento, Campbell conta que, ao voltar da Europa duas semana antes do “crash” da bolsa de valores de Nova Iorque que levou à grande depressão de 1929, não encontrou emprego (óbvio). Mas, dispondo de economias guardadas de sua atividade como saxofonista em uma banda de jazz, resolveu se retirar em uma fazenda, onde ficou estudando (lendo). Por cinco anos. Confesso que fiquei morrendo de inveja…



Categorias:ciência, educação, informação, química

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4 respostas

  1. Prezado
    Coloco mais um ítem: excesso de aulas na graduação e em várias disciplinas diferentes.
    Catarina

  2. Berlinck,
    Nem sabia que V. tinha um blog…A sua análise em cima do artigo da Germana é muiiiito pertinente, pena que muitos não se deem conta do assunto e até o desconheçam…Um abraço

  3. Roberto, a coisa anda complicada mesmo. Pensar e meditar é essencial para produzir, mas este é um luxo que pouco temos aqui no Brasil. Apesar de concordar com o excesso de atividades em geral, eis que coloco a seguinte pergunta. Por que fazemos isto? Ou seja, quem cria novas disciplinas (ou quem pressiona para que sejam criadas), novas comissões, novos cargos, etc. somos nós mesmos, que sempre dizemos “sim” a novas burocracias. Por que esta passividade? Haveria certo conforto nisto? O tema pode ser polêmico, mas alguns até preferem estar em cargos de gestão do que no laboratório. Seria por prazer, sede por poder, aumento percentual do salário, por puro status ou para fugir do “pensar em Ciência”? Afinal, pode ser mais fácil e mais cômodo gerir do que criar, não?
    FBC

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