A química da arte

Realmente impressionante o volume recente de publicações de revisão sobre a utilização de diferentes métodos de análise de obras de arte, com o intuito de conhecer sua composição e estrutura.

O artigo “Computational Chemistry Meets Cultural Heritage: Challenges and Perspectives” discute a utilização de técnicas computacionais, como a teoria de densidade functional (density functional theory, DFT), bem como a DFT dependente no tempo, que permite modelar propriedades estruturais, eletrônicas e espectroscópicas de sistemas complexos em fase condensada.  Desta, forma, é possível se analisar pigmentos como o índigo, o azul maia, e o vermelho chumbo. A utilização das técnicas de DFT permite conhecer as propriedades de materiais com tais pigmentos, para se estabelecer a composição dos materiais pigmentados. A abordagem de modelagem por DFT permite complementar dados experimentais obtidos por técnicas espectroscópicas para se conhecer a composição dos materiais utilizados em obras de arte e até mesmo predizer como tais obras podem sofrer com a ação do tempo.

O estudo de peças de arte da época Bizantina é abordado no artigo “Material Aspects of Icons. A Review on Physicochemical Studies of Greek Icons”, o qual relata o uso de espectroscopia de micro-Raman de secção. Embora as análises sejam demoradas, estas permitem a identificação direta de grãos distintos de quase todos os tipos de pigmentos inorgânicos e de componentes inertes que tomam parte na composição de camadas de pinturas. A espectroscopia de micro-Raman é utilizada em conjunto com micro-infravermelho por transformadas de Fourier (micro-FTIR) e microscopia eletrônica de varredura-espectroscopia dispersiva de energia (scanning electron microscopy−energy dispersive spectroscopy, SEM−EDS). O uso destas técnicas permite conhecer a evolução na elaboração de obras de arte ao longo do tempo. Também a comparação com outras obras de arte, datadas da mesma época, mas de outras regiões, como do Mediterrâneo ocidental, dos Balcãs, da Russia e do oriente.

O artigo “Bright Light: Microspectrofluorimetry for the Characterization of Lake Pigments and Dyes in Works of Art” descreve o uso de microespectrofluorimetria para investigar secções de pinturas, tecidos milenares e murais. O principal objeto de estudo são obras portuguesas da época medieval. A técnica utilizada é comparada com outras técnicas utilizadas neste tipo de análise, como micro-FTIR, micro-Raman e micro Raios X de fluorescência. É possível, com os dados obtidos, dizer quão importantes foram as influências árabes, judaica e cristã na elaboração de tais obras de arte. A técnica de microespectrofluorimetria permite alta resolução espacial, uma boa caracterização de tintas de tingimento de tecidos e o estabelecimento da natureza de diferentes cromóforos. Já foi utilizada até na análise de pinturas de Vincent Van Gogh. Em particular, a análise de pigmentos amarelos permitiu investigar a natureza de corantes asiáticos e de murais chineses. A microespectrofluorimetria apresenta alta sensibilidade, seletividade e rápida aquisição de dados, boa resolução espacial e a possibilidade de se conhecer a composição dos pigmentos e peças tingidas (ou pintadas) detalhadamente.

O uso de radiação da freqüência de Tera hertz (1012 hertz, ou ciclos-por-segundo) pode ser útil para se conhecer camadas internas de tinta  em pinturas de parede, mesmo em camadas espessas. Ao contrário da radiação ultravioleta (UV), a radiação Tera hertz não provoca danos aos pigmentos e pinturas. A radiação infravermelho, por outro lado, apresenta baixa capacidade de penetração. A radiação de micro-ondas apresenta baixa resolução. Para se gerar a radiação em Tera hertz, pesquisadores utilizam um laser de comprimento de onda de fentossegundos, que atua como uma fibra de laser. Aplica-se pequenos pulsos eletromagnéticos com duração de 1 a 2 pico-segundos (10-12 segundos) produzidos pelo laser. Cada camada de tinta e cada pigmento reflete estes pulsos de maneira diferente, de tal forma que é possível se obter um gráfico de contraste em função da profundidade em que a tinta se encontra. Assim, obtém-se informações sobre a espessura das camadas de tinta e que pigmentos foram utilizados na preparação das tintas.

Referências

Simona Fantacci, Anna Amat and Antonio Sgamellotti, “Computational Chemistry Meets Cultural Heritage: Challenges and Perspectives”, Acc. Chem. Res., DOI: 10.1021/ar100012b

Sophia Sotiropoulou and Sister Daniilia, Material Aspects of Icons. A Review on Physicochemical Studies of Greek Icons”, Acc. Chem. Res., DOI: 10.1021/ar1000082

Maria J. Melo and Ana Claro, “Bright Light: Microspectrofluorimetry for the Characterization of Lake Pigments and Dyes in Works of Art”, Acc. Chem. Res., DOI: 10.1021/ar9001894

Reveal-All Scanner for Works of Art, ScienceDaily.



Categorias:ciência, educação, informação, química

Tags:, , , , ,

2 respostas

  1. adorei a revisão. também já me encantei com a química da arte, recentemente: http://scienceblogs.com.br/cienciaeideias/2010/02/a_quimica_da_arte.php

Deixar mensagem para maria Cancelar resposta