Blogs e Blogs de ciência – what’s up?

Esta é uma questão realmente interessante, pois existe uma crença atual de que os blogs de ciência poderiam substituir os comunicados de imprensa (“press releases”) sobre fatos científicos. Na verdade, de certa forma isso já vez acontecendo, e os blogs de ciência têm chamado a atenção nos meios de comunicação. Blogs de ciência já foram, assunto, por exemplo, da revista Pesquisa FAPESP. Vários jornalistas de ciência têm também blogs de ciência, como Marcelo Leite (Ciência em Dia) e Reinaldo José Lopes (Chapeú, Chicote e Carbono 14), ambos da Folha de S. Paulo. A abertura de espaço para a discussão de temas científicos tornou possível uma participação mais ativa da sociedade em geral.

Em princípio, blogs de ciência seriam “produzidos” por cientistas ou jornalistas conhecedores do assunto que tratam, mas nem sempre é este o caso. Muitos leigos estudiosos de determinados assuntos acabam criando blogs de ciência, trazendo novas abordagens e colocações, as quais muitas vezes podem ser bastante controversas. Assim, por exemplo, vários blogs criacionistas assumem uma “aura científica” para dar mais credibilidade ao seu conteúdo, o qual pode ser apresentado de maneira bastante tendenciosa e unilateral, desinformando o leitor e desvirtuando o conhecimento associado à “informação” que é transmitida.

Em geral blogs de ciência adotam quatro tendências gerais:

a) transmitem notícias sobre novidades científicas, curiosidades, descobertas e atualização da ciência;

b) explicam assuntos complicados para que estes possam ser compreendidos por não-especialistas;

c) avaliam de maneira crítica resultados científicos e conclusões obtidas por cientistas;

d) apresentam posições sobre assuntos considerados polêmicos, como pesquisas com células-tronco, clonagem, etc.

O engajamento social junto aos blogs de ciência pode ser observado pela participação de não-especialistas na criação destes blogs e de uma participação ativa na geração de comentários sobre textos científicos de blogs.

Existe uma enorme variedade de blogs de ciência, com diversos formatos e apresentação de conteúdo, o que demonstra uma heterogeneidade considerável de blogs deste tipo. Dentre os blogs de ciência mais famosos, os assuntos predominantes são evolução, genética, física e biotecnologia. Os blogs que trazem notícias de ciência tendem a não expressar a opinião do seu autor. Mas muitas vezes ocorrem exageros e generalizações sem fundamentos, que acabam por desvirtuar a informação apresentada. O uso de humor é também freqüente, e pode tornar a informação bem mais agradável de ser assimilada.

Quando apresentam pontos de vista, em geral blogs de ciência tendem a não abordar pontos a favor e contra a argumentação apresentada, o que torna o conteúdo de certa forma superficial. As avaliações tendem, em geral, a ser menos densas e críticas. Mas muitas vezes as discussões em blogs de ciência trazem uma grande carga pessoal, que é expressa através de comentários exagerados, até mesmo ofensivos, por parte de blogueiros e seus leitores. Comentários pessoais levam a discussão muitas vezes para fora do foco do assunto apresentado no texto do blog, sendo muitas vezes sarcásticos e agressivos. O anonimato dos comentários permite tais atitudes; porém, recentemente estabeleceu-se uma nova legislação sobre comentários anônimos deixados em blogs: tais comentários são, atualmente, de responsabilidade do blogueiro. Em caso de ofensa a terceiros, o blogueiro responsável pelo blog deverá responder à justiça pelo conteúdo dos comentários apresentado em seu blog.

Os blogs de ciência são, na sua maioria, veículos pessoais para apresentar uma ciência legal, interessante e ao mesmo tempo útil, de maneira a atrair a atenção do leitor. Tornam-se, assim, um espaço de obtenção de informação científica de maneira descompromissada, no qual a discussão aprofundada do assunto apresentado é muitas vezes deixada de lado. Desta forma, caso se queira utilizar blogs de ciência como um veículo efetivo de educação e informação, estes devem estar sob contínua avaliação e aprimoramento, de maneira participativa entre blogueiros e leitores.

Mas a diversidade dos blogs de ciência, bem como dos blogs em geral, é que tornam estes tão interessantes. Fui procurar alguma informação a respeito, e encontrei o livro “História da Imprensa no Brasil”. O primeiro capítulo deste livro, “Os primeiros passos da palavra impressa”, conta sobre os primórdios da imprensa brasileira e sua diversidade.

Durante o Império surgiram muitos jornais, muitos dos quais de fortes opiniões. O primeiro, Correio Braziliense, era impresso em Londres! Teve como principal concorrente a Gazeta do Rio de Janeiro. Depois surgiram muitos outros, vários de curta existência como O Patriota (1813-1814), O Espelho (1822) e O Bem da Ordem. O interessante é o surgimento da “opinião pública”, conceito que é uma mistura de “saber popular”, utilizado por políticos para substanciar suas posições, e da opinião propriamente dita, que se expressava das mais variadas formas, em geral em panfletos.  Em 1820 a Junta de Governo da Revolução Constitucional portuguesa publicou o decreto estabelecendo a liberdade de imprensa. Sobre esta, o baiano Cipriano Barata, em seu jornal Sentinela da Liberdade, escreveu

“Toda e qualquer sociedade, onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter aumento, alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela sociedade ou povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro”.

Depois de ler este capítulo, fiquei com a nítida impressão de que os blogs recuperaram uma tradição da imprensa antiga, de mais opinião, livre, muitas vezes sem compromisso com o ostatus quo, mas muito mais com as próprias idéias, como era a imprensa do século XIX. Esta era muito mais diversificada do que a atual, que é centralizada em alguns grandes jornais e grandes revistas. Na época (século XIX), não era preciso ter muito dinheiro para produzir um jornal, que tinha alcance. Até mesmo “escravos de ganho” (aqueles que recebiam, pouco, mas recebiam) podiam comprar jornais, que eram baratos.

Ainda no mesmo capítulo do livro “História da Imprensa no Brasil” é dito que “(…) era comum, na época, impressos deste tipo transcreverem (e traduzirem, quando era o caso) longos trechos de livros, tornando-se, assim, veículos de disseminação. O jornal realizava também divulgação (e reinterpretação, com frequência) dos livros nos anos 1820 e 1830, antes de se expandir a publicação de volumes em folhetins nos periódicos.”

Interessante, não é mesmo? Ou seja, muitos blogs ciência de não inventaram absolutamente nada. Fazem uma imprensa muito parecida com a do século XIX!

Os nomes dos jornais daquela época eram curiosos, muito mais divertidos do que os do jornais de hoje e, de certa forma, mais parecidos com nomes de blogs: Aurora Fluminense (1827-1839), O Repúblico, Tiphis Pernambucano, Revérbero Constitucional Fluminense, O Observador Constitucional, O Carapuceiro, O Conciliador do Maranhão, Farol Paulistano. O Diário Pernambucano, por exemplo, foi criado em 1825 e circula até hoje, sendo o mais antigo jornal da América Latina em circulação (segundo o autor do capítulo do livro). Haviam jornais e revistas de todas as tendências: liberais exaltados, liberais moderados, culturais, científicos, pedagógicos, por ofício, de estrangeiros, filantrópicos, de orientação maçônica. Os jornais realmente formavam a opinião e a imprensa teve um papel decisivo como formuladora de um projeto de nação brasileira.

A partir de 1840 a diversidade de manifestações diminui com a restauração do poder centralizador e monárquico, e o debate político diminui consideravelmente. Mesmo assim, volta a ganhar corpo a partir da época da proclamação da república e da lei Áurea, permanecendo muito diversificado até o Estado Novo (era Vargas), quando o controle do estado sobre as publicações ganha cada vez mais importância. Hoje sabemos que a tradição de diversidade de opiniões e publicações praticamente desaparece a partir da segunda metade do século XX.

Os blogueiros estão, de certa forma, recuperando uma tradição de diversidade de pontos de vista e de opiniões, tradição esta de certa forma perdida, mas que a sociedade em geral está re-aprendendo a conhecer e participar.

Marcos Morel, “Os Primeiros Passos da Palavrana Imprensa”, em “História da Imprensa no Brasil”, Ana Luiza Martins e Tania Regina de Luca,editoras, editora contexto, 2008, páginas 23-43.

ResearchBlogging.orgInna Kouper (2010). Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities Journal of Science Communication, 9 (1)



Categorias:ciência, educação, informação

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4 respostas

  1. Oi, Roberto,
    Belo texto; bastante interessante a comparação com a imprensa do século XIX.
    E adorei a nova cara do blog, ficou bem bonito!
    Abração,
    Tati

    • Oi Tati,
      Pois então, fiquei tão surpreso com a imprensa do século XIX que a comparação foi inevitável.

      Obrigado pelo seu elogio ao blog. O mérito é do Željan Topić, que elaborou o layout. Também gostei.

      Tudo de bom.
      Roberto

  2. Olá Roberto,
    parabéns pelo post! Muito oportuno, didático e bem escrito!

    forte abraço, Gallucci.

  3. Olá Roberto,

    Muito pertinente o assunto. Como estou diretamente ligado a área, faço questão de colocar (para acrescentar) que criei meu blog ( http://www.neuropapers.blogspot.com) com a intenção de me qualificar na comunicação e tornar a veiculação científica no brasil mais acessível. Por exemplo, minha família e amigos assim como milhões de brasileiros, ficam muito limitados quando mando um artigo científico. Não faz sentido algum, dá até repulsa, segundo eles. A partir do momento que posso utilizar o blog, eu traduzo isso pra eles deixando mais claro o que de fato acontece no meu meio, transformando em compreensível o que de fato era classificado (através de um amarelo sorriso) como “interessante”.

    abraço, Magno

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