Dia Internacional da Biodiversidade

O evento no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, aconteceu em um dia absolutamente lindo. Céu azul, temperatura amena, sábado de manhã, pessoal relaxado, de cara boa, participando de um evento que tinha tudo a ver com a VIDA. Estudantes, jornalistas, meio acadêmico, pessoal da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, responsável pela organização do evento), enfim, o ambiente dispunha de uma boa parcela da biodiversidade humana.

A mesa foi formada pelo Prof. Celso Lafer (Presidente da FAPESP), Prof. José Goldenberg (ex-reitor da USP, ex-ministro da ciência e tecnologia), Maria Cecília Wey de Brito (da Secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, representando a ministra Izabella Teixeira), Helena Carrascosa (representante da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo) e o Prof. Carlos Joly (coordenador-chefe do Programa BIOTA da FAPESP). O Professor Ronaldo A. Pilli, pró-reitor de pesquisa da UNICAMP, esteve presente representando o reitor da mesma universidade. A USP e a UNESP não enviaram representantes ao evento.

Em seu pronunciamento, o prof. Lafer ressaltou a importância do evento e do tema, lembrando que a ciência deve servir de base para o desenvolvimento pois, segundo Pasteur, “Não existe ciência aplicada, mas apenas aplicações da ciência”. Lafer assinalou a importância do Programa BIOTA da FAPESP no estabelecimento de políticas públicas no estado de São Paulo, em particular para o zoneamento agrícola. Sugeriu que, por ser um país mega-diverso, o Brasil tem especial importância neste contexto, e deveria formar uma coligação diplomática entre países mega-diversos. Enfatizou ainda o empenho do governo do estado de S. Paulo nas políticas públicas ambientais.

O Prof. Carlos Joly mencionou o plano científico do programa BIOTA da FAPESP, que completou 10 anos em 2008, e indicou a participação da comunidade científica para contribuir na proposição das metas do programa para os próximos 10 anos. O programa foi recentemente institucionalizado pelas três universidades estaduais paulistas (UNICAMP, UNESP e USP), mas com principal empenho pela UNICAMP (comentário meu). Tal iniciativa terá como conseqüência a incorporação de softwares e bases de dados do programa BIOTA pelas universidades estaduais paulistas. Segundo Joly, o estabelecimento de critérios de áreas de conservação no estado de S. Paulo, bem como a publicação de 11 resoluções e 4 decretos pelo governo do estado, são algumas das principais conseqüências do desenvolvimento do programa BIOTA. Assinalou a necessidade de uma melhor e maior interação entre a secretaria do meio ambiente e as universidades estaduais paulistas, bem como de um maior grau de internacionalização do programa, que, de fato, já está sendo implementada.

Maria Cecília W. de Brito mencionou a importância do dia internacional da biodiversidade, e que o governo federal tinha concluído a publicação da Lista da Flora Brasileira, que relaciona 45.000 espécies de plantas. Assinalou a importância da participação do Brasil nos eventos de biodiversidade a serem realizados no Reino Unido e em Nagoya, durante este ano, e que o Brasil atendeu a 50% das metas estabelecidas em Johannesburgo em 2002, criou novas áreas de conservação, procurou valorizar os modos de vida de populações tradicionais, e diminuiu significativamente a emissão de CO2. Mencionou a criação de um sistema de monitoramento dos grandes biomas brasileiros – floresta amazônica, cerrado, pantanal e mata atlântica. Por fim, disse que em breve estará disponível on-line o 4º Relatório Nacional da Comissão de Diversidade Biológica.

O convidado especial, Dr. Thomas Lovejoy, do Heinz Center e Professor da George Mason University, apresentou uma ampla conferência sobre biodiversidade. Dr. Lovejoy trabalhou durante vários anos na Amazônia (desde os anos 1960), e recentemente participou como avaliador do 3rd Global Biodiversity Outcome, relatório que classificou como sendo conservador.

Lovejoy foi extremamente claro e objetivo na sua apresentação. Disse que o principal problema ambiental é a perda de biodiversidade, pois esta se relaciona a todos os aspectos ambientais, bem como a inúmeros aspectos de natureza econômica. Desta forma, a biodiversidade mereceria ter um gerenciamento mundial integrado. Mencionou o programa BIOTA como sendo um modelo a ser adotado por países de todo o mundo.

Lovejoy não mediu palavras para assinalar a importância do bom gerenciamento da biodiversidade para a melhor compreensão da vida em todas as suas dimensões, bem como para o entendimento de inúmeros problemas de natureza biológica. Como exemplos de serviços da biodiversidade, mencionou a descoberta do inibidor do fator da conversão da angiotensina a partir do veneno da jararaca, que levou ao desenvolvimento do captopril, bem como a descoberta e o desenvolvimento da técnica da reação de polimerização em cadeia (PCR, polymerase chain reaction), que utiliza enzimas de bactérias termofílicas para suas diversas aplicações em saúde pública, técnicas forense, e em pesquisa básica e aplicada.

Mencionando especificamente o “Global Biodiversity Outlook 3”, contou que este foi constituído por 110 relatórios nacionais, resultantes de parcerias de indicadores de biodiversidade, de estudos de fronteira sobre biodiversidade, e de 500 artigos científicos. Infelizmente, nenhuma nação cumpriu com as metas estabelecidas para 2010. Dentre os principais ecossistemas afetados, os recifes de corais são os que apresentam maior grau de degradação. As áreas de proteção marinha estão ameaçadas devido à pesca excessiva. Além disso, o aumento da emissão de CO2 levou a um aumento significativo da acidez da água do mar, que promove um aumento da mortalidade das algas que vivem em associação com os corais.

Lovejoy assinalou que as taxas de extinção de espécies atingiram números acima do esperado, não somente para espécies silvestres, mas também para espécies domésticas (gado, aves, etc). A perda de biodiversidade se deve, em boa parte, ao aumento global de temperatura, que permaneceu praticamente estável nos últimos 10.000 anos, mas tem sofrido aumento depois da revolução industrial. Devido ao aumento significativo das áreas agrícolas e à adaptação das espécies às temperaturas constantes, estas se tornaram particularmente suscetíveis ao aumento global de temperatura. Uma das conseqüências do aumento global da temperatura é também o aumento do número de dias de seca no mundo todo, bem como da formação de gelo no Ártico. Reflexos nítidos do aumento da temperatura estão sendo observados em populações da árvore Maple, que produz o famoso xarope, que tende a desaparecer dos EUA nos próximos anos. Mostrou também a tendência no desaparecimento de espécies endêmicas de espécies da costa leste australiana. Assinalou ainda que o aquecimento global têm provocado a fragmentação de ecossistemas, fazendo com que espécies migrem para dar origem a novos ecossistemas, menos estáveis e mais frágeis.

Porém, segundo Lovejoy, ocorreu um aumento global das áreas de proteção ambiental, bem como uma diminuição das perdas de área da Amazônia. Ressaltou, no entanto, a necessidade de se diminuir a taxa de perda de biodiversidade da Amazônia, que deve estar associada à diminuição da taxa de desmatamento. Uma das mais severas conseqüências do desmatamento da Amazônia é a diminuição da faixa de umidade do equador, que estabelece uma faixa global de umidade que circula em volta do mundo todo. Lovejoy enfatizou a necessidade de se manter o desmatamento total da floresta em até 20% da área total da floresta, em se abolir completamente o uso de fogo para a limpeza de áreas desmatadas, de maneira a contribuir para o menor incremento da temperatura global.

Mostrou sua preocupação com o colapso dos recifes de corais em todo o mundo, um processo que se iniciou em 1983, decorrente da acidificação dos oceanos, que faz com que os recifes de corais mortos sejam dominados por algas, com perdas significativas de biodiversidade para a reprodução das espécies, que resultam, inclusive, na diminuição do turismo. Para se minimizar tais estragos, Lovejoy assinalou a necessidade de se reduzir o stress ambiental nos recifes de corais, bem como o uso de técnicas de pesca destrutivas, além de reduzir significativamente a emissão de gases de carbono.

Lovejoy apresentou soluções que podem ser adotadas para se reduzir a perda de biodiversidade no planeta, de maneira mais ampla do que se imagina. Dentre as estratégias que podem ser adotadas, incluiu a otimização do uso da terra para agricultura (com a abolição de subsídios nocivos), abordar o estudo e o gerenciamento do clima e da biodiversidade de forma conjunta, bem como o planejamento estratégico. Defendeu a necessidade de se revisar as estratégias de conservação, objetivando incrementar a manutenção da conectividade entre espécies de um determinado ecossistema, bem como a diminuição da mobilidade destas mesmas espécies. Indicou que no caso das emissões de CO2 oriundas do desmatamento e da indústria, 46% destas emissões vão para a atmosfera, 29% é absorvida por espécies terrestres e 26% pelos oceanos. Enfatizou a necessidade de uma “engenharia planetária” para a utilização dos ecossistemas, que deve necessariamente incluir a restauração de florestas, de pastagens e um melhor aproveitamento do solo para a agricultura.

Deu um exemplo extremamente didático de como a aparente implementação de inovação ambiental, como de fazendas de camarões, são, na verdade, um grande engodo, pois promovem uma perda significativa de áreas de mangues, cuja recuperação poderia resultar em um incremento econômico maior do que os lucros resultantes da criação dos crustáceos.

Finalizou sua apresentação falando sobre a necessidade premente de uma ação pró-ativa em escala mundial em favor da recuperação da biodiversidade perdida, com o engajamento da sociedade, através de ações educacionais e sociais que apresentem resultados efetivos.

Após sua apresentação Lovejoy de dispôs a responder uma série de perguntas encaminhadas pelo público, de maneira extremamente atenciosa.

Após o evento, pude conversar brevemente com Thomas Lovejoy, sobre sua pesquisa na Amazônia, seu conhecimento do trabalho de Haffner sobre a teoria dos refúgios (sabia até mesmo a data da publicação do artigo de Haffner na Science, em agosto de 1969), sobre o período em que Wallace e Bates estiveram no Brasil, bem como de pesquisas relacionadas à descoberta de substâncias ativas a partir de organismos vivos financiadas pelo National Cancer Institute durante 25 anos. Tais iniciativas resultaram na descoberta de várias substâncias anticancerígenas, como o taxol (paclitaxel) e a camptotecina, utilizadas atualmente no tratamento de algumas formas de tumores. Lovejoy demonstrou ser extremamente interessado em diversos assuntos, principalmente sobre o Brasil, que considera uma nação que deve exercer liderança em políticas de conservação da biodiversidade.

Um sábado e tanto.

Leia também a apreciação do evento publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e pelo Boletim da Agência FAPESP.



Categorias:ciência, educação, informação

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3 respostas

  1. Excelente relato. Claro, informativo e bastante informal torna a leitura agradável e muito educativa para aqueles que não estiveram no evento.

  2. Obrigada, Roberto, por dar-nos ao conhecimento, com tanta riqueza narrativa, do que você pôde presenciar naquele agradável sábado de sol. Para os que não tiveram a oportunidade de estar presentes nesse importante evento, é como sentir e apreender tudo o que se viveu ali. Realmente, um excelente e detalhado relato.

    E que oportunidade e tanto você teve ao entabular uma conversa com o próprio Lovejoy! Muito bacana essa troca!

    Parabéns pelo post!

Trackbacks

  1. Triste Amazônia, ó quão dessemelhante « Química de Produtos Naturais

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