Criado há 21 anos, o International Panel for Climate Change (IPCC) se estabeleceu como um órgão independente para monitorar as mudanças climáticas em curso no planeta. Embora alvo de questionamentos recentes quanto a procedimentos adotados por alguns de seus membros, o IPCC continua atuando de maneira decisiva e independente para monitorar os efeitos no clima das ações humanas.
Em 2006 foi publicada uma análise econômica dos impactos da mudança climática na economia mundial, coordenada por Nicholas Stern. Avaliação similar deverá ser apresentada em outubro deste ano, quando será publicado o “Estudo Econômico de Ecossistemas e Biodiversidade” (Economics of Ecosystems and Biodiversity Study, EEBS). Provavelmente o resultado deverá apresentar perdas econômicas significativas devido ao não-cumprimento das metas de conservação de biodiversidade, apresentadas há 10 anos na Convenção da Diversidade Biológica (CBD 2002). Tais prejuízos se refletem não somente na perda de biodiversidade, como também nos serviços da biodiversidade: alimentos de natureza “selvagem”, madeira, fibras, medicamentos, reciclagem de gases da atmosfera, purificação de água, diminuição de enchentes, controle de erosão, destoxificação do solo, estabilização do clima, beleza natural, educação e sentido de integração com a natureza. Os organizadores do EEBS trabalham com o objetivo de chamar a atenção de políticos e empresários para o problema de perda de biodiversidade, que só se agrava (veja aqui).
A necessidade em se estabelecer um “IPCC” para a biodiversidade está em discussão, e deve ser proposta na próxima semana em Busan, Coréia do Sul. Atualmente tal função é de responsabilidade do Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES).
Questiona-se se o modelo adotado pelo IPCC é o mais adequado para monitorar a perda de biodiversidade, uma vez que esta ocorre em nível local, de responsabilidade de cada nação. Membros do IPBES reconhecem tal fato, e argumentam que tal monitoramento poderia ser realizado tanto regional quanto globalmente. Todavia, diferentemente das mudanças climáticas – que se relacionam, em último grau, ao aquecimento global – a perda de biodiversidade é um processo mais complexo. Mas o a perda de biodiversidade é real e evidente, e causa enorme impacto econômico e social. Porém, ao contrário do “aquecimento global”, muitas pessoas ignoram o que seja “perda de biodiversidade”.
A atuação do IPCC teve por objetivo não somente monitorar a ação humana sobre as mudanças climáticas, mas também tornar a sociedade atual mais consciente sobre os problemas associados às mudanças climáticas.
O IPBES deve ter a mesma estratégia para mostrar que a perda de diversidade biológica é um problema tão grave quanto o aquecimento global. Sua atuação deve não somente estar relacionada aos membros signatários da CBD-2002, mas também com membros signatários de outros tratados para conservação da biodiversidade, órgãos inter-governamentais e das Nações Unidas, ONGS em prol da sustentabilidade e conservação biológica, associações científicas e o setor privado comprometido com a manutenção da biodiversidade. O IPBES têm o apoio do Programa Ambiental das Nações Unidas, que também acompanha as avaliações do IPCC, e deve procurar ampliar sua atuação com o apoio da FAO (Food and Agriculture Organization, Organização da Agricultura e Alimentação). Também deve estabelecer parâmetros e prover infraestrutura para a avaliação científica da biodiversidade, de maneira a se poder prever o curso da (falta de) sustentabilidade biológica na Terra. Tal estratégia deve estar aliada à implementação de programas científicos desta natureza nos países em desenvolvimento, e fortemente conectada à Grupo de Observações da Terra – Rede de Observação da Biodiversidade (Group on Earth Observations Biodiversity Observation Network, GEO BON). A GEO BON é constituída por 100 organizações governamentais e não-governamentais que compartilham seus dados e análises sobre a biodiversidade. Desta forma será possível estabelecer estratégias efetivas e ações eficazes para se evitar, a todo o custo, a diminuição da diversidade biológica, cujas conseqüências são desconhecidas –uma experiência que, certamente, poucos deverão assumir os riscos e as conseqüências.
Leia mais sobre este assunto, aqui. Tenha acesso ao documento final gerado pela CBD-2002, aqui.
Nature Editorial Board (2010). Wanted: an IPCC for biodiversity Nature, 465 (7298), 525-525 DOI: 10.1038/465525a
Categorias:ciência, educação, informação
Hmm
Acho uma ideia interessante mas como as causas da perda de biodiversidade são muitas (bem diferente do aquecimento global) acho que o trabalho desta painel será maior do que do IPCC. E bem mais complexo.
Abraços.
Oi Luiz,
Concordo plenamente com você.
Concordo pois é um dever fazer isso, para que possamos nos conscientizarmos.