Dia do Meio Ambiente – nada a comemorar

Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Infelizmente, as notícias sobre este assunto ,tão na moda, não são nada boas.

Ao final da Convenção da Diversidade Biológica, realizada em 2002, os países participantes se comprometeram a apresentar uma redução significativa na perda de biodiversidade até 2010. Tais metas foram incorporadas nas Metas de Desenvolvimento do Milênio pelas Nações Unidas (United Nations Millenium Development Goals), uma vez que tais perdas de biodiversidade afetam diretamente o bem estar da humanidade (uma justificativa essencialmente antropocêntrica, egoística e egocêntrica, para dizer o mínimo).

Sendo este o Ano Internacional da Biodiversidade, nada mais natural do que se debruçar sobre os indicadores de biodiversidade para observar se tais metas propostas em 2002 foram realmente alcançadas ou não. Embora a mídia já tenha divulgado, ainda que de maneira bem modesta, que tais metas NÃO foram cumpridas, vale a pena olhar para os detalhes do problema. Foi o que fez um grupo de 45 pesquisadores de vários países.

O estudo analisou as tendências, bem como variações no tempo e direcionamento das tendências de indicadores individuais de biodiversidade, além de índices calculados de forma agregada relacionados ao estado da biodiversidade, pressões sobre a biodiversidade, respostas às mudanças (através do estabelecimento de diretrizes e gerenciamento da biodiversidade),  e como se encontram os benefícios oferecidos pela biodiversidade (em termos de serviços de ecossistemas). Para os cálculos de índices agregados, foram utilizados dados de 24 indicadores desde 1970.

Os resultados não são bacanas. Não mesmo. Nem um pouco. Muito pelo contrário.

Os resultados das análises indicam que a biodiversidade diminuiu ao longo das últimas quatro décadas. A maioria dos indicadores apresentou tendências negativas. Houve redução nas populações de vertebrados, de pássaros de habitats particulares, de populações de pássaros de regiões costeiras (no mundo todo), da extensão das florestas, de mangues, de regiões com grandes extensões de algas fixas ao substrato marinho, e dos recifes de corais. Nenhum destes indicadores de biodiversidade apresentou redução recente em sua taxa de perda. Ou seja, a perda de biodiversidade para estes indicadores só tem aumentado.

Dois indicadores mostraram estabilidade: qualidade de água doce e a integridade trófica no ecossistema marinho. Segundo os autores, os dados destes indicadores podem ter resultado de um viés geográfico particular dos dados disponíveis (no caso da qualidade da água doce) e da expansão da atividade pesqueira (para o segundo).

As análises de índices agregados indicam, todas, perda de biodiversidade, tendo sido calculados para 1980 e 2004. Em paralelo, o risco de extinção de espécies calculado de forma agregada também aumentou.

Os indicadores de “pressões sobre a biodiversidade” (fatores que afetam a mesma) aumentaram ao longo das últimas décadas: a) a utilização humana dos recursos ecológicos globais; b) a deposição de “nitrogênio reativo”(NO, NO2, NO3, N2O5, HNO3); c)  número de espécies invasoras na Europa; d) proporção estoques de pesca que foram extensivamente explorados; e) impacto das mudanças climáticas nas populações européias de pássaros. Não houve sinal de redução para nenhum destes indicadores.

Embora os indicadores de fragmentação de habitats não sejam disponíveis, estima-se que o grau desta fragmentação esteja aumentando: 80% dos fragmentos de floresta Atlântica remanescentes são menores que 0,5 km2 e 59% das grandes bacias hidrográficas apresentam fragmentação moderada ou intensa devido à construção de represas e reservatórios.

Por outro lado, houve um aumento nas iniciativas de se estabelecer diretrizes e gerenciamento da biodiversidade, com aumento das áreas protegidas, aumento das florestas exploradas de forma sustentável, na proporção de países que passaram a integrar acordos internacionais para evitar a dispersão de espécies invasoras, e ainda de ajuda para a conservação da biodiversidade (US$ 3,13 bilhões em 2007). Porém, o aumento em tais iniciativas perdeu força nos últimos anos.

No que se refere aos benefícios à sociedade oriundos da biodiversidade, houve declínio na disponibilidade de vertebrados (15%), bem como de mamíferos, pássaros e anfíbios utilizados em alimentação e medicina (23 a 36% destas espécies encontram-se ameaçadas de extinção). Também houve diminuição de pássaros comercializados como animais domésticos (8%). Ainda, 21% de espécies de animais domesticadas encontram-se em extinção.

Em termos de cultura, línguas faladas por menos de 1000 pessoas (22% de todas as 6900 línguas faladas em todo o mundo) perderam falantes nativos nos últimos 40 anos e correm sério risco de desaparecerem. Note-se: perda de diversidade lingüística está fortemente associada à perda de conhecimento indígena da biodiversidade. Mais de 100 milhões de pessoas pobres, que vivem em áreas remotas, dependem essencialmente de recursos naturais (biodiversidade e serviços de ecossistemas).

Fica evidente que as metas estabelecidas para 2010 de redução da perda de biodiversidade não foram atingidas. Nem indicadores individuais ou agregados do estado da biodiversidade apresentaram qualquer redução durante os últimos 40 anos, exceto para os recifes de corais, cuja perda não aumentou, mas também não diminuiu. Os indicadores de aumento nas iniciativas de se estabelecer diretrizes e gerenciamento da biodiversidade aumentaram, porém de forma desacelerada nos últimos anos.

De forma geral, verifica-se que os esforços para mitigar a perda de biodiversidade mostraram-se claramente inadequados, com uma forte discrepância entre o aumento da perda e das pressões sobre a biodiversidade, frente a uma diminuição dos esforços para que tais perdas sejam evitadas.

Desta forma, torna-se absolutamente imperativo que se reforce os esforços para diminuir a perda de biodiversidade de forma efetiva, de maneira a se reverter diretrizes que promovem a perda de biodiversidade, integrando a biodiversidade em um plano global de uso da terra, incorporando o valor da biodiversidade em políticas econômicas, e estimulando-se o financiamento e a implementação de diretrizes que resultem na efetiva diminuição da perda de biodiversidade. O investimento contínuo em iniciativas de monitoramento global da biodiversidade e de seus indicadores é essencial para que sejam observados resultados reais na redução da perda de diversidade biológica.

Algumas considerações adicionais. A utilização de biocombustíveis não resolverá o problema da diminuição da emissão de carbono, e aumentará o uso de terra para plantações extensivas (monocultura), que contribuem para a degradação de ecossistemas. O que é absolutamente necessário é uma redução efetiva de drástica no consumo de combustíveis nos próximos anos, através da implementação de sistemas de transporte público de qualidade, em nível nacional. Somente a redução na produção de automóveis e veículos particulares em geral poderá contribuir de maneira efetiva para o consumo de combustíveis, que causa aumento nas emissões de carbono para a atmosfera e o uso da terra para grandes extensões de monoculturas.

Além disso, a educação de muito boa qualidade da população é um fator absolutamente essencial para que se promova redução no consumo, ou consumo consciente, evitando-se todas as formas de desperdício que levam, inexoravelmente, ao aumento da utilização de recursos naturais.

Leitor: este ano é ano de eleições. Informe-se sobre seu partido de preferência, sobre seu possível candidato à presidência, ao governo de seu estado, sobre os candidatos a deputado federal e estadual. Onde? Um bom início é pelo site “Transparência Brasil”, que disponibiliza um mundo de dados sobre os partidos, os parlamentares e casas legislativas brasileiras. Visite o site da “Transparência Brasil” e procure as informações que deseja. Conheça as propostas dos candidatos para o meio-ambiente. Certifique-se do passado de seus candidatos, de forma a evitar futuras surpresas.

Além disso, você se lembra em quem votou nas últimas eleições? Não, não é mesmo? Pois bem, neste ano, ANOTE em quem você votou e guarde sua anotação junto a seu título de eleitor. Daqui a 1 ano, tente descobrir o que anda fazendo seu candidato eleito. Atualmente é possível se obter todas as informações que se deseja sobre deputados e senadores nos portais da Câmara dos Deputados e do Senado. Busque informações sobre estes, se informe e, de preferência, exija informações sobre o que seu candidato andará fazendo daqui a 1 ano e meio. Acompanhe seu desempenho, e, caso julgue importante, exija que seu candidato eleito apresente projetos para um desenvolvimento econômico, social e cultural que leve em conta o gerenciamento do meio-ambiente de maneira suntentável.

Veja aqui algumas das atividades que serão realizadas hoje, no Brasil. Escute “Brasil-nativo” cantada por Danilo Caymmi (letra: Paulo Sérgio Pinheiro; Música: Danilo Caymmi; Arranjo: Jacques Morelenbaum – do CD “Passarim”, de Tom Jobim, 1987).

ResearchBlogging.orgButchart, S., Walpole, M., Collen, B., van Strien, A., Scharlemann, J., Almond, R., Baillie, J., Bomhard, B., Brown, C., Bruno, J., Carpenter, K., Carr, G., Chanson, J., Chenery, A., Csirke, J., Davidson, N., Dentener, F., Foster, M., Galli, A., Galloway, J., Genovesi, P., Gregory, R., Hockings, M., Kapos, V., Lamarque, J., Leverington, F., Loh, J., McGeoch, M., McRae, L., Minasyan, A., Morcillo, M., Oldfield, T., Pauly, D., Quader, S., Revenga, C., Sauer, J., Skolnik, B., Spear, D., Stanwell-Smith, D., Stuart, S., Symes, A., Tierney, M., Tyrrell, T., Vie, J., & Watson, R. (2010). Global Biodiversity: Indicators of Recent Declines Science, 328 (5982), 1164-1168 DOI: 10.1126/science.1187512



Categorias:ciência, educação, informação

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2 respostas

  1. Achei muito interessante esta matéria!

    Parabéns pelo blog.

    Abraços

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