25 Brasileiros no IPCC

Notícia divulgada hoje por Fabio Reynol, do Boletim da Agência FAPESP, revela que

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgou, no dia 23 de junho, a lista de 831 especialistas que vão elaborar o seu quinto Relatório de Avaliação (AR5), que será publicado em 2014. Entre eles estão 25 brasileiros. Os selecionados estão divididos em três grupos de trabalho (WGs, na sigla em inglês). O WG1 reúne estudos físicos e terá 258 integrantes. O WG2, com 302, avaliará impactos, vulnerabilidades e estratégias de adaptação relacionados às mudanças climáticas. O WG3 enfocará pesquisas sobre estratégias de resposta à mitigação em um cenário de risco e incerteza, com 271 profissionais convocados.

Segundo o IPCC, nesse quinto relatório haverá uma participação maior de especialistas vindos de países em desenvolvimento (30% do total) e também de mulheres (25%). No entanto, a maior prioridade foi dada a jovens pesquisadores que ainda não haviam participado do IPCC e somam 60% do total. Entre esses está Chou Sin Chan, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Cptec-Inpe), escolhida pela primeira vez para participar como autora de um relatório do IPCC.

“Eu me sinto muito honrada com a escolha”, disse à Agência FAPESP a pesquisadora que coordena o Projeto Temático “Estudos da previsibilidade de eventos meteorológicos extremos na Serra do Mar”, apoiado pela FAPESP. Chou, que fará parte do WG1, acredita que sua seleção esteja relacionada ao trabalho de elaboração de modelos de cenários climáticos regionais. “Até agora, o IPCC vem utilizando modelos globais com resolução de 200 ou 300 quilômetros, que resultam em estudos de impacto mais grosseiros”, disse. Segundo ela, os modelos regionais permitem melhor qualidade de dados e de detalhes importantes com relação à topografia, vegetação e até ao recorte litorâneo.

Ao divulgar a lista de autores, o IPCC afirmou que procura construir uma ampla visão científica do clima. Por isso, os profissionais selecionados são oriundos de diferentes áreas do conhecimento, como meteorologia, física, oceanografia, estatística, engenharias, ecologia, ciências sociais e economia. Essa multidisciplinaridade é positiva, segundo Ilana Elazari Klein Coaracy Wainer, livre-docente do Departamento de Oceanografia Física da Universidade de São Paulo (USP). Ela e Edmo José Dias Campos, professor titular da mesma unidade, participarão pela primeira vez como autores do relatório do IPCC no WG1.

“A escolha dos nossos nomes representa o reconhecimento do papel dos oceanos nas mudanças climáticas”, disse Ilana. Segundo ela, os oceanos estão deixando de ser considerados elementos passivos do clima para ser encarados como agentes importantes das mudanças climáticas. Ilana frisou que entender o comportamento dos oceanos é fundamental para explicar vários eventos climáticos, como os furacões, por exemplo. “Nossa participação no IPCC também é um reconhecimento da qualidade da pesquisa brasileira em oceanografia física”, afirmou.

Com cerca de 3 mil inscrições de candidatos recebidas, 50% maior que a convocação para o relatório anterior (AR4), a equipe do quinto Relatório de Avaliação do clima é vista pelo IPCC como um sinal de prestígio da instituição. A equipe que elaborou o AR4 também foi menor: 559 autores, selecionados entre cerca de 2 mil inscritos. “Este aumento reflete o grande reconhecimento do trabalho do IPCC dentro da comunidade científica”, disse Rajendra Kumar Pachauri, presidente do Painel.

Os brasileiros que participarão da redação do AR5 são:

WG1 – Bases físicas:

* José Marengo (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe)

* Edmo Campos (Universidade de São Paulo – USP)

* Ilana Wainer (USP)

* Iracema Cavalcanti (Inpe)

* Paulo Artaxo (USP)

* Chou Sin Chan (Inpe)

WG2 – Impactos, adaptação e vulnerabilidade:

* Carlos Nobre (Inpe)

* Carolina Dubeux (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ)

* Fabio Scarano (Conservação Internacional)

* Jean Ometto (Inpe)

* Marcos Buckeridge (USP)

* Maria Assunção Silva Dias (USP)

* Ulisses Confalonieri (Fundação Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz)

WG3 – Mitigação das mudanças climáticas:

* Luiz Pinguelli Rosa (UFRJ)

* Marcos Gomes (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RJ)

* Mercedes Maria da Cunha Bustamante (Universidade de Brasília – UnB)

* Emílio La Rovere (UFRJ)

* Haroldo de Oliveira Machado Filho (Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT)

* Marcio de Almeida D’Agosto (UFRJ)

* Maria Silvia Muylaert de Araújo (UFRJ)

* Oswaldo dos Santos Lucon (USP)

* Roberto Schaeffer (UFRJ)

* Ronaldo Seroa da Motta (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea)

* Suzana Kahn Ribeiro (UFRJ)

* Thelma Krug (Inpe)

A lista completa dos autores do AR5 e mais informações sobre o relatório e o IPCC estão aqui.



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17 respostas

  1. A lista é muito interessante, pois mostra quem é escolhido para o IPCC, somente aqueles que são pró AGA de carteirinha. Nenhum dos chamados céticos do AGA tem acesso, é quase uma composição religiosa, precisas fazer o ato de fé antes de se colocar num grupo que dirá que esta religião é verdadeira ou não.
    Me parece uma forma de dar um aspecto de credibilidade de algo que vem sendo contrariado pelos dados nos últimos 12 anos.

    • Caro Rogério,

      Por favor, não confunda ceticismo com negacionismo. Sugiro que você leia a minha postagem anterior sobre este assunto.

      Outra coisa: queira por favor me indicar uma fonte fidedigna dos tais “dados nos últimos 12 anos”. Que não venha de outros blogs, e sim de artigos científicos em revistas indexadas e/ou de sites de organizações não-governamentais internacionalmente reconhecidas.

      Obrigado.

      cordialmente.
      Roberto

      • Fácil Roberto.

        Verifique os dados do projeto Argo (que mede a temperatura do oceano com 3500 bóias), se quiseres te envio o gráfico de variação do mesmo nos últimos anos.

        Também podes olhar em http://hadobs.metoffice.com/hadcrut3/diagnostics/global/nh+sh/ onde verás que a partir de 1996 não há aumento da temperatura, mas sim variações abaixo de um máximo. Se quiseres outras fontes posso te enviar com o máximo prazer.

        Se reparares bem no gráfico do metoffice que é o baluarte da AGA eles estão colocando a média dos seis primeiros meses do ano que foram excepionalmente quentes (presença de um el ninho) e verás que no fim do ano teremos mais um ano abaixo da média.

        A AGA está com seus dias contados, são doze indo para treze anos que a temperatura não sobe, dentro de mais dois anos fecharemos quinze anos o que os partidários do AGA dizem que é o necessário para negar a sua hipótese, eu ainda vou aguardar estes dois anos.

      • Caro Rogério,

        Bem interessante. Dei uma olhada na página do projeto Argo, mas não entendi muito bem como obter explicação para os dados. Vi o gráfico que você obteve, mas não há nenhuma explicação para ele (pelo menos que eu tenha encontrado).

        De qualquer forma, o projeto Argo está muito bem fundamentado. Mas uma publicação recente deles discute, justamente, o aquecimento na camada superior do oceano. Não li quais as justificativas para isso – não fica claro no abstract.

        http://www.nature.com/nature/journal/v465/n7296/full/nature09043.html#/

  2. Oi, Roberto!

    Tem o link para esse boletim da Agência Fapesp? Preciso da referência! Obrigada!

  3. Caro Roberto

    Ainda vou ficar devendo dados mais amplos, mas para não ficares com nada vou te enviar um link interessante. Quanto ao artigo que enviante o link tenho que esperar estar na Universidade para abri-lo pelo portal da Capes.

    O link interessante de se observar é (http://www.nsf.gov/news/news_summ.jsp?cntn_id=116766&org=NSF&from=news). Entre as medidas de 3500 boias do projeto ARGO e as medidas de dois satélites que medem o balanço térmico da terra há sumiço de energia espantoso e misterioso (podes ver em Trackin Earth’s energy: From El Niño to Global Warming – Trenberth & Fasullo) ambos cientistas do National Center for Atmospheric Research, Boulder, publicado em Science 16 April 2010: Vol. 328. no. 5976, pp. 316 – 317 DOI: 10.1126/science.1187272.

    A importância desta publicação está tanto nos seus resultados como nos seus autores, os mesmos chegam a conclusão que entre o balanço de energia que entra e que sai (feito pelos satélites) e a medida de tempertatura no oceano (feito com as boias do Argo) há uma diferença incrível do entorno de 0,5W/m² (conforme a figura do próprio artigo), ou seja, 150% acima do estimado pelo próprio autor 0,3W/m² no seu famoso modelo proposto sobre o balanço energético da Terra.

    Em resumo, olhando a figura, do artigo se vê claramente, que após os primeiros resultados do projeto ARGO (criado para verificar o aquecimento dos oceanos, e por ironia está verificando o resfriamento), o BALANÇO ENERGÉTICO NÃO FECHA.

    Neste mesmo artigo, o autor repete o que todos sabemos, que 90% da energia é absorvida pelos oceanos.

  4. Roberto

    Quanto ao gráfico que te enviei, foi gerado pelo Pacific Marine Atlas que podes obter em http://sio-argo.ucsd.edu/Marine_Atlas.html e com ele retirar os dados do projeto Argo com detalhes. É um programa pesado pois ele trata os dados de todas as boias no Pacífico e atualiza mensalmente todos os dados retirados. É só baixá-lo e começar a fazer mapas e perfis de temperatura e salinidade, tanto espacialmente como em séries temporais. É uma ferramenta fantástica.

    • Caro Rogério,

      Realmente muito obrigado por agregar todas estas informações à postagem. São extremamente úteis para aqueles que se interessarem.

      abraço,
      Roberto

  5. Caro Roberto

    Tive a oportunidade de analisar o artigo que referiste em http://www.nature.com/nature/journal/v465/n7296/full/nature09043.html#/ e me pareceu uma das obras primas dos Crentes do AGA. O artigo trata de, com os dados do projeto Argo (que é considerado pelos autores como uma revolução na observação do mar, pelo menos isto eles concordam), corrigir as medidas obtidas anteriormente através de “bathythermograph” ou “XBT Data” através de diversos métodos indiretos.

    O mais revelador do espírito do trabalho se encontra no seguinte parágrafo que me dedico a transcrever.

    “The flattening of OHCA curves also occurs around the time (2004) that the Argo array of autonomous profiling floats first achieved near global coverage20 and became the primary source of OHCA data. The Argo array affords year-round sampling of the temperature and salinity of the ice-free oceans over the 0–2,000-m layer, with a nominal separation of 3u in latitude and longitude. The transition from an ocean temperature record consisting primarily of ship-based XBT data to one dominated by high-quality conductivity–temperature–depth (CTD) instrument data from Argo floats occurred between roughly 2000 and 2005 9, and marked a revolution in ocean observing.
    Argo has dramatically increased the sampling in the Southern Ocean since 200411. However, we find that this region continues to warm from 2004 to 2008 (not shown) and apparently did not contribute to the flattening of the OHCA curves. The fact that this transition occurred at the same time as the flattening could be coincidental, but also raises the possibility of a yet-undiscovered bias in the observing system.”

    Chamo a atenção a duas partes deste parágrafo, primeiro que EXATAMENTE por pura coincidência quando se começa a medir com precisão a leitura do perfil de temperatura há uma mudança radical do comportamento do mesmo, segundo que segundo eles (e não documentando no texto) o mar continua a aquecer (a despeito das medidas).

    Comece a juntar as pontas e verás que há mais coisas entre o céu e a terra que aviões de carreira, como dizia o nosso Barão de Itararé.

    • Caro Rogério,

      Como havia dito, eu acessei este artigo do site do Argo durante o fim de semana (em minha casa), e não tive oportunidade de ler o trabalho com cuidado. Muito bom. Obrigado por sua leitura e observações pertinentes.

      Aparentemente, os dados não “fecham” mesmo. Vamos ver o que o pessoal do IPCC têm a dizer sobre isso.

      Obrigado mais uma vez por suas contribuições significativas.
      Roberto

  6. Caro Roberto

    Estás se tornando um cético, escreveste “o pessoal do IPCC” é sintomático.

    O que insisto é exatamente que a medida em que se melhora as medidas as conclusões e os modelos de previsão não fecham com as mesmas. Não é uma questão de ser ou não cético ou crente, é uma questão de ser ou não um observador da realidade.

    • Oi Rogério,

      Não acho que eu esteja me tornando um cétido, pois não tenho elementos para avaliar esta questão de maneira tão profunda e considerar os prós e contras sobre evidências que demonstram o AGA.

      Tua última frase é um reflexo da essência do naturalismo que dá suporte à ciência. Esta se constrói em argumentos bem fundamentados em dados experimentais e/ou modelos de qualidade reconhecida.

      Mais uma vez, obrigado por disponibilizar aqui o acesso a estes dados, e espero sinceramente que esta discussão traga outros elementos para a avaliar as evidências do projeto Argo.

      abraço,
      Roberto

  7. Caro Roberto

    Neste ponto chegamos ao âmago da questão: todas as conclusões do IPCC baseiam-se em modelos de previsão que são testados com a mesma série de dados que são gerados. Isto em hidrologia, área que tenho uma formação acadêmica, não se faz.

    Através de uma hipótese única de forçante, ou seja o CO2, eles extrapolam os resultados para séries muito mais longas que os dados medidos (posso futuramente te enviar um artigo de um dos maiores experts mundiais em seéries temporais em hidrologia , Prof. Robin Clark, em que ele detalha com cuidado todos os erros sistemáticos feitos em centenas de artigos sobre o assunto).

    Poderíamos dizer que as medidas de temperatura e CO2 confiáveis não ultrapassam o período de trinta anos (as medidas de satélite, com resolução para separar a atmosfera em faixas não tem mais do que isto). Já para as medidas de temperatura do mar é muito pior.

    Por exemplo achei algumas incongruências nas medidas de temperatura do mar por satélite, as curvas de SST entre o Pacífico e Atlântico que podem ser visualizadas na página da NOAA referentes ao El Niño na altura da América Central são CONTÍNUAS (vide http://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_update/sstanim.shtml). Ou seja, quando aquece o Pacífico ou o Atlântico o outro reage perfeitamente de forma simétrica ao outro Oceano. Como não há uma ligação física entre os dois oceanos era de se esperar que houvesse diferenças entre um e outro lado, mas não há. Tanto as correntes de um lado como do outro são completamente diferentes como o período dos dois oceanos também o são. A conclusão que tiro é que as medidas obtidas pela NOAA são medidas da primeira camada que está em contato com a atmosfera, refletindo não a temperatura do oceano, mas sim a temperatura da atmosfera.

    Qual a importância disto?

    Muito grande. Pois se estas medidas medem a atmosfera e não a temperatura do mar, não se tem dados conclusivos sobre a quantidade de calor que está estocada no mar. Como o mar é o principal “depósito” bruto de calor, um resultado falseado nesta medida retira muito da confiabilidade das estimativas de temperatura global.

    Veja, nunca me refiro a informações secundárias, pois devido a “poluição política” que há no assunto AGA temos que ter cuidado em olhar qualquer conclusão de trabalhos ou “press release”.

    • Rogério,

      Isso tudo o que você está dizendo é muito sério.

      Penso que os brasileiros que foram convidados a participar do IPCC devem analisar os dados que serão apresentados com muito cuidado, mesmo. Sob pena de não levarem em conta fatores como estes que você está mencionando. E o que você diz faz sentido: devido ao alto calor específico da água, os oceanos são o maior “reservatório de calor” da Terra, pois este se dissipa muito mais lentamente do que o calor do ar.

      Que nossos colegas cientistas brasileiros estejam atentos a estes fatos que você menciona.

      Mais uma vez, muito obrigado por trazer tantas informações importantes.

      abraço,
      Roberto

  8. Os Chineses quebram o monopólio do clima, questionando o AGA.

    Depois de entrar em todos os ramos da indústria e ter uma produção intelectual altíssima os chineses apresentam uma reconstituição do clima dos últimos 2000 anos que contraria de frente as conclusões do AGA sobre aquecimento global.

    No trabalho de uma equipe de chineses, norte-americanos e alemães é apresentada uma reconstituição da temperatura dos últimos 2000 anos na China, dividindo-a em cinco grandes regiões e por dados de árvores e geológicos reconstituem o clima nessas regiões.

    Uma das conclusões do trabalho para a região centro oeste é a seguinte:

    “The 500-year regional coherent temperature series shows temperature amplitude between the coldest and warmest decade of 1.8°C. Three extended warm periods were prevalent in 1470s–1610s, 1700s–1780s, and after 1900s. It is evident that the late 20th century warming stands out during the past 500 years. Considering the past 2000 years, the winter half-year temperature series indicate that the three warm peaks (690s–710s, 1080s–1100s and 1230s–1250s), have comparable high temperatures to the last decades of the 20th century.”

    Para outra regiões é só olhar a figura.

    Ou seja, entre os séculos VII a XIX houve temperaturas da ordem das que ocorrem hoje em dia.

    Este trabalho está publicado em

    Ge, Q.-S., J.Y. Zheng, Z.-X. Hao, X.-M. Shao, W.-C. Wang, and J. Luterbacher. 2010. Temperature variation through 2000 years in China: An uncertainty analysis of reconstruction and regional difference. Geophysical Research Letters, 37, L03703, doi:10.1029/2009GL041281.

    Veja a figura 2 do mesmo mostrando as reconstituições do clima, aqui.

    Também fica claro que a pequena Idade do Gelo, que os cientistas defensores do AGA pensavam ser um fenômeno limitado a Europa, se estendeu por todo o globo terrestre, e como estávamos no fim deste período de resfriamento as geleiras e o Ártico sofria uma espécie de aquecimento.

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