Barrigadas de sapos

Mergulho de barriga. Aquele que dói. Quem já teve o desprazer da experiência sabe do que se trata.

Tal inabilidade não é apenas uma característica dos humanos. Sapos primitivos também não sabiam mergulhar, e davam mergulhos de barriga, segundo estudo realizado por equipe coordenada pelo Dr. Richard Essner, da Southern Illinois University Edwardsville (EUA). Segundo a pesquisa, os sapos já teriam desenvolvido a capacidade de pular antes mesmo de terem adquirido a capacidade de viver em terra firme. Ao mesmo tempo, os sapos também ainda não tinham a capacidade de girar suas patas dianteiras rapidamente para a frente, como o fazem atualmente, para “aterrissar” após um salto. Tais características justificariam também o fato das patas traseiras se moverem “fora de fase” quando os sapos nadam.

Tais características foram observadas em sapos primitivos da família Leiopelmatidae, que apresentam movimentos de natação desconexos. O grupo de pesquisadores americanos analisou vídeos de cinco espécies de sapos: 3 primitivos (Ascaphus montanus, Leiopelma pakeka, e L. hochstetteri) e duas espécies que surgiram mais recentemente (Bombina orientalis and Lithobates pipiens). Os vídeos mostram que as espécies primitivas mantém suas patas dianteiras esticadas para trás durante o salto, e “aterrisam de barriga”, tornando-os pouco ágeis.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que o desenvolvimento da habilidade de saltar agilmente, caindo sobre as patas flexionadas, deriva de um processo de duas etapas, durante a evolução. Na primeira etapa os sapos teriam desenvolvido a capacidade de esticar as patas traseiras para trás; na segunda, adquiriram a capacidade de girar as patas dianteiras para frente e “aterrissar” sobre estas patas dobradas, amortecendo a queda.

Outras características observadas nas espécies de sapos primitivas são os movimentos natatórios desordenados e uma pelve com uma cartilagem em “formato de escudo”, além de mais gordura abdominal, que protegem estas espécies da “queda de barriga”, que poderia danificar os órgãos internos. A mudança de movimento tardia, que levou à “aterrissagem” de forma amortecida, teria sido adquirida pela maioria das espécies de sapos, pois promoveu várias vantagens adaptativas, como quedas menos bruscas, saltos repetidos e uma melhor movimentação durante a natação.

E menos dor na queda.

ResearchBlogging.orgEssner, R., Suffian, D., Bishop, P., & Reilly, S. (2010). Landing in basal frogs: evidence of saltational patterns in the evolution of anuran locomotion Naturwissenschaften DOI: 10.1007/s00114-010-0697-4



Categorias:ciência, evolução

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2 respostas

  1. Ótima postagem.

    Mas não necessariamente as 3 espécies mais “primitivas” são mais velhas do que as 2 espécies mais “avançadas”. As três espécies pertencem a *linhagens* (ou ramos) que divergiram há mais tempo, mas elas mesmas podem ser de origem recente – como espécies. (E mesmo dizer que pertencem a linhagens que divergiram há mais tempo é relativo aos ramos considerados.)

    (A suposição por trás da análise é que as espécies representantes das linhagens mais antigas tenham conservado a característica em seu estado ancestral ou ao menos menos modificado – o que não é necessariamente verdadeiro.)

    (Não sou muito fã de termos como ‘primitivo’ e ‘avançado’ aplicado a espécies. Detalho mais sobre isto em uma postagem no GR: http://genereporter.blogspot.com/2010/01/patrulha-purista-vocabular-5_4479.html – mas são termos ainda bastante em uso mesmo em literatura técnica.)

    []s,

    Roberto Takata

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