Na SBPC, Aziz Ab’Saber critica novo Código Florestal

Segundo notícia divulgada hoje no jornal Folha de São Paulo on-line

Em palestra durante a 62ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o principal geomorfologista do país e homenageado da edição deste ano do encontro, Aziz Ab’Saber, não poupou críticas nesta terça-feira (27) ao novo projeto do Código Florestal e convocou a comunidade científica a pressionar os parlamentares para uma revisão da lei. A proposta, que tramita no Congresso Nacional, de autoria do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), tem pontos considerados controversos. Um deles prevê que os agricultores na Amazônia terão de preservar 20% de suas terras, e não mais 80%, como determina a legislação atual. Outro reduz também a manutenção de matas ciliares próximas aos rios.

Para Aziz, o código proposto reflete o desconhecimento do deputado e dos governantes sobre a importância da floresta para o equilíbrio ambiental e as consequências de uma destruição do bioma. “Imagine-se que, para o rio Amazonas, a exigência protetora fosse apenas 7 metros, enquanto para a grande maioria dos ribeirões e córregos também fosse aplicada a mesma exigência”, compara o geógrafo em artigo encaminhado ao relator Aldo Rebelo.

“Trata-se de desconhecimento entristecedor sobre a ordem de grandeza das redes hidrográficas do território intertropical brasileiro”, lamenta. “Na linguagem amazônica tradicional, o próprio povo já reconheceu fatos referentes à tipologia dos rios regionais. Para eles, ali existem, em ordem crescente: igarapés, riozinhos, rios e paranás-mirins”. O cientista defende um código que contemple as características de todos os ecossistemas encontrados no território nacional –desde a floresta amazônica até as pradarias do Rio Grande do Sul, que chama de “Código da Biodiversidade”. “O código que o Brasil tem precisa ser ampliado para todos os biomas”, afirmou Aziz para estudantes e professores, que lotaram o auditório da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Ele acredita que os pesquisadores devem liderar a campanha por mudanças no código. Diante das divergências em relação à proposta, a SBPC formou um grupo de cientistas para debater o tema e encaminhar sugestões aos deputados e senadores. Para Aziz, 85, a maior contribuição da ciência para a humanidade é buscar formas de preservar a natureza. “A nossa inovação sempre vai ser na proteção do que a natureza faz”, disse o professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP).

O problema é o seguinte: os parlamentares que formaram a comissão do congresso que discutiram o novo Código Florestal e elaboraram a “nova versão” não entendem nada de conservação ambiental. Nada. São completamente ignorantes no assunto. Logo, estão defendendo, unicamente, os interesses econômicos dos agricultores.

Leitor: veja quais parlamentares elaboraram o “novo” Código Florestal, aqui.

Atualização em 2-8-2010: de maneira a fornecer mais subsídios para o conhecimento dos pontos levantados por aqueles que defendem a não-alteração do código florestal, disponibilizo aqui artigo do Prof. Jean-Paul Metzger, do Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. O artigo intitula-se “O código florestal tem base científica?”, e o arquivo pdf deste artigo pode ser obtido aqui.



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23 respostas

  1. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Este professor e seu conhecimento não foi capaz de impedir a degradação dos principais cursos d’água de seu Estado-São Paulo. Por que este senhor não atuou para melhorar o Indice de Desenvolvimento Humano-IDH, do país ? Em saneamento básico vivemos ainda na “idade da pedra” fgurando entre as nações que menos investem nesta modalidade de preservação ambiental. Veja o rio Tiête,Mogi Guassu e Pardo entre outros viraram “rios de merda” e onde estava este senhor que nunca denunciou a falta de investimentos dos governos ? Agora vem querer debitar toda a conta da degradação sobre uma lei ( Código Florestal), só pode estar brincando ! Estudos cientificos são gerados em Universidades e órgãos de pesquisa, porém leis só podem ser elaboradas em nosso Congresso Nacional. Faça-se representar se quiser ter voz ativa. Da aplicação das leis conhecem os deputados e senadores que todos elegeram. Uma lei é muito mais que meros conhecimentos científicos. Do contrário as leis seriam feitas nas Universidades.

    • Caro Pedro Geraldo,

      Embora eu não seja especialista em geologia, como o Prof. Ab’Sáber, sei que o trabalho dele teve uma enorme importância. P doarte texto sobre ele na Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Aziz_Ab%27Saber) diz o seguinte:

      “Desenvolveu centenas de pesquisas e tratados científicos, dando contribuições importantes para a ecologia, biologia evolutiva, fitogeografia, geologia, arqueologia, além da geografia. Dentre algumas dessas múltiplas contribuições, estão estudos que corroboram a descoberta de petróleo na porção continental na Bacia Potiguar e a coordenação da criação dos parques de preservação da Serra do Mar e do Japi. Elaborou exaustivas classificações e levantamentos nos domínios morfoclimáticos e dos ecossistemas continentais sul-americanos, reconstituição de paleo-climas sul-americanos, estudos de planejamento aerolar, pesquisas de geomorfologia climática sul-americana, elaboração de modelos explicativos para a diversidade biológica neo-tropical – Redutos Pleistocênicos – além de estudos sobre rotas de migração dos povos pré-colombianos sul-americanos, estudos de planejamento urbano, medidas preservação do patrimônio histórico – tombamento do Teatro Oficina) – e teorias da educação, com o fim de incluir currículos setoriais em grades de ensino regionais e nacionais.”

      Certamente os estudos de Ab’Saber, se considerados seriamente, devem contribuir e muito para impedir a degradação dos principais cursos d’água do estado de São Paulo. E o conhecimento gerado pela sua pesquisa e sua atividade de educação contribuiu significativamente para melhorar o IDH do país. As contribuições de Ab’Saber para a ciência brasileira, tanto em termos de geração de conhecimento como de formação de recursos humanos, são de uma enorme importância. Agora, se os legisladores e os dirigentes do país que fazem as leis não utilizarem deste conhecimento para fazer a parte deles, colocando em prática todo o conhecimento de maneira a beneficiar a sociedade e o ambiente, o erro e a omissão são destas autoridades. E não de Ab’Saber. O conhecimento e a educação gerados e promovidos pelas universidades deve ser amplamente considerado por vários setores da sociedade, e principalmente pelos legisladores e governadores do Brasil, pois praticamente 100% da pesquisa feita aqui é pública. Consequentemente, se o próprio governo não se utiliza deste conhecimento, está jogando dinheiro fora.

      E não é o que a sociedade quer. A sociedade quer que o dinheiro público seja bem utilizado. Não somente se promovendo educação e pesquisa de qualidade, mas que esta educação e pesquisa também sejam utilizados de maneira inteligente. Não é o que foi feito pelos legilsadores que elaboraram as mudanças no Código Florestal. Consequentemente, Ab’Saber tem todo o direito de se manifestar e exigir a utilização deste conhecimento para diminuir significativamente o desmatamento e a perda de biodiversidade. E, pode ter certeza, Pedro Geraldo, que atuando desta forma Ab’Saber está atuando de maneira extremamente positiva e prospectiva.

  2. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Roberto,

    Também não sou geógrafo, especialista em Geomorfologia, como o professor Aziz Ab’Sáber, mas gostaria de lhe dar algumas informações que talvez o ajudem a se posicionar de maneira mais crítica sobre o assunto.

    Em Minas Gerais existe a Lei 9.375/86, conhecida como Lei da Vereda. Esta lei foi baseada nos estudos de um outro geógrafo, também especialista em Geomorfologia, o pesquisador Ricardo Soares Boaventura que, em seu trabalho “Contribuição aos Estudos sobre a Evolução das Veredas”, de 1978, classificou esse tipo de fitofisionomia vegetal em Veredas de Encosta; Veredas de Superfície Aplainada; e Veredas de Várzeas. O grande problema desse estudo das Veredas do ponto de vista geomorfológico é que gera uma enorme confusão com as definições de botânicos para diversos tipos de formações vegetais. Explico melhor: o “paradigma geomorfológico” do professor Ricardo Soares Boaventura permite classificar como Vereda vários tipos de vegetação que os botânicos não consideram de maneira nenhuma desse modo, como por exemplo, matas de galeria, campos úmidos, cabeceiras de cursos d’água. O professor Boaventura faz isso porque para ele qualquer área brejosa, que atenda à sua condição básica de “afloramento do lençol freático numa área, exposta pela erosão, de contato de uma camada impermeável com uma permeável” pode ser considerada como Vereda.

    Por essa razão, pela falta de “sintonia” entre o conhecimento botânico e o geomorfológico, em Minas Gerais tudo quanto é área úmida pode virar Vereda, com enorme prejuízo para os produtores rurais pela aplicação da extremamente rigorosa Lei de Veredas (Essa lei introduziu uma metodologia “com visão ambientalista enviesada” de se medir as APPs ao final do solo hidromórfico).

    Esse exemplo de elaboração da Lei das Veredas em Minas Gerais, tendo como base um “insuspeito e imparcial estudo científico” , demonstra o quanto mais além precisam ir os parlamentares em seu processo de elaboração de leis. Ao votarem a Lei das Veredas os deputados mineiros, ao invés de dizer “amém” à autoridade científica do pesquisador Ricardo Soares Boaventura, deveriam primeiro ter saído à campo e verificado como as áreas campestres das Veredas ou mesmo das várzeas são importantes, por exemplo, para os criadores de gado, cuja atividade, desenvolvida há séculos, nunca causou danos ambientais relevantes a tais ambientes. Deveriam também sair a campo para tentar compreender que tal lei nunca poderia ser aplicada na prática em virtude da atividade consolidada de pecuária nessas áreas.

    E não se quer retirar aqui o valor dos estudos dos pesquisadores. O que não se pode admitir é que tais trabalhos, realizados por acadêmicos, tenham por si força de lei, sem qualquer mediação dos parlamentares.

    Este caso de colisão entre o conhecimento geomorfológico e o botânico precisaria ser imediatamente contemplado pelo Código Florestal Brasileiro. Os parlamentares precisariam decidir se o que vale são as classificações dos botânicos ou a dos geomorfologistas para efeitos de enquadramento ambiental. Do jeito que foi votado o relatório do deputado ainda não resolveu este problema. Os órgãos ambientais de Minas Gerais têm todo o interesse de manter a confusão, para continuar arrecadando mais e mais com multas absurdas.

    Tenho muito mais a noticiar sobre o que ocorre na prática, principalmente em Minas Gerais. Aqui o órgão ambiental estadual, Instituto Estadual de Florestas, IEF-MG , usurpa de seu poder em conivência com o Ministério Público e cometem as maiores barbaridades que se possa imaginar em nome de uma política ambiental sórdida e fraudulenta. Os Diretores e Vice-diretor do IEF-MG estão neste momento processados pela 2ª Vara da Comarca de Bom Despacho por suposto desvio de verba pública entre outros crimes. Eles usam o atual e omisso Código Florestal para multarem e nada fazem pela melhoria do Ambiente.

    • Caro Pedro Geraldo,

      Antes de mais nada, muito obrigado mesmo pelas informações, extremamente úteis.
      Comentando seu comentário, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que idealmente quando se avalia qualquer pesquisa científica que possa resultar em uma alteração da legislação, considero necessário que diferentes especialistas sobre o assunto do qual se trata sejam consultados. Esta é a minha opinião. Que os trabalhos de vários pesquisadores que já investigaram um determinado tema sejam lidos e avaliados de maneira a substanciar, da melhor forma possível, a elaboração de um projeto de lei. No caso que você relata, foi levado em conta o trabalho de um único pesquisador. Não conheço o assunto, tampouco o pesquisador em questão. Mas fica claro que houve, aparentemente, uma interpretação dos dados analisados pelo pesquisador que não condizem com os dados analisados pelos botânicos. Este seria um motivo adicional para que uma análise dos dados e fatos relacionados seja feita de forma ainda mais cuidadosa. Infelizmente, não parece ter sido o caso. É, realmente, lamentável.

      Porém, o caso que você relata não invalida as colocações feitas pelo Prof. Ab’Saber, certo? No conhecimento dele, as mudanças efetuadas no novo Código Florestal são muito mais perniciosas do que benéficas para o ambiente natural, em particular para os cursos d’água.

      Quanto ao fato dos deputados terem que sair a campo para conhecerem a realidade do assunto do qual estavam tratando, talvez esta tivesse sido, realmente, uma iniciativa interessante. Ainda mais se fosse realizada na presença de especialistas em botânica, geomorfologia e ecologia, por exemplo, para que estes pudessem explicar aos deputados a real situação dos problemas que você apontou.

      Veja: pesquisas não têm força de lei. Mas podem (e devem) ser utilizadas para fornecer elementos que permitam aos legisladores elaborar leis bem fundamentadas, que levem em conta os diferentes aspectos de um problema em particular, para o qual uma determinada lei está sendo elaborada. Para o benefício da sociedade em geral, do ambiente, da nação, enfim.

      Infelizmente não é o que foi feito quando das mudanças no Código Florestal.
      Também é lamentável, para não dizer execrável, que as autoridades se utilizem de falhas da legislação para penalizar a sociedade. Políticos que fazem uso de tais recursos deveriam, sim, perder seus mandatos. Têm a obrigação de, pelo contrário, apontar as falhas na legislação para que as leis sejam revistas, analisadas e aprimoradas, sempre, em vez de buscarem unicamente se beneficiar.

      Mais uma vez, muito obrigado pelo seu comentário crítico e extremamente pertinente.

      Cordialmente,
      Roberto

  3. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caríssimo Roberto,

    Considero pertinente a sua sugestão de “visita de parlamentares acompanhada por especialistas”. Lembro a você, contudo, que não se pode perder de vista que os parlamentares são também uma espécie de “especialistas em direitos de pessoas”. E no processo de formulação de leis, os interesses de grupos sociais sempre são levados em conta. Os cientistas, como o professor Aziz Ab’Sáber, parece que não compreendem bem esse aspecto do problema quando fazem suas críticas. No caso da proteção das margens de rios e outros cursos d’água, para qualquer ecologista, o ideal seria que se mantivesse todo o território nacional como floresta virgem, com animais de todas as espécies transitando para todo lado. Os ambientalistas, se pudessem talvez mesmo recomendariam a extinção das cidades. O caso, porém, é que a realidade é outra.

    Sobretudo nos estados da Região Sul, as pequenas propriedades rurais, existentes de forma predominante, utilizam há muito tempo as margens dos cursos d’água sem guardar qualquer espaço para APP. E isso, do mesmo modo que em países desenvolvidos como EUA e outros da Europa, sem nunca haver causado a destruição de qualquer rio ou córrego. Esse fato os parlamentares têm que ponderar no momento de fazerem leis, ainda que nossos cientistas, idealmente, entendam ser necessário faixas de APP ao longo dos cursos d’água quanto mais largas melhor.
    Mas no Sul, o que mais nos ensina sobre o valor relativo das ponderações dos cientistas, é o uso das várzeas para plantio do arroz que abastece o país. Como impedir aquela atividade, que é realizada nas várzeas do mundo inteiro da mesma maneira, que produz todo o arroz consumido no país. O arroz nas várzeas além de ser várias vezes mais produtivo que o de sequeiro, dá grãos de muito melhor qualidade para o beneficiamento. O deputado Aldo Rebelo teria como elaborar uma proposta de lei ambiental que vedasse o uso das várzeas do Sul para o plantio de arroz? Claro que não. Ele e outros deputados – porque ele não escreve o texto apenas de sua cabeça, mas ouvindo sugestões de seus colegas – até que poderia tentar elaborar uma proposta de lei, como está sendo feito, que liberasse as várzeas apenas no sul, e mantivesse restrições para outros estados que não tem tradição no cultivo de arroz nessas áreas alagadiças. Do ponto de vista ambiental seria até muito adequado que os produtores do Sul pudessem continuar utilizando suas várzeas para o arroz e o restante do país não; mas e os agricultores de outras regiões fora do Sul, seria justo impedí-los de usar as várzeas, consideradas APPs atualmente, até mesmo para o pastoreio de gado? Cadê a isonomia nesse caso? Se for proposta essa questão para pesquisadores como o prof. Aziz Ab’Sáber, eles dirão sem titubear que gado na várzea causa a compactação no solo e por isso deve ser vedado. No entanto, não se tem notícia de nenhum trabalho científico que demonstrou que o gado em várzeas levou a destruição de algumas delas. Neste caso, o que se tem é tudo elocubração científica bem intencionada ambientalmente.
    Diante de tal situação, repito, não seria um contrasenso os parlamentares terem que se ater exclusivamente às recomendações dos cientistas? Será que os pesquisadores inventariam um substituto para o arroz com feijão da população brasileira?

    A grande lição que se tira desse embate todo sobre as mudanças no Código Florestal Brasileiro, que os nossos cientistas, infelizmente ainda não tiveram a humildade de reconhecer, é que a inevitável liberação das vázeas no Sul para o cultivo de alimentos, põe abaixo um monte de “mitos ou verdades” sobre o que se tem entendido atualmente como APP no Brasil. As várzeas, são a “menina dos olhos” dos ecologistas tanto por serem espaços brejosos formados por solos hidromórficos como por acompanharem os cursos d’água. A sua liberação para cultivo, ainda que em áreas restritas do país, como que naturalmente flexibiliza os demais tipos de APP. Como autorizar o cultivo mecanizado, por exemplo, nas várzeas do Sul e impedir ao mesmo tempo o pastoreio na parte campestre, formadas predominantemente por gramíneas, das veredas? Várzeas e Veredas, do ponto de vista da preservação dos recursos hídricos, não podem ser considerados praticamente a mesma coisa?

    É pena que os nossos cientistas do meio ambiente não voltem suas brilhantes mentes para essas questões práticas também não menos importantes.

    Apenas para meditarmos: De que adianta preservarmos a chamada APP e nos gladiarmos tentando uma ou outra metragem, se ao plantarmos um canavial, por exemplo, despejamos toneladas de REGENTE 800 WG, poluindo todos os cursos hídricos próximos e exterminando um cem número de espécies animais e insetos que compõem aquele ecossistema ? O uso desse produto da Bayer é disseminado e legal por aqui. Em muitos países da Europa esse produto alemão está proibido desde 1999. Outra colocação para meditarmos: Na altura de Salto-SP, as APPs do rio Tiête são preservadas e lindas, porém o mau cheiro é insuportável quando nos aproximamos das suas margens. Lá não há vida. Lá as APPs são meras sobrancelhas a margear um olho que não vê.

    Em Minas Gerais, no dia-a-dia descobrimos muitos absurdos no tratamento de órgão ambiental como o Instituto Estadual de Florestas, IEF-MG que massacra o produtor rural onerando seu trabalho e corroendo seu pequeno lucro. Tenho muito mais a noticiar se tiver oportunidade. Obrigado Roberto pela sua atenção.

    • Caro Pedro Geraldo,
      Eu acho que os cientistas compreendem muito bem que existem interesses e necessidades sociais envolvidas nestas questões tão espinhosas, e ao mesmo tempo tão importantes. Porém, existem ambientalistas e ambientalistas. Concordo que existem aqueles que acham que as florestas, matas, etc., devem permanecer intocados. Mas existem muitos que sabem que isso é impossível, e que a única saída é a utilização dos recursos naturais de forma responsável e sustentável. De outra maneira, teremos que, no futuro, pagar um preço muito alto por uma utilização dos recursos naturais sem levar em conta as limitações que este apresenta.

      No caso do estabelecimento das margens dos cursos d’água com uma faixa de 15 metros (em vez de 7, como foi proposto na revisão do Código Florestal), esta proposta foi fundamentada em inúmeros estudos. Estudos estes que demonstraram não ser necessário diminuir esta faixa (de 15 m) para aumentar a produtividade agrícola e/ou de criação de gado. Desconheço os dados que você menciona sobre os EUA e países da Europa. Mas, no caso destes países, a biodiversidade a ser preservada é bem menor do que a brasileira. Isso é fato desde o século XVIII, quando os primeiros naturalistas europeus vieram para o Brasil, e constataram que a biodiversidade européia era muito menor, quando comparada à do Brasil. Logo, fica difícil comparar a ocupação de margens de cursos d’água de países desenvolvidos com a mesma ocupação aqui no Brasil.

      Quanto à ocupação de várzeas para o plantio de arroz, esta é, de fato, uma necessidade. Contudo, certamente devem existir estudos que forneceram informações sobre o plantio de regiões de várzeas no sul do Brasil, tanto por parte de pesquisadores como por parte de associações de produtores. Com certeza a própria EMBRAPA deve ter desenvolvido pesquisas desta natureza. Não quero dizer aqui que a opinião dos cientistas é absolutamente necessária para uma avaliação desta natureza. Mas, se levada em conta, pode fornecer elementos adicionais para a elaboração de estratégias melhores para o plantio, produção, etc. Quanto mais informações é possível se obter para conhecer um determinado problema, melhor para o entendimento deste, não é mesmo?

      Quanto à ocupação diferenciada de área alagadas para o plantio de arroz, em detrimento da ocupação de margens para o plantio de outras culturas ou criação de animais, considero esta uma excelente alternativa. Por mais que possa parecer estranha, uma abordagem diferenciada para resolver tal questão indica que o plantio de arroz exige um tratamento específico. Tal forma de resolver questões é perfeitamente válida. Como, por exemplo, no tratamento de doenças. Não é possível se administrar o mesmo tratamento para pessoas diferentes, pois estas apresentam condições fisiológicas distintas. Algumas têm deficiências nutricionais que acarretam deficiências no seu sistema imune. Outras não. Então, se as duas pessoas tiverem com a mesma doença, podem (e devem!) receber tratamento diferenciado. O mesmo vale para a elaboração de um plano de ocupação de margens de cursos d’água. O caso do plantio de arroz é diferente dos outros. O mesmo pode ser dito para a criação de gado. Dependendo da região, deve-se levar em conta os diferentes fatores ambientais envolvidos e o tipo de cultura a ser utilizado. Afinal, cada região tem suas características, bem como as diferentes culturas de plantio de espécies vegetais e de criação de animais.

      Eu não digo que os parlamentares devam se ater exclusivamente às recomendações dos cientistas. Mas também não podem (nem devem!) simplesmente ignorá-las.

      Pedro, você confunde a designação de “cientistas” com “ecologistas” e “ambientalistas”. São coisas diferentes, certo? Tenho certeza que cientistas sérios levam em consideração todos estes pontos que você está apontando. Já não tenho tanta certeza com relação aos ambientalistas. Ecologistas são uma classe especial de cientistas (que estudam ecologia). Tenho certeza que os cientistas também voltam suas mentes para as questões práticas. Afinal, existem escolas de agronomia que estudam tais assuntos a fundo.

      Quanto à sua questão “De que adianta preservarmos a chamada APP e nos gladiarmos tentando uma ou outra metragem, se ao plantarmos um canavial, por exemplo, despejamos toneladas de REGENTE 800 WG, poluindo todos os cursos hídricos próximos e exterminando um cem número de espécies animais e insetos que compõem aquele ecossistema?”, veja, um problema não exclui o outro. Não é porque o uso de fertilizantes inadequados (banidos em outros países), que ainda são utilizados no Brasil, deve ser seriamente investigado que devemos deixar de lado o problema da ocupação de margens de cursos d’água para a atividade agrícola. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E as duas devem ser analisadas, investigadas e enfrentadas com a mesma seriedade.

      Caro Pedro, se você tem muito mais a dizer sobre este problema, porque você não cria um blog para discutir este assunto? Tenho certeza que seria muito bem vindo, pois é um assunto da maior importância para todos nós. O sistema de blogs do wordpress é extremamente fácil de utilizar. Porque não?

      Abraço, Roberto

  4. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Roberto, se você reconhece que “os parlamentares não devem se ater exclusivamente às recomendações dos cientistas”, creio ter atingido meu objetivo. Obrigado. Pedro Geraldo Franzon

  5. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Roberto,

    Creio que, no Brasil, usar como sinônimos os termos “ecologista”, “ambientalista” e “pesquisador” não é algo absurdo, e que pode ser aceito dentro de certo contexto. Em minha percepção, no que se refere ao debate sobre o Código Florestal, em nosso país esses três “atores”, freqüentemente, estão defendendo as mesmas posições. Lembro que até mesmo dentro da Embrapa – uma instituição voltada para o desenvolvimento da agricultura e não exatamente para a preservação ambiental – há muitos cientistas que têm preocupações de ambientalista típico. O termo “ecologista” não significa apenas o especialista em ecologia, essa é apenas uma das acepções técnicas do vocábulo.

    Com relação ao seu desconhecimento sobre a situação da proteção de cursos d’água nos EUA e Europa, peço-lhe o favor de dar uma navegada no Google Earth para verificar como é quase regra geral naqueles países do Primeiro Mundo a inexistência de sequer um metro de faixa de mata ciliar em ribeirões de até 20 metros de largura. Como se sabe, a função principal da mata ciliar não é a proteção da biodiversidade, mas sim a proteção do próprio recurso hídrico da erosão ou assoreamento. Será que se esse assunto da mata ciliar fosse assim um problema tão grave para cursos d’água daqueles países, séculos à frente do Brasil em termos de conhecimento científico, já não o teriam resolvido há muito tempo? Continuo afirmando que problema maior no Brasil é o fato de nossos pesquisadores terem uma afinidade muito grande por conhecimentos produzidos em laboratórios ou gabinetes acadêmicos, deixando atrofiada a técnica pré-histórica de extração de sabedoria da observação da realidade.

    Dou-me por satisfeito também por você reconhecer a necessidade de liberação do cultivo de arroz nas várzeas, pelo menos do Sul. Mas se esta atividade, considerada das mais agressivas para o meio ambiente é liberada no país para os sulistas, não seria justo também para o restante dos brasileiros a permissão do uso das várzeas, principalmente nas áreas consolidadas, pelo menos para a atividade muito mais ecologicamente correta da criação de gado? Se por acaso, surgir algum estudo do tipo “zoneamento agroecológico” afirmando que “nas várzeas do Sul pode, mas nas outras não pode”, isso vai ser de uma picaretagem científica …
    Tem muita gente afirmando que o deputado Aldo Rebelo “ignorou” estudos científicos. Caro Roberto, você poderia me dizer quais dessas pesquisas o parlamentar deixou de lado? Há algum trabalho da área acadêmica afirmando que a metragem de APPs em cursos d’água de até 10 metros precisa ser de 30 metros, como é atualmente? Se houver algum me diga pois isso eu desconheço.

    Agradeço muito a sua disposição para discutir o assunto. Mas não me acuse, por favor, de desvirtuar o debate apelando para artifícios retóricos. Com a minha conclusão sobre a “não exclusividade científica” do tema meio ambiente, quis apenas alertar para a não necessidade de se estender muito a argumentação quando o objetivo do debate era apenas esclarecer se os parlamentares têm ou não o direito de recusar mesmo as conclusões dos mais renomados cientistas do país nessa área ambiental.

    Quanto à sua sugestão de criação de blog, creio ser mais eficiente a discussão do assunto nos já criados, sobretudo aqueles de membros da comunidade científica.

    Em tempo: o REGENTE 800 WG não é um fertilizante mas sim um inseticida. Obrigado.

    • Caro Pedro,
      Minha percepção sobre o uso dos termos “ecologista”, “ambientalista” e “pesquisador” é diferente da sua. Nem sempre pesquisadores são tão defensores do meio ambiente quanto os ambientalistas, os quais muitas vezes são tão apaixonados que deixam a racionalidade de lado. Já o termo “ecologistas” permite, realmente mais de um entendimento, podendo pender eventualmente para um lado (de pesquisador) ou para o outro (ambientalista).
      Arroz é um dos principais constituintes da dieta do brasileiro. É realmente importante que a produção de alimentos seja garantida, e, se possível, da maneira mais sustentável. Se existe alguma discussão neste sentido, seria interessante deixar um link aqui.
      Quanto ao questionamento se Aldo Rebelo ignorou estudos científicos, veja os links para as postagens neste mesmo blog:
      http://quiprona.wordpress.com/2010/07/19/o-novo-codigo-florestal-e-a-sociedade/
      Caro Pedro, não o acusei de nada. Apenas fiz um alerta, pelo visto desnecessário. Não concordo que os parlamentares tenham o direito de recusar mesmo as conclusões dos mais renomados cientistas do país nesta área ambiental. Tais estudos foram realizados durante décadas, e não podem ser ignorados quando da elaboração de leis. Um bom exemplo disso foi o que aconteceu com o desenvolvimento do programa BIOTA-FAPESP, que levou à mudanças na lei de zoneamento ambiental do estado de São Paulo (veja em http://www.biota-fapesp.net/relatorios.html)
      Obrigado pela informação sobre o REAGENTE 800 WG.
      Cordialmente,
      Roberto

  6. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Roberto

    Li apenas o artigo em inglês dos professores da USP cujo link me indicou. Alerto (antes mesmo de ler o trabalho do professor Sparovek da Esalq ), no entanto ,para alguns problemas gravíssimos detectados:

    Um dos principais argumentos do trabalho da ESALQ, de acordo com o relato em inglês, do prof. Metzger, é que haveria no Brasil muitas áreas de pastagens degradadas nas quais se poderia intensificar a produção sem necessidade de derrubada. Se o Prof. Sparovek defendeu isso, revela um grande desconhecimento do que está acontecendo na prática no “remanejamento” de tais áreas de pastagens. É exatamente nessas áreas de “pastagens degradadas” que os empresários do setor suco-alcooleiro têm promovido derrubadas monumentais de milhares de árvores do cerrado, entre as quais sicupira branca e preta, barus, jatobás, e até mesmo pequizeiros, protegidos por lei específica em Minas Gerais. Para o poder econômico dos canavieiros o órgão ambiental de Minas Gerais IEF/MG, dá toda e qualquer licença solicitada para derrubar quantas e quaisquer árvores que forem, ignorando solenemente a legislação existente. Será que o nosso pesquisador Sparovek da ESALQ acha que não há problema ambiental nenhum na derrubada de árvores de sombreamento das pastagens “degradadas” do nosso cerrado? É exatamente nessas áreas que os usineiros após derrubarem as árvores despejam toneladas de inseticida REGENTE 800 WG, mesmo em áreas próximas a cursos d’água usados para captação de água para cidades, tudo com licenciamento ambiental do IEF/MG, um órgão cuja cúpula está toda sendo processada pelo Ministério Público.

    O argumento do professor Sparovek é muito bom para ser consumido em um laboratório ou num gabinete acadêmico, mas não tem fundamento nenhum na realidade do que está ocorrendo na agricultura do país. Essa falha no estudo do professor Sparovek, ocorrida propositalmente ou por ignorância da situação real do que ocorre no campo brasileiro, permite perceber claramente como seu trabalho tem muito mais objetivos políticos do que científicos. O professor Sparovek quer muito mais atacar o relatório do deputado Aldo Rebelo do que defender o meio ambiente no país. Ele não deveria fazer, no mínimo, uma ressalva quanto ao uso das áreas de pastagens degradadas pelos canavieiros em seu estudo?

    No mais, como dizer que a modificação no Código Florestal vai elevar o desmatamento se o texto prevê a proibição de novas derrubadas? As várzeas não precisam ser liberadas? A redução de metragens de APPs ao longo de cursos d’água em áreas de uso consolidado – há séculos em todo o país sem destruir nenhum córrego ou rio – faz alguma diferença, ainda mais quando se verifica facilmente pelo Google Earth (se é que os nossos cientistas aceitam a visão de sobrevôo como elemento de prova) que os países desenvolvidos não têm os mesmos melindres que os nossos ambientalistas com relação à questão. Qual é então o crime ambiental cometido pelo nosso deputado Aldo Rebelo?

    Diante da realidade da picaretagem científica do Inventário Florestal de Minas Gerais, um mapeamento da vegetação nativa de Minas realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras, não é lícito duvidar dos reais interesses dos pesquisadores da USP que produziram essa crítica ao novo Código Florestal? O Inventário Florestal de Minas Gerais transformou centenas de matas de galerias que acompanham córregos do Triângulo Mineiro em Vereda, com evidente prejuízo para os agricultores da região. Será que os pesquisadores da USP fizeram seu trabalho apenas por amor ao meio ambiente, sem terem sofrido nenhuma influência do atual secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais, Jose Carlos Carvalho, um político muito ligado ao deputado Sarney Filho, que inclusive substituiu este como ministro do Meio Ambiente em 2002, editando várias Resoluções do CONAMA tidas por muitos juristas importantes do país como eivadas de inúmeras inconstitucionalidades? Aqui nesse caso dos professores da USP há uma grande possibilidade de elaboração do trabalho “científico” por encomenda da Frente Parlamentar Ambientalista do Congresso Nacional liderada pelo deputado Sarney Filho.

    O que a comunidade científica brasileira desconhece é que há um interesse enorme dos órgãos ambientais em Minas Gerais de não permitir nenhuma mudança no Código Florestal Brasileiro em nível federal em razão da política desenvolvida no Estado nos últimos 8 anos do governo Aécio Neves, a qual, sob a batuta do atual secretário de Meio Ambiente José Carlos Carvalho, buscou a todo custo a ampliação das áreas de APPs tentando transformar o Estado em “modelo” de preservação para o país. É esse secretário que tem movido os pauzinhos para acionar especialistas como o grupo de professores da USP, em proveito da política ambiental por ele formulada em Minas e também desde o tempo em que esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente em Brasília. Caro Roberto não é sem razão que o PSDB está desesperado com o resultado das pesquisas eleitorais para governador em nosso Estado. Obrigado pela sua atenção.

    • Caro Pedro,

      De maneira a dar continuidade ao debate sobre este assunto tão interessante, convidei o Hugo Hofmann, o Alcio A. Galkowski, o Prof. Jean-Paul Metzger e o Prof. Sparovek para participar da discussão. O Prof. Jean-Paul Metzger me respondeu dizendo que gostaria, mas que por falta de tempo não poderia. Mesmo assim, enviou-me um artigo seu em pdf, o qual incluo no fim desta postagem do blog, e também no fim da postagem sobre a declaração do Prof. Aziz Ab’Saber na SBPC.

      cordialmente,
      Roberto

  7. O modelo a partir do qual saiu esta análise tem escala nacional e procura avaliar estoques (e seu remanejamento) de terras destinadas a conservação, agricultura ou pecuária cobrindo todo o Brasil. Ele não considera a situação específica destes estoques em relação ao seu estado de conservação. A questão de derrubada de árvores de sombreamento de pastagens na sua conversão para cana-de-açúcar é um aspecto que certamente tem relevância no contexto específico em que foi descrito, mas este aspecto, bem como vários outros, não pode ser tratado devido a escala da modelagem. De qualquer forma, a conversão de pastagens, mesmo que tenham árveores para sobreamento, causa impactos ambientais menores do que a conversão de estoques de áreas com vegetação natural preservada para agricultura ou pecuária, objetivo principal do estudo ao qual Pedro Frazon se refere.

  8. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caros senhores. Tenho a informação de que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC rejeitou uma moção contrária ao parecer do dep. Aldo Rebelo sobre o Código Florestal http://www.codigoflorestal.com/2010/08/assembleia-da-sbpc-rejeita-mocao.html. A proposta de moção foi derrotada por 32 votos a 13, com pouco mais de 10 abstenções. Dentre os oito diretores da SBPC presentes, cinco se posicionaram contra a moção e três se abstiveram. Podemos observar que é minoria quem se posiciona contrariamente às mudanças no Código Florestal, mesmo dentro de tão renomada sociedade. Como explicar isso? Os senhores não se entendem? Esta informação que trago não é verdadeira?

    Quero deixar bem claro o meu apreço e respeito pela Sociedade e todos os seus integrantes. Respeito a decisão da maioria e sugiro que leiam a revista veja, edição 2176-ano 43-nº31 de 04 de agosto de 2010 (hoje) páginas amarelas. Saibam porque é preciso reformar a legislação ambiental brasileira.

    Obrigado. Pedro Geraldo Franzon

  9. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Prezado Prof. Gerd Sparovek,

    É óbvio que a conversão de áreas virgens causa maior impacto que a derrubada das árvores de pastagens. Porém o que se deve atentar aqui é que a dimensão do modelo eleito para o estudo não pode justificar o silêncio de pesquisadores e órgãos de licenciamento ambiental quanto ao problema da derrubada nas pastagens para implantação dos canaviais, uma vez que tais culturas somente se viabilizam a partir da utilização de toneladas do inseticida REGENTE. Será que nossos pesquisadores e ambientalistas, quando se posicionam favoravelmente à conversão de pastagens frequentemente ditas “degradadas”, não deveriam estabelecer condições para o novo uso, como por exemplo o de derrubada zero para o caso da utilização para canaviais? Não poderiam, portanto, sugerir aos canavieiros que passassem a implantar suas lavouras dentro das pastagens sem a derrubada de árvores? Volto a insistir: a omissão de ambientalistas e pesquisadores quanto a esse problema não pode se justificar pela dimensão do modelo de estudo, pois se é para preservar, vamos preservar todo o existente.

    A grande constatação que se faz, infelizmente, é que para o poder econômico não há obstáculo nenhum de licenciamento ambiental que não seja afastado. Isso se dá frequentemente, por exemplo, para lavouras de cana de açúcar e para empresas de mineração. Também não podemos esquecer a derrubada de árvores nativas do cerrado para fabricação de carvão que alimenta os altos fornos das siderúrgicas; por que nenhuma autoridade não coíbe essa atividade, que vem sendo desenvolvida a dezenas de anos em várias unidades da federação?

    Em suma, o que se quer dizer aqui é que grande parte dos modelos de estudo dos trabalhos científicos das áreas ambientais no Brasil, infelizmente, tem sido pensados dentro da dimensão necessária para não se contrapor a interesses de grupos detentores de forte poder econômico. Os trabalhos científicos podem eleger quaisquer objetivos lícitos, mas deixar de lado aspectos importantes de problemas, acomodando interesses de grupos empresariais em detrimento da preservação ambiental, revela nitidamente a parcialidade da própria pesquisa científica.

    No caso do Código Florestal, há exemplos no mundo inteiro, por exemplo, em países desenvolvidos como EUA, Canadá, Alemanha, França, do uso de várzeas e de faixas marginais de cursos d’água. Independentemente do mérito da questão, será que os nossos cientistas não percebem que o direito dos agricultores dos países desenvolvidos também pode, no mínimo, ser pretendido pelos brasileiros? E o nosso deputado Aldo Rebelo não está propondo a derrubada de novas áreas, mas apenas a regularização das em uso consolidado. Qual é, portanto, o crime ambiental que nossos pesquisadores atribuem ao parlamentar?

    Obrigado. Pedro Geraldo Franzon

  10. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Senhores vejam esta notícia :
    Operação Máfia Verde leva à prisão ex-diretor do Instituto de Florestas de Minas
    06/08/2010

    Pelo menos cinco ex-funcionários do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais, inclusive o ex-diretor-geral, Humberto Candeias, foram presos ontem, sob a acusação de participarem de um esquema de corrupção para permitir o desmatamento ilegal para produção de carvão. A Operação Máfia Verde foi executada por promotores e servidores do Ministério Público Estadual, auditores da Receita e policiais militares em 28 locais de Belo Horizonte e de mais nove cidades mineiras. A Justiça decretou a indisponibilidade de bens dos envolvidos.

    A promotoria de Defesa do Patrimônio Público acusa servidores do instituto de colaborarem com o desmatamento ilegal para produção de carvão e também de desviarem recursos públicos, cancelarem multas, se apropriarem indevidamente de honorários, pagarem e receberem diárias indevidas, fraudarem licitações e participarem de acordos judiciais ilegais.

    Humberto Candeias, que foi preso na cidade de Teófilo Otoni, dirigiu o IEF durante sete anos e saiu de lá em setembro do ano passado. Agora é candidato a deputado estadual pelo PSL.

    MPE-MG esclarece motivo das prisões da “Máfia Verde”

    Operação resulta de investigação sobre envolvimento de integrantes da CÚPULA do IEF em esquema de corrupção

    O Ministério Público Estadual (MPE), a Receita Estadual e a Polícia Militar realizam nesta quinta-feira (5) a Operação Máfia Verde. A ação resulta de investigação sobre envolvimento de integrantes da cúpula do Instituto Estadual de Florestas (IEF), já exonerados, em esquema de corrupção no desmatamento ilegal para produção de carvão.

    Oito promotores de Justiça, 34 servidores do MPE, 58 auditores da receita e 74 policiais militares participam da ação em Belo Horizonte, Contagem, Rio Acima, Viçosa, Cajuri, Rio Casca, Ubá, Divinópolis, Ituiutaba e João Pinheiro.

    Estão sendo cumpridos mandados de prisão e de busca e apreensão de bens e valores em 28 locais. Pela manhã, foram presas cinco pessoas, duas em Belo Horizonte e três no interior. Também foi decretada a indisponibilidade de bens dos envolvidos.

    Há onze meses, o Governo do Estado exonerou o então diretor-geral, Humberto Candeias; o chefe-de-gabinete, Itamar Ferreira Gomes; e o servidor Sérvulo Figueiredo de Godoy.

    De acordo com a promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público, além da colaboração em esquema de desmatamento ilegal para produção de carvão, existem outras irregularidades como desvio de recursos da autarquia, cancelamento de multas, apropriação indevida de honorários, pagamento indevido de diárias, acordos judiciais ilegais e fraude em licitações. As informações são do MPE-MG.

    Aqui em Minas Gerais o “Código Florestal” é pura sacanagem. Estamos falando faz tempo.

  11. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro, Roberto a tal “lei do filho do Sarney” está em votação hoje (19/10/2010).

    • Caro Pedro,

      É realmente inadmissível o que está acontecendo neste país. Enquanto a atual campanha política para presidente da república caminha para o interior de uma latrina bem suja e fedida, projetos de lei importantes estão sendo votados pelo congresso nacional e ninguém fica sabendo.

      E o pior: quem está alimentando toda esta desinformação é a grande imprensa, que simplesmente faz questão de ignorar.

      No dia 3 de novembro entrará na pauta da Câmara dos Deputados a votação do Novo Código Florestal. Quem está sabendo disso?

  12. Prezado Pedro Geraldo,

    Criticar pessoas vem a ser uma questão muito fácil, difícil é se juntar e defender alguma causa.

    Na condição de geógrafo que sou, consultor ambiental, passei grande parte de minha vida conhecendo os trabalhos e as lutas do Professor Aziz Ab’Saber. Para suas críticas, que vejo um tanto quanto equivocadas, somente posso apresentar a frase abaixo descrita por um “pensador ignorante” e que cabe muito bem às suas considerações:

    “A leitura após certa idade, distrai excessivamente o espírito humano das suas reflexões criadoras. Todo o homem que lê de mais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar”.

    Albert Einstein

    • Avatar de Pedro Geraldo Franzon

      Caro Ricardo, admiro muito o trabalho e a criatividade de Einstein.Tive o privilégio de conhecer a sua principal residência em Berna na Kramgasse nº49, hoje museu muito visitado. Lá ele desenvolveu a famosa Teoria da Relatividade. Ao passar pela Suiça não deixe de visitar, vale a pena. Há muitas frases atribuídas a ele que cultivava um certo pendor filosófico. Veja: “O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado” A. Einstein
      Quanto às qualidades do professor Aziz Ab’Saber não resta dúvida. Acontece que,como se comprova, além dele não ser o dono da verdade, ele não disponibilizou nenhum trabalho sobre as “matas ciliares”,por exemplo. Em matéria de Meio Ambiente há uma grande lacuna em termos de publicações nacionais. A responsável pela revista Nature,por exemplo, diz que 50% das publicações são de origem americana.
      Me diga qual é o trabalho de qualquer cientista brasileiro até a data de meu comentário que tenha dissertado sobre esta ou aquela medida para faixas marginais em cursos d’água? Veja somente o Brasil adota esta pseudo proteção. Sim, pseudo porque não impede a deterioração da qualidade da água dos cursos d’água pelos inseticidas e outros agrotóxicos de nossas plantações ( cana-de açúcar,milho,etc). O volume de fipronil despejado em nossas lavouras é assustador para não dizer criminoso. A fauna aos poucos desaparece. Tive oportunidade de acompanhar os trabalhos de marcação de peixes do grande prof. Monoel Pereira de Godoy em rios de São Paulo e se constatou a diminuição drástica nos rios estudados.
      Ricardo você precisa ler com mais atenção. O que fiz e sempre farei é contribuir para uma discução que se ficar por conta, apenas de cientistas, será parcial. Há que se levar em conta inúmeras outras situações, já colocadas,por mim, anteriormente.
      Finalizo com uma frase do grande pensador americano :”O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica.” (Norman Vincent Peale)

  13. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Professor Roberto, ontem (26/10/2011) o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei Complementar que dá poderes aos demais entes da federação sobre a condução da Política de Meio Ambiente em nosso Brasil. http://www.senado.gov.br/noticias/senado-aprova-projeto-que-estabelece-competencia-de-entes-da-federacao-na-area-ambiental.aspx

  14. Avatar de Pedro Geraldo Franzon

    Caro Roberto enviei a crítica abaixo a todos os senadores e deputados de nosso congresso.

    Cientistas exageram papel da mata ciliar na conservação das águas e se esquecem da velha curva de nível

    Nestes últimos dias, antes da votação do projeto do novo Código Florestal no plenário do Senado, ambientalistas de todos os matizes têm se esforçado muito para “conscientizar” a sociedade sobre a importância das matas ciliares, também chamadas de APPs ripárias, para a preservação da qualidade e quantidade das águas de córregos e rios brasileiros.
    Liderados, infelizmente, por membros da comunidade científica, sobretudo ligados à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), estes cidadãos, em sua ânsia de impedir por quaisquer meios a regularização, pela nova lei florestal, de parcelas dessas áreas marginais a cursos d’água, antropizadas a décadas em todas as regiões do país, não apenas inventam uma função praticamente inexistente para as matas ciliares, como também se esquecem do mais fundamental dos artefatos da engenharia agronômica para a preservação, senão da qualidade, pelo menos da quantidade de vazão da água de córregos e rios: as curvas de nível.
    É absolutamente inexistente, em termos práticos, a função fundamental de proteção atribuída, desleixadamente, às matas ciliares na manutenção da “qualidade e quantidade das águas” por acadêmicos brasileiros e seus seguidores ambientalistas.
    No caso de cursos d’água com até 10 metros de largura — que são mais de 70% no país e têm uma faixa de APP ciliar definida em 30 metros — que condições teria uma mata ciliar, muito bem formada e estabelecida, com as medidas legais atualmente previstas, de impedir o assoreamento de um córrego, pela terra carreada pela enxurrada, digamos, por exemplo, de um terreno arado, no qual não foram realizadas as medidas básicas de manejo de solos, como a construção de curvas de nível?
    É óbvio que a mata ciliar, mesmo as mais largas que 30 metros, não tem ação nenhuma na proteção ao assoreamento em um solo desprovido de curvas de nível. Qualquer agricultor, mesmo os analfabetos, sabe — o que os nossos doutos “cientistas” insistem em ignorar — que num caso destes, a enxurrada, saturada de solo, “dribla” facilmente as árvores da mata ciliar e pode entupir, em uma única chuva forte, toda a calha de um curso d’água de pequeno volume. Exemplos deste tipo de desastre ambiental são relativamente bem conhecidos no meio rural, pena que muitas das coisas do campo não cheguem aos laboratórios de muitos de nossos pesquisadores.
    Ou seja, a tese, tão cara aos ambientalistas brasileiros, da importância fundamental das matas ciliares para a manutenção da quantidade das águas nos rios é totalmente furada.
    Os acadêmicos ambientalistas ignoram, ou, por conveniência, desconsideram, o fato de que na grande maioria do casos de matas ciliares antropizadas no país, há situações ambientalmente estáveis, que não causam qualquer dano ao curso d’água.
    Se para preservação do nível de vazão dos rios, via impedimento do assoreamento, as matas ciliares não têm, como já sustentado, do ponto de vista prático, efeito nenhum, o que dizer então da preservação da “qualidade” da água?
    Numa lavoura de cana-de-açúcar, por exemplo, as toneladas e toneladas do inseticida fipronil que são empregadas invariavelmente para o controle de cupins, será que serão impedidas de chegar ao curso d’água pelos “tronquinhos e radiculazinhas” das árvores da mata ciliar? É claro que não, pois nas quantidades despejadas no solo pelos canavieiros, a contaminação dos córregos se dá inevitavelmente pela enxurrada e pelo lençol freático. Mesmo assim, os nossos cientistas, com o claro objetivo de enganar, freqüentemente passam a informação irrelevante da existência de pesquisas que supostamente comprovariam o “efeito purificador” das raízes da mata ciliar na filtragem de defensivos agrícolas.

    No caso de plantações de soja — como, por exemplo, as do Mato Grosso onde se diz que a questão ambiental foi resolvida por um programa governamental “revolucionário” — é bem conhecido o problema da contaminação por agrotóxicos do leite de mães que habitam cidades cercadas por lavouras da leguminosa.

    Se os nossos cientistas estivessem realmente preocupados com a conservação da quantidade de água — isto é, com o assoreamento dos cursos d’água — não seria extremamente necessário recomendarem, em seus manifestos acadêmico-ambientais, a implementação, em todo o país, de um programa de construção curvas de nível, visto que a maioria das propriedades rurais não dispõem destas benfeitorias e muito menos seus produtores de recursos para construí-las?
    O silêncio dos acadêmicos ambientalistas com relação às curvas de nível e sua ênfase equivocada na mata ciliar demonstra, infelizmente, não apenas o quanto a ciência brasileira é limitada e desvinculada da realidade, mas sobretudo o quanto são políticos os interesses de, felizmente, parte de nossos pesquisadores.
    A ausência da recomendação de curvas de nível nos manifestos ambientalistas da SBPC sobre o Código Florestal é tão absurda que não mereceria ser objeto de estudo detalhado em tese de doutorado?
    Pedro Geraldo Franzon

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