A estratégia do Movimento do Design Inteligente (MDI) tem por objetivo metafórico enfiar uma cunha ideológica na cultura ocidental, até seu lado mais grosso, de maneira a quebrar a estrutura atual e estabelecer uma nova ordem baseada em uma ideologia fundamentalista e reacionária. O principal objetivo é substituir a visão de mundo do naturalismo científico.
Tais propostas são explícitas em vários documentos produzidos por membros do MDI. John G West, autor do livro “Darwin Day in America: How Our Politics and Culture Have Been Dehumanized in the Name of Science” (“O Dia de Darwin na América: Como Nossa Política e Cultura Foi Desumanizada em Nome da Ciência”), ilustra os vários aspectos da sociedade atual que teriam sido desumanizados: justiça criminal, prosperidade social, educação pública, sexualidade humana, bem como a vida e a morte em geral.
Ao fim de seu livro, West, após enaltecer George W. Bush, ataca o que ele chama de “Darwinismo Social”, dizendo que a teoria da evolução foi utilizada para promover os direitos dos gays em aulas de ciências. West enumera os fatores da base da filosofia e da cultura sociais atuais que corrompem a sociedade como um todo: a) a justiça criminal que nega a existência de propósitos criminosos por parte dos condenados, e transforma punição em tratamento; b) a prosperidade social que promove a ênfase na eugenia e em outras técnicas científicas, em vez de dar importância a princípios morais; c) a educação sexual nas escolas, que promove a atividade sexual livre e é contra a abstinência sexual, e; e) a santidade da vida, que foi transformada em uma cultura de morte pela promoção do aborto e da eutanásia. West conclui seu livro dizendo que “o design inteligente terá um impacto dramático na política e na cultura do futuro, da mesma forma que o naturalismo científico transformou a política e a cultura no passado”.
Já Benjamin Wiker, outro membro do MDI, afirma em seu livro “Moral Darwinism: How We Became Hedonists” (Darwinismo Moral: Como Nos Tornamos Hedonistas), afirma que “o naturalismo científico moderno (incluindo o darwinismo) surgido a partir da filosofia de Epicuro, foi criado para destruir toda a religião”. E que “o Darwinismo social promove a libertinagem, o aborto, o infanticídio, a eutanásia, a clonagem – enfim, hedonismo”.
No livro “Architects of the Culture of Death” (Arquitetos da Cultura da Morte), Donald de Marco e Benjamin Wiker afirmam que o naturalismo é uma “cultura de morte” oposta à “cultura de vida” cristã. E promovem um ataque contumaz a notórios pensadores como Karl Marx, Darwin, Sigmund Freud, Auguste Comte, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Wilhelm Reich, Margaret Mead, Margaret Sanger e Jack Kevorkian. Em livro posterior, intitulado “Ten Books that Screwed the World, and Five Others that Didn’t Help” ( “Dez Livros que Estragaran o Mundo, e Cinco Outros que Não Ajudaram”), o ataque continua à Nicolau Maquiavel, Thomas Hobbes, Jean Jacques Rousseau, John Stuart Mill, Friedrich Nietzche, Lenin, Alfred Kinsey e Betty Friedan – todos acusados de terem adotado a filosofia naturalista/materialista, rejeitado a moralidade religiosa, e terem contribuído com o demônio. Segundo Wiker, Darwin é responsável pelo surgimento do nazismo (uma grande mentira e falácia argumentativa – veja aqui porque).
A ciência naturalista rejeita a noção de que o mundo é ou está pré-determinado, que deve ter uma razão final em função de uma causa primeira, ou que é governado por milagres através da intervenção do sobrenatural. O ressurgimento do “argumento do design”, através do MDI, nada mais é do que uma tentativa de pensadores teístas (de caráter predominantemente religioso fundamentalista) de retomar as rédeas do mundo, do qual se sentem excluídos desde que surgiu a filosofia iluminista e a revolução científica. O MDI pretende um ataque frontal à filosofia humanista-naturalista e à sua concepção de emergência histórica no mundo natural e social.
Outro membro do MDI, o sociólogo Steve Fuller, afirma que a teleologia divina é uma etapa superior das ciências. Diz que “a perspectiva evolutiva forjada por Darwin (…) tende a desencorajar o questionamento científico, enfatizando a necessidade de aceitarmos nossa condição natural e até mesmo nossa realidade sem propósito”. Continua, dizendo “A teoria do design inteligente provê um caminho seguro para uma atitude ‘progressista’ para a ciência, muito mais do que a moderna teoria evolutiva”. Fica evidente que a proposta de Fuller é completamente teológica, teleológica, antropocêntrica e envolta em uma hierarquia fundamentalista religiosa (Fuller, Science v. Religion. pp. 1-3).
Levando-se em conta a ideologia apregoada pelo MDI, que somente um “designer” pode justificar toda a “complexidade irredutível”, teríamos que adotar uma filosofia de vida totalmente baseada em pressupostos religiosos fundamentalistas e reacionários, sem qualquer direito à escolha de orientação sexual, dos direitos da mulher, da prosperidade, do planejamento social, da democracia, do progresso, do avanço do conhecimento, da liberdade de expressão e do multiculturalismo.
Na verdade, é a ideologia do MDI que não permite nenhum questionamento. Ao contrário da ideologia do MDI, que afirma que toda a complexidade da vida é fruto do determinismo de um “designer”, a visão naturalista-científica-humanista traz à tona a complexidade da vida baseada em eventos históricos contingentes e complexos, que não podem ser predeterminados. Assim, o mundo está aberto à sua riqueza histórica e cultural, através de um processo de mediações, de contradições e de mudanças. Conhecemos a história porque somos também parte dela, e por ela também somos responsáveis.
Referências bibliográficas
J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.
S. Fuller, Science v. Religion – Intelligent Design and the Problem of Evolution, Polity Press, Cambridge (UK), 2007, pp. 1-3
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Excelente post, como sempre. Parabéns e vida longa ao QuiProNa!