A ferro e fogo

O livro de Warren Dean, com o título desta postagem, narra “A história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira” de maneira definitiva. Não é um livro novo, e sim um clássico publicado em 1995 com o título original With broadax and firebrand. A força da narrativa de Dean é impressionante, de certa forma um reflexo do grau de envolvimento do autor com o tema, no qual se especializou ao longo de sua carreira acadêmica. Dean é considerado o mais importante historiador conservacionista sobre o Brasil, e publicou outras obras como “O Brasil e a luta pela borracha” (de 1987). O mais impressionante em “A ferro e fogo” é não somente a narrativa envolvente, mas também a minuciosidade da pesquisa realizada por Dean durante mais de uma década. O livro inclui 80 páginas de notas e referências bibliográficas que conferem ao livro um valor documental único. A excelente tradução de Cid Knipel Moreira valoriza a obra de Dean ao extremo, transportando para o português brasileiro não somente as informações mas também as críticas contumazes de Dean, que não deixou de lado nenhuma das “partes interessadas” na derrubada da mata atlântica ao longo de mais de 500 anos.

Mais de 500 anos, pois a derrubada da floresta se iniciou não com os portugueses, mas com as populações humanas imigrantes que chegaram à América do Sul entre 14.000 e 19.000 anos atrás. O continente foi o último a ser ocupado por humanos. Ao considerarmos o surgimento das angiospermas (plantas floríferas) entre 180 e 150 milhões de anos atrás, a separação dos continentes africano e americano entre 180 e 100 milhões de anos atrás, e a consolidação do continente sul americano entre 2 e 4 milhões de anos atrás, pode-se imaginar o que significou a ausência de humanos neste ambiente durante tanto tempo: uma diversidade biológica única e exuberante.

A chegada dos humanos nas terras brasileiras trouxe não somente espécies exóticas, como o milho, mas também a prática de agricultura itinerante, muito mais viável nos solos da floresta. Assim, a derrubada e a queimada para o plantio levavam à formação da capoeira, termo indígena que designa a floresta secundária. A biodiversidade foi também explorada como fonte de madeira para a construção de ocas, ornamentos e transporte (canoas).

Com a chegada dos portugueses a exploração da biodiversidade da mata atlântica foi intensificada. Não somente nossos ancestrais lusitanos trataram de derrubar todo o pau-Brasil que encontraram, mas também introduziram  outras espécies exóticas como laranjas, limão, gergelim, arroz, inhame, banana, coco, quiabo, marmelo, figo, damasco, pêssego, pêra, tâmara, romã, repolhos, cebolas, pepinos, melões, uvas e trigo. A introdução da cana-de-açúcar acelerou o processo de derrubada da floresta para aproveitar o solo para o cultivo e produção de açúcar, produto de extremo valor na Europa. Como afirma Dean, “o império se fundava solidamente nos desejos imediatos e predatórios dos colonos neo-europeus” e “as autoridades portuguesas, pelo menos em dois séculos e meio, não se preocuparam muito com a impressionante biota da esplêndida colônia que havia caído em suas mãos”. E porque deveriam? À época do expansionismo e do colonialismo europeu, as nações do velho mundo objetivavam buscar estratégias para seu fortalecimento econômico e militar. Uma das maneiras foi não somente a exploração da terra do Brasil para a monocultura da cana-de-açúcar, mas também a derrubada de muitas árvores de madeira nobre para a construção naval, de qualidade muito superior àquela empregada até então pelos europeus.

A descoberta de ouro e diamantes não ajudou a preservar a mata atlântica, pelo contrário. A floresta ocupava completamente regiões hoje desprovidas quase totalmente de cobertura vegetal primária. A floresta foi derrubada e queimada para facilitar o acesso às minas, para fornecer lenha para as famílias que se instalavam cada vez mais no interior, e também para desocupar a terra para a criação de gado. Dean mostra como a floresta foi inexoravelmente alvo dos colonizadores, independentemente da atividade econômica exercida. Em 1800 a população européia e de escravos aqui chegou a 1.800.000 habitantes, tendo se multiplicado seis vezes durante 1 século.

Nem mesmo a vinda de cientistas e naturalistas diminuiu a derrubada e a queimada da floresta. É interessante observar como intelectuais portugueses, holandeses e alemães se maravilhavam com a natureza, mas ao mesmo tempo praticamente ignoravam a derrubada da floresta, com raras exceções. Uma enorme variedade de plantas, insetos e pássaros foram coletados e levados para coleções européias à época. Ainda bem, pois muitas destas espécies desapareceram totalmente tempos depois, pelo fato de seus habitats naturais terem sido destruídos pelo ferro ou pelo fogo, restando apenas exemplares empalhados e preservados nos museus europeus.

Aparentemente a primeira manifestação pela preservação da mata atlântica partiu do governador de São Paulo entre 1797 e 1802, Antonio Manuel de Melo Castro e Mendonça, que expressou sua procupação dizendo que “O bem público exige limitar a liberdade dos indivíduos de destruir para sempre florestas que levaram séculos para se formar” e proibiu a derrubada e a queimada de florestas “que são chamadas e consideradas como florestas virgens , ainda que poucas madeiras de lei sejam nelas encontradas.” Já nesse período foram criadas as primeiras reservas florestais por iniciativa de Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares, influenciado por Baltasar da Silva Lisboa, juiz brasileiro que estudou ciências naturais em Lisboa. O objetivo foi principalmente preservar a madeira nobre para a construção naval. No entanto tal iniciativa foi posta de lado pela elite, interessada na comercialização da madeira. Segundo Dean, “Duzentos anos depois desta polêmica, parece grotesco observar, de um lado, um governo corrupto e autoritário defendendo a preservação da Mata Atlântica para sustentar sua capacidade bélica e, de outro, uma elite igualmente corrupta, oportunista e escravagista hipotecando sua adesão ao princípio do livre mercado, pretendendo-se, igualmente, defensora da floresta”.

O fim do império não promoveu uma diminuição da derrubada da floresta porque o governo concedia terra aos lavradores, de maneira a estimular a agricultura. Obtida na forma de sesmarias, o beneficiário a vendia a preço baixo e pedia outra. Em grande parte, a floresta era queimada ou derrubada para ser utilizada como lenha antes que a terra fosse utilizada para plantações. Apenas no fim do século XIX o governo estabeleceu decreto para a conservação de 1/6 da cobertura vegetal das propriedades concedidas. Porém, a legislação foi ignorada. Além disso, a ocupação ilegal da terra acentuou o problema. Muito pouco se aproveitava da floresta nativa; apenas a ipecacuanha (Psychotria ipecacuanha) era coletada para exportação, a qual atingiu 25 toneladas em 1860. Outras formas de exploração eram bem menos nobres: uma pele de onça chegou a valer 6 mil réis, o preço de um boi, e macacos eram coletados para ser mortos e empalhados. Flores tropicais também foram exaustivamente coletadas e exportadas, como orquídeas, por exemplo, das quais uma única empresa européia chegou a importar de 100 mil a 200 mil exemplares por ano. Mas a madeira de lei ainda era a forma mais cobiçada de exploração da floresta, e continuou a ser explorada à exaustão.

A chegada do café e o fim da escravatura incrementou o plantio nas “terras planas” e também em encostas, levando à formação de grandes áreas degradadas pela erosão. O segundo ciclo da cana-de-açúcar apenas agravou a derrubada da floresta. As plantações de café em áreas inadequadas reduziam a produtividade, uma vez que a planta exige um regime pluviométrico incompatível com longos períodos de seca. Além disso, o plantio em áreas de declive promovia deslizamentos de terra, aumentando a erosão e a desertificação. O uso do fogo também não foi abrandado. Um especialista francês em café observou, em 1892, que “se alguém deseja limpar um hectare, às vezes destrói cinco ou dez através do recurso bárbaro do fogo”. Um século depois o conservacionista Augusto Ruschi se tornou um crítico severo da forma do plantio do café no Espírito Santo. Dean assinala que “A floresta primária sobrevivente, na região da Mata Atlântica ou em qualquer outro lugar do Brasil, onde alguma parte dela encontre solos adequados para se disseminar, continua a ser uma enorme tentação para qualquer um que, mediante um ganho, se disponha a administrar à espécie humana sua dose diária de cafeína.”

Com o crescimento demográfico, a ocupação de áreas da floresta para a ocupação metropolitana só aumentou. Em paralelo, a derrubada da floresta para o fornecimento de lenha também. Em 1888 foram vendidos 270 mil toneladas de lenha na cidade do Rio de Janeiro. Em 1882 sessenta ferrarias e fundições consumiram 12 mil toneladas de carvão, além de outras tantas empregadas na fabricação de chapéus, tijolos, papel, vidro, porcelana e em oficinas de concertos de motores, que empregavam lenha. A preferida era a madeira de manguezais, pois queimava mais lentamente e não deixava resíduos. A implantação das ferrovias aumentou ainda mais a derrubada da floresta, não somente para ser utilizada como combustível, mas também porque o transporte férreo permitia acessar regiões distantes dos centros metropolitanos.

O estabelecimento da república também não melhorou o quadro geral de devastação da mata atlântica. O governo vendia terras desocupadas a preços irrisórios à elite republicana, a qual fazia uso de suas prerrogativas, dentre as quais a rápida eliminação da vegetação não lucrativa. Contudo, é interessante observar os fatos narrados pela documentação da época (fim do século XIX – início do século XX), assinalando que, segundo Dean, “a orla interior da Mata Atlântica (…) já era uma zona de invernos secos mais longos, intensos e menos previsíveis. (…) Os críticos também se preocupavam com a hipótese de que a derrubada da floresta aumentasse os extremos de temperatura, afirmação para a qual dispunham de algumas evidências, porque a Academia Real de Lisboa havia coletado e publicado observações sobre as temperaturas do Rio de Janeiro nos anos de 1780.” “O botânico Francisco Freira Alemão notou em 1845 o desaparecimento ou rarefação de dúzias de espécies animais nas proximidades do Rio de Janeiro (…)”. Em paralelo, o aumento na incidência de doenças como cólera e febre amarela foi relacionado à derrubada da floresta.

O primeiro ambientalista reconhecidamente ativo no Rio de Janeiro foi Manuel Gomes Archer, que procurou valorizar o ambiente natural da cidade e restaurar a mata da Tijuca. Euclides da Cunha, autor do clássico “Os Sertões”, documentou o dano ambiental irreversível no meio rural de São Paulo quando publicou seus ensaios “Fazedores de desertos” e “Entre as Ruínas”, nos quais descreveu montes de lenha “estocados ao longo de faixas de servidão e de encostas erodidas e áridas”. O governo do estado de SP tomou iniciativas para acelerar o crescimento econômico, contratando especialistas em diversas áreas. De certa forma tal iniciativa fomentou o surgimento do conservacionismo em São Paulo, na figura de Orville Derby, que criou a Reserva Florestal do Parque da Cantareira, tendo sido sucedido por Alberto Loefgren e Edmundo Navarro de Andrade.

A riqueza da narrativa de Dean traz elementos extremamente importantes para se compreender o desenvolvimento do Brasil a partir do início do século XX até os dias atuais, que incluem a disputa pela terra, os interesses políticos concomitantemente ao surgimento das primeiras iniciativas pela sociedade civil para a conservação e preservação da mata atlântica. É um quadro extremamente complexo de inter-relações, que mostra como o desenvolvimento do país foi realizado a ferro e fogo, às custas de muita lenha e muito carvão.

A dúvida que fica é: como poderia ter sido diferente? Será que uma herança cultural distinta poderia ter preservado uma maior extensão da floresta? Como a administração pública, responsável pelos bens naturais, poderia ter implementado outra forma de utilização dos recursos abundantes da floresta de maneira mais racional? São perguntas para reflexão após a leitura desta magnífica obra de Warren Dean, que deveria ser obrigatória. O livro permite outro entendimento sobre a história do Brasil, muito diferente dos fatos políticos e econômicos discutidos de forma isolada da história da floresta da Mata Atlântica, e mais recentemente da floresta Amazônica. Esta última, porém, está sendo vivenciada atualmente, em nada diferente da história da primeira. Ao que parece, a história não ensinou absolutamente nada aos nossos governantes e empresários do setor agrícola.

Warren Dean, “A ferro e fogo – A história e a devastação da mata atlântica brasileira”, Companhia das Letras, 7ª impressão, 2010.



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5 respostas

  1. Prezado Roberto.

    Excelente resenha. Parabéns!
    Li o livro e recomendo.

    O mesmo histórico ocorreu em grande parte das florestas tropicais do mundo.

    Como destacado por você, estamos testemunhando uma história semelhante na Amazônia. O que acontece é que os recursos florestais são pouco valorizados, de forma que atividades econômicas alternativas sejam mais interessantes. O resultado disto é a substituição das florestas por áreas destinadas a outras atividades econômicas. Uma mudança deste cenário seria possível por meio da valorização dos recursos florestais. Considerando que a maior riqueza das florestas tropicais e subtropicais é formada por sua biodiversidade e seus serviços ambientais, seria necessário um grande investimento em pesquisa, envolvendo, principalmente, a bioprospecção e a biotecnologia. Além disso é importante também uma melhor compreensão sobre a ecologia dos ecossistemas florestais, para garantir o manejo sustentável destas áreas.

    Abraço

    • Caro Pedro,

      Obrigado pelo seu comentário.

      Pois então, aqueles que acham que desmatar a mata atlântica não trouxe maiores consequências, basta ler o livro de Dean para perceber que, na verdade, as coisas não são bem assim. E eu diria mais: que o desmatamento da mata atlântica deve ser pelo menos em parte responsável pela alteração do regime pluviométrico na região, causando enormes transtornos nas cidades dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo durante o verão.

      O pior cego é o que não quer ver, e pior do que errar é persistir no êrro.

      Mas é muito difícil para políticos e empresários agrícolas de interesses imediatistas perceberem isso, e que cedo ou tarde o desmatamento de áreas florestais causará enormes transtornos. Não estão preocupados com isso. Espero que não tenham filhos, nem netos, pois estes sim sentirão na pele o que seus pais e/ou avos estão fazendo hoje.

  2. Roberto

    Estas e outras intervenções suas sobre o processo de desmatamento que ocorreu no Brasil são preciosas, porém (não iria entrar no assunto se não houvesse um porém), falta uma contextualização deste processo de desmatamento na realidade global.

    Se ficarmos somente olhando o processo de desrespeito ao meio ambiente que houve no Brasil, vamos simplesmente aumentar nosso complexo de culpa, mas se olharmos para o que ocorreu há séculos e milênios na Europa, USA e outras regiões veremos que esta ideia de respeito ao meio ambiente surgiu quando para aos Europeus e Norte-Americanos não sobrou nada para respeitar.

    Não estou dizendo que devemos repetir as asneiras que os mesmos fizeram, exatamente ao contrário, devemos preservar ao máximo o nosso patrimônio sempre tendo em vista que eles é que são os BÁRBAROS.

    (PS demorei todo este tempo para comentar o teu post, simplesmente porque não tinha tempo, mas estava nas minhas prioridades)

    • Caro Rogério,
      Nem é necessário fazer esta contextualização em termos globais porque sabemos que o homem é um animal desmatador por natureza. Quando a Europa e os EUA foram “desmatados” (nunca tiveram florestas tropicais, nem a diversidade vegetal de um país tropical, muito menos florestas tão densas e em tão grandes extensões), os então ocupantes daqueles países não tinham a menor noção do que estavam fazendo. É bem diferente do que está ocorrendo atualmente no Brasil.

      Não devemos sentir complexo de culpa pelo que aconteceu, e sim pelo que está acontecendo. Os erros do passado e alheios não podem, de forma alguma, como você bem assinalou, justificar os erros presentes. Como é possível que com todo o acúmulo de conhecimento e desenvolvimento de tecnologia que temos em 2010 ainda seja necessário desmatar para plantar e criar gado? Existe um sério erro por parte da comunidade política e dos produtores rurais que o desenvolvimento da Amazônia só será possível se áreas significativas da floresta forem derrubadas. Isso é uma grande mentira. Uma grande e criminosa mentira. Tanto para o desenvolvimento regional do norte como para o desenvolvimento nacional. Mesmo porque o solo da Amazônia é muito pobre, muito mais pobre do que o solo da Mata Atlântica. Se derrubada a floresta, em pouco tempo a região se tornará um deserto incultivável. Isso sem falar nos problemas de regulação de clima, enchentes, mortes massivas de peixes, etc., etc., etc., que ocorrerão.

      Mas muitos preferem simplesmente ignorar tais fatos, que já ocorreram no passado, e ocorrerão com muito maior intensidade caso a floresta continue a ser desmatada. A questão agora não é diminuir o desmatamento, e sim tornar o desmatamento 0 (zero).

      Cordialmente,
      Roberto

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