59% das espécies de árvores da Mata Atlântica são raras

É o que se depreende de notícia divulgada hoje pela Revista Pesquisa FAPESP on-line, que divulga pesquisa sobre a raridade de espécies de árvores da Mata Atlântica.

Floresta de pérolas – Na Mata Atlântica 59% das árvores são raras e podem desaparecer – Francisco Bicudo

Durante três anos a bióloga Alessandra Nasser Caiafa atravessou o país algumas vezes para mapear a diversidade de árvores da Mata Atlântica, a vegetação densa e viçosa que já ocupou quase toda a costa brasileira e abriga muitas espécies de plantas e animais encontradas somente ali, várias ameaçadas de extinção. Na jornada ela não precisou de botas nem facão: analisou 225 documentos científicos (livros, teses e artigos) guardados nas 28 instituições de pesquisa que visitou entre 2004 e 2007. Caminhando pela mata, Alessandra só conseguiria cobrir nesse tempo uma parte pequena da vasta área já percorrida por outros pesquisadores.

Nessa leitura, a bióloga mineira, atualmente professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), confirmou as razões por que a Mata Atlântica é considerada um dos ecossistemas mais ricos do mundo em diversidade de espécies. No trecho que vai do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul há 846 espécies de árvores, do franzino cambucá-peixoto (Plinia rivularis), que não passa de quatro metros de altura e produz frutos avermelhados semelhantes à jabuticaba, ao portentoso jequitibá-branco (Cariniana estrellensis), o gigante da floresta em tupi-guarani, que pode atingir 60 metros de altura.

A surpresa maior, porém, veio quando Alessandra analisou como essas espécies se distribuem nessa faixa que se estende por quase 2.900 quilômetros no sentido Norte-Sul e cerca de 100 quilômetros continente adentro. Apesar da variedade, a maior parte das espécies (59%) são árvores raras, encontradas em áreas restritas ou num ambiente específico da floresta. Uma proporção considerável, 11% das espécies, ou quase uma em cada 10, são raríssimas: têm pouquíssimos exemplares, concentrados em algum ponto do litoral, e por isso correm maior risco de desaparecer.

“Essas informações estimulam esforços de investigação semelhantes, já que no Nordeste, por exemplo, é grande a carência de dados sobre a diversidade de árvores da Mata Atlântica”, afirma Alessandra. “O trabalho aplicou um sistema de avaliação reconhecido internacionalmente”, explica o botânico Fernando Roberto Martins, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que orientou Alessandra no doutorado e é coautor do artigo publicado este ano na [revista] Biodiversity and Conservation. “Quantificamos e qualificamos o grau de raridade das árvores da Mata Atlântica. Temos agora uma fotografia mais fiel de como essas espécies se distribuem”, completa.

Raras e raríssimas

No trabalho Alessandra e Martins usaram uma escala de classificação que determina o grau de raridade de uma espécie a partir de três critérios: afinidade por um ambiente específico, abundância local e distribuição pela área estudada.

Combinados, esses três fatores definem uma escala de oito níveis: um de espécies comuns e outros sete de graus crescentes de raridade. No primeiro nível de raridade estão as árvores encontradas em diferentes altitudes e com níveis variados de umidade, grande distribuição geográfica e pequena abundância local em certos trechos (4,5% das 846 espécies). Já a categoria 7, a das raríssimas, incluiu 11% das árvores: todas com baixíssima capacidade de adaptar-se a outros ambientes, encontradas em populações pequenas e distribuídas por uma área bastante restrita.

Os pesquisadores encontraram espécies raras ao longo de toda a área estudada. Segundo Martins, fatores históricos, geográficos e biológicos explicam esse padrão. No clima seco que caracteriza os períodos de glaciação – o mais recente entre 18 mil e 14 mil anos atrás – só sobreviveram grandes árvores em áreas mais úmidas, como os vales e as encostas próximas ao mar, como sugere a teoria dos refúgios, proposta nos anos 1960 pelo alemão Jürgen Haffer1, adaptada à realidade brasileira pelo geógrafo Aziz Ab’Saber e contestada recentemente.

“Foram vários eventos sucessivos de restrição e espalhamento que moldaram o padrão de distribuição das espécies pela Mata Atlântica do litoral Sul e Sudeste”, explica Martins. Atualmente, diz, esse padrão sofre influência direta da ação humana e da destruição da floresta.

Não por acaso, muitas das árvores raríssimas estão na lista de espécies ameaçadas de extinção elaborada pela Fundação Biodiversitas em 2005. O que preocupa os pesquisadores é que o desaparecimento das mais raras pode gerar um efeito dominó, afetando a disponibilidade de alimento para vários grupos de animais. “A extinção de uma única espécie rompe o nó de uma rede de interações, levando ao desaparecimento de várias outras2, explica Martins. Outras possíveis consequências são o empobrecimento do solo e o aumento dos níveis de gás carbônico no ar.

Alessandra considera problemático o avanço das fronteiras agrícolas e o crescimento das cidades em áreas de Mata Atlântica e ressalta: “É preciso sensibilizar autoridades públicas e proprietários de terra para a importância dessas espécies raras”. Um modo de proteção possível, sugere, é criar unidades de conservação menores em áreas com mais espécies bem raras.

Notas

1 – O grifo é meu. Interessante. A teoria dos refúgios é considerada por muitos como tendo sido proposta por Paulo Vanzolini (ex-diretor do Museu de Zoologia da USP).

2 – O grifo também é meu. Veja-se uma menção similar a esta, postada neste blog, aqui.

A referência completa do trabalho de Caiafa e Martins  pode ser obtida (para os assinantes) clicando-se no link no doi, indicado no fim da referência bibliográfica.

ResearchBlogging.orgCaiafa, A., & Martins, F. (2010). Forms of rarity of tree species in the southern Brazilian Atlantic rainforest Biodiversity and Conservation, 19 (9), 2597-2618 DOI: 10.1007/s10531-010-9861-6



Categorias:ciência, educação, informação

Tags:, , , ,

6 respostas

  1. Roberto,
    Preciso fazer uma correção: a matéria saiu no site da revista Pesquisa, não no boletim da Agência Fapesp. Foi divulgada hoje no twitter por @PesquisaFapesp

    Fiquei curiosa com seus grifos, como você não expande os argumentos eu fiquei sem saber o que você pensa. Você diria que a teoria foi formulada primeiro pelo Vanzolini?

    • Oi Maria, tudo bem?

      Obrigado pela correção – já arrumei o link.

      Quanto à “prioridade” do Vanzolini pela autoria da teoria dos refúgios, esta é uma questão controversa. O Haffer publicou originalmente seu artigo “Speciation in Amazonian Forest Birds” na revista Science, 1969, Vol. 165. no. 3889, pp. 131 – 137. Neste artigo, Haffer cita Vanzolini, dizendo o seguinte:

      “During humid periods the Amazonian forest probably was repeatedly connected with the forests of southeastern Brazil over the now unforested table and of central Brazil. The connecting forests may not have been very extensive, but they probably made possible the exchange of numerous plants and animals (30, 31).”

      A referência 31 é P. E. Vanzolini, Arquiv. Zool. (Sao Paulo) 17, 105 (1968).

      Mais adiante, nas conclusões do artigo, Haffer cita Vanzolini novamente no seguinte contexto:

      “On the basis of evidence discussed by Moreau (12), it appears possible that, under favorable circumstances, the speciation process in birds may be completed in 20,000 to 30,000 years or less, particularly in the tropics, where birds generally seem to occupy smaller niches than they do in cooler and less stable climates. This estimate refers mainly, though not exclusively, to passerine birds with a high reproductive rate and evolutionary potential. Under the same conditions speciation may take longer in larger birds, perhaps requiring on the order of a hundred thousand to several hundred thousand years. Factors such as the size of the refuge population and the degree of isolation of course influence the rate of speciation considerably. The above estimates are highly speculative, and the error involved may be very substantial. However, if the order of magnitude is at least approximately correct, it indicates that the Tertiary ancestors of present Amazonian birds may have speciated repeatedly during the Quaternary, and that many connecting links may have disappeared due to extinction. A similar assumption may also apply to the insect (34), amphibian, reptile (35), and mammal faunas (36) of Amazonia.”

      A referência 35 é uma mistura de referências e comentários: “E. E. Williams and P. E. Vanzolini, Papéis Avulsos Dept. Zool. (Sfio Paulo) 19, 203 (1963); , in Simp. sobre o Cerrado (Univ. of Sao Paulo, Sao Paulo, 1963), p. 307; Atlas Simp. Biota Amazônica (1967), vol. 5, p. 85; P. Milller, Die Herpetofauna der Insel von São Sebastião (Brasilien) (Saarbrilcker Zeitung, Saarbriucken, 1968). These authors emphasized the importance of vegetational changes in Amazonia for the most recent differentiation of the neotropical reptile fauna. Direct evidence of a rapid rate of speciation in Brazilian reptiles has been discussed recently by P. E. Vanzolini and A. N. Ab’Saber, Papeis Avulsos Dept. Zool. (São Paulo) 21, 205 (1968).”

      Como não li as referências de Vanzolini e seus colaboradores (inclusive Ab’Saber), fica difícil de eu avaliar quem escreveu o conceito primeiro. Mas, em 1997 Haffer publicou um artigo de revisão intitulado “Alternative models of vertebrate speciation in Amazonia: an overview” (Biodiversity and Conservation, 1997, vol. 6, 451-476), no qual ele incluiu um tópico específico sobre a teoria dos refúgios em que cita Vanzolini. O texto é o seguinte:

      “The Refuge model holds that forest and non-forest biomes changed continuously in distribution during the geological past, breaking up into isolated blocks and again expanding and coalescing under the varyingly dry to humid climatic conditions of the Cenozoic (Tertiary and Quaternary periods). It is postulated that there have been many diferent periods of the formation of forest refugia and non-forest refugia during the peaks of dry and wet climatic periods, respectively, over the last 60 million years. During dry climatic periods, extensive humid forests probably existed in fairly large regions of the Amazonian lowlands, where enough surface relief was present to create rainfall gradients, e.g. near the rising Andes, around the mountains of Southern Venezuela and the Guianas that were being uplifted and eroded during the Tertiary, as well as in RondoÃnia (to the North of the ParecõÂs mountains in central Brazil) and in the hilly areas of Eastern Para (Haffer, 1969, 1974, 1982; Vanzolini and Williams, 1970; Vanzolini, 1973; Prance, 1982).”

      Repare que as obras de Vanzolini citadas são posteriores ao artigo de Haffer na Science. Logo, fica parecendo que, segundo Haffer, este teve a ideia antes de Vanzolini.

      Mas eu não tenho certeza.

      tudo de bom,
      Roberto

  2. vou investigar isso mais.
    obrigada!

    • Oi Maria,

      Acho que Vanzolini publicou sua ideia em um livro, se eu não me engano em 1970. Eu vi isso há um tempo atrás, mas infelizmente não guardei esta informação.

      Roberto

    • Oi Maria,

      Achei uma entrevista de Vanzolini à Folha de S. Paulo em que afirma que a teoria dos refúgios não é de autoria dele.

      “”Nem deveria chamar teoria dos refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. Não usamos o termo teoria dos refúgios no trabalho de 1970.” Vanzo, como é conhecido, conta como surgiu a explicação científica mais ilustre (e debatida) sobre a origem da biodiversidade amazônica.”

      veja em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u384648.shtml

    • Oi Maria,

      O livro do Paulo Vanzolini é o seguinte:

      VANZOLINI, PE., 1970. Zoología sistemática, geografía e a origem das espécies. São Paulo: Instituto Geográfico de São Paulo. 56 p.

      Veja também o seguinte artigo (disponível gratuitamente pelo Scielo):
      Haffer, J. (2008). Hypotheses to explain the origin of species in Amazonia Brazilian Journal of Biology, 68 (4) DOI: 10.1590/S1519-69842008000500003

Deixar mensagem para maria Cancelar resposta