Brasil em Chamas – III

Textos de especialistas e jornalistas comentam o descaso total com que os incêndios deste outono estão sendo considerados pelas autoridades governamentais e pelos candidatos a presidente da república. Vamos a eles (aos textos). O primeiro é de Marcelo Leite (Folha de S. Paulo, do qual uma parte foi transcrita a seguir.

Brasil braseiro – Marcelo Leite

O país está imerso num mar de queimadas, mas não há nem cheiro de fumaça na campanha presidencial. Ninguém está tratando disso. Nem Marina Silva.

Nossas orelhas tampouco vão arder, porque nenhum deles está falando de nós. Só alguns rostos ficarão em brasa, diante da empulhação transparente do horário eleitoral.

Já os narizes estão pegando fogo. Placas se acumulam nas mucosas, às vezes com sangue. Acorda-se no meio da noite com as narinas entupidas por falta, e não excesso, de muco. Borrifadores nasais viraram extintores de incêndio de bolso.

Não caia na conversa de que uma massa de ar quente e seco nos impede de respirar em pleno inverno. Sim, o ar está seco. Mas ele está cheirando a quê?

Onde há fumaça, há fogo, ensina o lugar comum. E não é só a combustão interna de veículos movidos a combustíveis fósseis (gasolina, diesel) ou renováveis (etanol, biodiesel). Pastagens, capoeiras e matas virgens estão ardendo – combustível vivo.

Olhe para o céu, de preferência para o horizonte. Não é mera poluição normal ou névoa seca o que se enxerga. São partículas de fuligem que sobrecarregam o ar, produto da queima de matéria vegetal.

O material particulado –poeira, em bom português – altera o comportamento da radiação luminosa que parte do Sol e chega até as retinas cansadas. Ocorre uma espécie de espalhamento, que favorece os comprimentos de onda da luz que enxergamos como laranjas e vermelhos.

Com o Sol baixo no horizonte, seus raios têm de atravessar uma camada mais espessa de ar e, portanto, encontram mais partículas pelo caminho. Com a fuligem adicional, surgem os pores do sol mascarados de vermelho dos últimos dias. Antes domina uma luminosidade leitosa, que se coagula em tons de creme ao longo da tarde.

Parece bonito, mas é fumaça. Fogo.

Leia o texto completo, aqui.

O segundo texto é uma reportagem completa, também do jornal Folha de S. Paulo on-line (Folha.com).

Áreas das queimadas em 2010 pode superar 2007, diz instituto

O estrago provocado pelas queimadas este ano pode ser maior do que em 2007, quando foi registrado o maior número de incêndios dos últimos cinco anos. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a situação mais crítica ocorre no Tocantins, onde as queimadas já destruíram 216 mil hectares do Parque Nacional do Araguaia. O instituto também considera crítica a situação no sul do Pará e em Rondônia.

“Esse ano, as condições climáticas estão atípicas. Em 2007, pudemos ter tido mais focos de incêndio, mas em 2010 a destruição pode ser bem maior e relevante, porque o fogo está se espalhando muito rápido”, afirmou o coordenador das Unidades de Conservação Nacional do ICMBio, Paulo Carneiro.

As queimadas atingem, ainda no Tocantins, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. Essa área, segundo o instituto, é a maior reserva de cerrado preservado no país.

“Essa área tem atenção especial, temos equipes trabalhando para conter o fogo, que está aparecendo, mas alguns locais são de difícil acesso”, contou o coordenador. Segundo Paulo Carneiro, a maioria das queimadas são provocadas por ação criminosa do homem e estão sendo investigadas, para que os culpados sejam punidos.

“Os incêndios são causados pela ação criminosa do homem, que coloca fogo para renovar a pastagem e fazer manejo de recurso natural. Estamos fiscalizando e fazendo perícia para que os responsáveis por isso sejam responsabilizados”, disse Paulo Carneiro.

De janeiro a agosto de 2007 foram registrados 59.915 mil focos de incêndios no Brasil. Em 2010, até aqui, foram contabilizados 37.788 focos, sendo a maioria deles em Mato Grosso (3.953), no Pará (2.607) e Tocantins (1.133).

O terceiro texto é uma análise crítica das queimadas por Elenita Malta Pereira, feita para o jornal O Estado de S. Paulo on-line.

Opinião: ‘Ainda fazemos desertos’ – Elenita Malta Pereira

Historicamente, o Brasil queima. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no monitoramento de queimadas disponível em seu website, registra cerca de quarenta mil focos de fogo em 2010, durante outro quente agosto de nossa história.

O fogo como método de “preparo” para a terra remonta há milhares de anos, praticado pelos indígenas que habitavam o território das Américas. Como muitas tribos viviam em meio às florestas, a prática da agricultura já causava a perda da biodiversidade, através das queimadas. É claro que a dimensão das áreas incineradas era ínfima, comparado ao que o colonizador branco devastou depois.

Assim como a prática do fogo, os discursos preocupados com as consequências para o homem e o meio também são antigos. Euclides da Cunha, há 108 anos já tratava, em seus escritos, o problema das queimadas. O assunto aparece na primeira parte de Os Sertões – A Terra – subcapítulo “Como se faz um deserto”, e no artigo “Fazedores de Desertos”, publicado em O Estado de S. Paulo em 22 de outubro de 1901.

No clássico Os Sertões, depois de apresentar dados geográficos, geológicos e climáticos dos sertões do norte, o autor discorre sobre a ação de “um agente geológico notável – o homem” – sobre o meio, que, “de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos”. Além do motivo agrícola, o hábito utilizado pelos indígenas para subsistência passou a ser praticado em larga escala pelos portugueses para desbravar o território, dilacerando a floresta “de chamas, para desafogar os horizontes e destacar bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as montanhas que o norteavam, balizando a marcha das bandeiras”.

Euclides chega a citar decretos de 1713, por meio dos quais o governo colonial tentava “por paradeiro” nas queimadas. E alerta: “Imaginem-se os resultados de semelhante processo aplicado, sem variantes, no decorrer dos séculos”.

No artigo “Fazedores de desertos”, um trecho poderia ter sido escritos nesta semana, em virtude do aumento dos focos de incêndio que chegaram a provocar uma nuvem de fumaça cobrindo grande parte do Brasil. O volume de biomassa queimando gera tamanha emissão de carbono na atmosfera que “a temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja ardência se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas”.

Ainda que Euclides se referisse ao sertão nordestino, suas considerações cabem aos outros biomas que ainda sofrem com as queimadas no Brasil. Para o autor, o deserto iniciado por razões naturais era intensificado pelo fogo. Entretanto, não se trata de criar desertos como o Saara, ou o Atacama, por exemplo, e sim o alerta de que o homem pode contribuir na transformação de um bioma de floresta em uma espécie de savana. Pesquisas recentes têm demonstrado que Euclides tinha razão. Geógrafos têm constatado que os fenômenos de desertificação e de savanização são acelerados quando o homem interfere.

O que mais assombra na leitura desses textos de Euclides da Cunha não é tanto a preocupação ambiental, pois, como havia recebido uma sólida formação, Euclides dominava conceitos da geologia, geografia, biologia, e ecologia, correntes desde o século XIX nos meios científicos. Ideias conservacionistas também já eram manifestadas há tempos, por José Bonifácio (que também se manifestou contra as queimadas), entre outros autores.

O que causa maior espanto é a perpetuação de um método tão rústico e agressivo após mais de um século de “Fazedores de desertos”. Como isso ainda é possível no país onde se encontram as maiores reservas florestais do planeta? É queimando o Cerrado e a Amazônia que o Brasil pretende cumprir as metas apresentadas em Copenhagen, ano passado, de reduzir as emissões de gases do efeito estufa entre 36,1% a 38,9%, até 2020? Em meio à campanha eleitoral, cabe ainda mais uma pergunta: quais as propostas dos principais candidatos à Presidência da República para acabar com o descaso histórico do Brasil com seus recursos naturais?

As queimadas são praticadas impunemente onde não há presença suficiente de agentes para coibi-las. A Brigada Prevfogo, apesar de sua atuação heróica, não tem como dar conta de milhares de focos espalhados em áreas imensas das regiões Norte e Centro-Oeste. Diante de uma cortina de fumaça, que atinge cidades como Porto Alegre (onde provocou chuva ácida), há milhares de quilômetros de distância, assistimos atônitos a emissão de toneladas de gás carbônico na atmosfera, além da perda irremediável de biodiversidade.

Para Euclides, o homem não conseguia conviver com a natureza: extinguia-a. Parece que continuamos com grande dificuldade de convivência, e com enorme relutância em entender o quanto é necessário esse convívio. Depois de tanto tempo, esses textos de Euclides ainda podem propiciar a reflexão sobre a relação do homem com a natureza, o que, hoje, mais do que nunca, é fundamental.

As obras do jornalista Euclides da Cunha mencionadas por Elenita Malta Pereira são também citadas por Warren Dean em seu clássico “A Ferro e Fogo”. Como dito anteriormente, fica evidente que a história não ensinou absolutamente nada aos governantes deste país, tampouco para os produtores rurais.



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4 respostas

    • Com certeza muita gente acha isso ruim Eliane. A sociedade está protestando contra a ineficácia dos governantes e dos órgãos de fiscalização que não conseguem inibir a ação de criminosos que usam o fogo para destruir a biodiversidade de nosso país.

  1. Nuvens de queima amenizam o alteram o clima… o que pode estar iludindo muita gente sobre o efeito da mudança climática.
    Nuvens amenizam o clima, uma vez que bloqueiam a entrada dos raios solares ( parcialmente)… Então é evidente, estamos tendo uma amenização do clima pela evaporação dos polos e consequente formação de nuvens. O fenônemo La Niña, as águas do Pacífico esfriadas por correntes frias indica que lá em sua origem o calor não está chegando como devia… uma vez que nuvens diminuem o calor e aumentam a pressão atmosférica. Mas não seria este todo o motivo. A perda da capacidade de retenção do calor, pela diminuição do Ozônio na Estratosfera produz noites frias. As nuvens associam-se neste processo de resfriamento durante o dia.
    TODA queima é danosa. Como atesta nossa atmosfera!!
    Algo se PERDE, e, é nosso precioso Ozônio.
    Gostaria de saber sua opinião.

    José Miguel

  2. brasil daqui a pouco muda de cor vira cor de fogo

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