Texto de Francisco Bicudo publicado na última edição da revista Pesquisa FAPESP ressalta a importância da obra de Paulo Vanzolini como zoólogo, retratada em livro recém lançado.
A obra de uma vida – Livro reúne estudos de Vanzolini, autor da teoria dos refúgios – Francisco Bicudo
Aos 10 anos, Paulo Emílio Vanzolini conseguiu a aprovação no exame de admissão para o curso ginasial e, como prêmio, ganhou do pai uma bicicleta. Com sua bicicleta, o garoto foi passear no Instituto Butantan, zona oeste da capital paulista, onde se encantou com as cobras e decidiu que seria pesquisador. Aos 14 anos, Vanzolini já era estagiário no Instituto Biológico de São Paulo e aos 23 formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo (USP). No doutorado, concluído em 1951 na Universidade Harvard, Estados Unidos, decidiu enveredar pela herpetologia, o estudo de répteis e anfíbios.
Depois de mais de seis décadas dedicadas à ciência, Paulo Vanzolini, hoje com 86 anos, faz chegar às prateleiras das livrarias a obra Evolução ao nível de espécie – Répteis da América do Sul. Com mais de 700 páginas, o livro lançado pela editora Beca com apoio da FAPESP é uma coletânea com 47 dos principais artigos publicados pelo pesquisador, entre 1945 e 2004. “Juntamos em um único documento o que estava disperso. Essa articulação facilita a consulta. É uma obra bastante representativa da minha carreira”, resume Vanzolini. “Sempre trabalhei com a mesma linha de pesquisa, procurando explicar como teria surgido a grande diversidade da fauna sul-americana. O que fiz nesses estudos pode agora ser encontrado no livro”, completa o pesquisador, premiado em 2008 pela Fundação Guggenheim, de Nova York, como reconhecimento por suas contribuições à ciência. “A publicação dessa coletânea tem um especial significado para a FAPESP”, afirma Celso Lafer, presidente da Fundação, no prefácio do livro. “É, em primeiro lugar, um reconhecimento da contribuição de Vanzolini para o desenvolvimento da zoologia e, em segundo lugar, uma maneira de sublinhar como sua história de vida está ligada de maneira tão construtiva à da FAPESP.”
Miguel Trefaut Rodrigues, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP), conta que os trabalhos de Vanzolini ajudaram a mudar a zoologia brasileira, que até meados do século XX se dedicava principalmente à descrição pontual e isolada de animais. “Ele reorienta esses estudos e passa a se preocupar com os mecanismos de especiação, com a perspectiva evolutiva, reunindo conhecimentos biológicos e geomorfológicos e avaliando os bichos em função das paisagens que habitavam”, diz. “Em sua obra, o estudo sistemático dos répteis e a busca por um modelo evolutivo capaz de explicar a sua diversidade correspondem a pontos indissociáveis de um mesmo processo mental”, completa Hussam Zaher, atual diretor do Museu de Zoologia da USP.
Trefaut lembra que, por muito tempo, a explicação cientificamente mais aceita para justificar a biodiversidade de biomas como a Mata Atlântica estabelecia que o grande número de espécies era resultado de longos períodos de estabilidade climática e geológica, que teriam representado ambiente propício para cruzamentos e reprodução. No final da década de 1960, Vanzolini resgatou conceitos inicialmente formulados para explicar a diferenciação de aves na Europa para apresentar a teoria dos refúgios, proposta simultânea e independentemente pelo alemão Jurgen Haffer. Nessa tarefa, contou com o auxílio do geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber.
Segundo essa interpretação, a América do Sul teria passado, especificamente no último 1,6 milhão de anos, por ciclos de variações climáticas intensas. Entre 18 mil e 14 mil anos, quando o continente enfrentou a última glaciação, teriam se formado por conta do frio nichos geográficos com florestas tropicais – os refúgios –, que garantiram a sobrevivência de espécies menos acostumadas ao frio. Quando a temperatura voltou a esquentar, esses animais puderam abandonar os refúgios e voltaram a se encontrar. “Vanzolini mostra que a diversidade e a especiação surgiram graças à formação das ilhas de isolamento e a mudanças frequentes, e não em consequência de evolução lenta e estável”, diz Trefaut.
Ele cita os artigos “Zoologia sistemática, geografia e origem das espécies”, de 1970, e “The vanishing refuge: a mechanism for ecogeographic speciation”, de 1981, como dois dos trabalhos de destaque da coletânea. Ambos estão diretamente relacionados à teoria dos refúgios. “O primeiro é um estudo multidisciplinar, escrito em português, tornando acessível uma linha de pesquisa até então restrita aos poucos que naquela época falavam inglês. É fundamental também por lidar com exemplos práticos, apontando como foram identificados esses refúgios”, conta Trefaut. O segundo propõe um mecanismo novo para explicar como surgem novas espécies, com adaptações ecológicas diferentes das apresentadas por seus ancestrais. “Vanzolini foi inovador ao introduzir e divulgar no Brasil, por meio de seus alunos, uma visão moderna e centrada no estudo da variação geográfica, usando para tanto ferramentas estatísticas”, detalha Zaher.
Ponto de partida – As polêmicas fazem também parte da trajetória de Vanzolini. Estudos brasileiros e internacionais que avaliaram grãos de pólen, sedimentos de rios e de bacias hidrográficas tentam não só contestar, mas negar a teoria dos refúgios (ver Pesquisa FAPESP nº 129). Vanzolini rebate e afirma que até agora nenhuma outra explicação cientificamente convincente foi apresentada em substituição à tese que formulou. “Não há como negar que os refúgios existiram como mecanismo climático e ecológico”, diz Trefaut. “O fato é que a ciência faz o melhor possível a todo instante. Talvez em 10 ou 15 anos a teoria seja repensada e revista. Ainda assim, as contribuições de Vanzolini terão sido o ponto de partida”, completa.
Trefaut lembra ainda o papel relevante de Vanzolini, diretor do Museu de Zoologia da USP de 1962 a 1993, na organização da coleção do museu. “Quando ele assumiu a direção havia pouco mais de mil exemplares catalogados. Hoje são mais de 300 mil”, conta. Segundo Trefaut, o próprio Vanzolini muitas vezes se dedicava a datilograr rótulos e fichas de identificação dos bichos guardados. “A vida dele foi dedicada às coleções”, reforça. Zaher concorda e afirma que Vanzolini “liderou uma equipe de zoólogos que construiu, ao longo de décadas, uma das maiores e mais importantes coleções zoológicas neotropicais”. Ao comentar o que mudou em seis décadas na ciência nacional, Vanzolini, que também é um consagrado compositor de música popular brasileira, não hesita: a consolidação do sistema de pós-graduação, que na época dele não existia e ajudou a colocar o Brasil em posição de destaque no cenário internacional. “Reverencio a natureza. E tive uma carreira gratificante”, diz. “Posso dizer que sou um pesquisador completamente realizado.”
Porém, o próprio Vanzolini declarou em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo em 2008 não ser autor da teoria dos refúgios.
Nem deveria chamar teoria dos refúgios. Fizemos apenas um modelo de especiação de uma espécie. Um bicho. Nós não desenvolvemos nada. Não usamos o termo teoria dos refúgios no trabalho de 1970.” Vanzo, como é conhecido, conta como surgiu a explicação científica mais ilustre (e debatida) sobre a origem da biodiversidade amazônica. (veja a reportagem completa publicada no jornal Folha de S. Paulo, aqui).
O autor do artigo da revista Pesquisa FAPESP, Francisco Bicudo, recentemente publicou outro artigo na mesma revista, intitulado “Floresta de pérolas – Na Mata Atlântica 59% das árvores são raras e podem desaparecer”, no qual atribui a autoria da teoria dos refúgios a Jürgen Haffer (veja aqui).
Veja meus comentários sobre este assunto, aqui.
Em 2008 Haffer publicou um artigo de revisão, Hypotheses to explain the origin of species in Amazonia, no Brazilian Journal of Biology, 68 (4, Suppl.): 917-947, em que cita diferentes trabalhos de Vanzolini. (veja aqui)
Aparentemente, o modelo dos refúgios foi desenvolvido simultaneamente por vários autores, como indicam Ernst Mayr e Robert J. O’Hara em seu artigo The biogeographic evidence supporting the Pleistocene forest refuge hypothesis, Evolution, 1993, 40(1): 55–67. Os autores citam Vanzolini, porém Haffer não (veja aqui).
Já Alan A. Berryman e Bradford A. Hawkins, no seu artigo The refuge as an integrating concept in ecology and evolution, Oikos, 2006, 192-196 (veja aqui), assim como Bradford A. Hawkins, Matthew B. Thomas, Michael E. Hochberg no seu trabalho Refuge Theory and Biological Control, Science, 1993, 262, 1429 – 1432, não citam nem Haffer nem Vanzolini, mas outros.
E por aí vai.
Haffer, J. (1969). Speciation in Amazonian Forest Birds Science, 165 (3889), 131-137 DOI: 10.1126/science.165.3889.131
J. Haffer (1997). Alternative models of vertebrate speciation in Amazonia: an overview Biodiversity and Conservation, 6 (3), 451-176
Mayr, E., & O’Hara, R. (1986). The Biogeographic Evidence Supporting the Pleistocene Forest Refuge Hypothesis Evolution, 40 (1) DOI: 10.2307/2408603
Berryman, A., Hawkins, B., & Hawkins, B. (2006). The refuge as an integrating concept in ecology and evolution Oikos, 115 (1), 192-196 DOI: 10.1111/j.0030-1299.2006.15188.x
Hawkins BA, Thomas MB, & Hochberg ME (1993). Refuge theory and biological control. Science (New York, N.Y.), 262 (5138), 1429-32 PMID: 17736826
Haffer, J. (2008). Hypotheses to explain the origin of species in Amazonia Brazilian Journal of Biology, 68 (4) DOI: 10.1590/S1519-69842008000500003
Categorias:ciência, educação, evolução, informação
E dia 15/10/10 haverá o lançamento do livro
“EVOLUÇÃO AO NÍVEL DE ESPÉCIE: RÉPTEIS DA AMÉRICA DO SUL”, de Paulo Vanzolini.
http://www.fapesp.br/eventos/livrovanzolini/
PS: Apenas, é RSVP…