Paulo Vanzolini e a Teoria dos Refúgios

Curioso para saber mais sobre a “Teoria dos Refúgios” proposta por Jürgen Haffer e Paulo Vanzolini (ver aqui e aqui as postagens anteriores deste blog que atiçaram minha curiosidade), fui atrás do “livro” intitulado “Zoologia Sistemática, Geografia e a Origem das Espécies”, de Vanzolini.

Porque “livro”, entre aspas?

Porque é uma brochura, uma monografia. A edição foi feita no Instituto de Geografia da Universidade de São Paulo, em 1970, na época em que o reitor da USP era Miguel Reale e o diretor do Instituto de Geografia era Aziz Ab’Saber. É uma edição bem modesta. Li algumas partes (ainda vou ler tudo) para encontrar a proposta do autor, et voilà, na página 44 está ela:

Aves amazônicas e o caminho oposto

Quando Williams e eu estávamos terminando a redação do trabalho sobre o grupo chrysolepsis, recebemos, por cortesia do autor, um manuscrito, agora já publicado, de J. Haffer (1969).

Haffer fez exatamente o contrário do que fizemos: (i) partiu da premissa de que a diferenciação das aves da hiléia se tivesse feito em refúgios; (ii) postulou (com base em dados climatológicos e topográficos) quais seriam os prováveis refúgios; (iii) verificou a compatibilidade dos dados ornitológicos com os refúgios preditos.

Suas conclusões são incrivelmente semelhantes às nossas. Além de alguns transandinos sem interêsse neste contexto, Haffer conceituou refúgios nas seguintes áreas: (i) Napo; (ii) Leste do Peru; (iii) Madeira-Tapajós; (iv) Serra do Imeri; (v) montanhas da Guiana; (vi) Leste do Pará.

Entre o esquema de Haffer e o nosso, existe concordância perfeita no que diz respeito aos itens (i), (ii) e (v).

Williams e eu não percebemos a evidência de refúgios no Imeri e no leste do Pará. Este segundo, porém, é muito provável que exista, dada as observações de Ab’Saber em Perizes.

Ainda há poucos dados para discutir um refúgio ao sul do Amazonas, mas eu me inclino mais pelo Mato Grosso de Goiás que pelo interflúvio Madeira-Tapajós, preferido por Haffer. Não se exclui também a possibilidade de dois refúgios

Finalmente, Haffer não postulou a presença de um refúgio no norte da Venezuela, mas não temos dúvida, tanto por causa dos dados zoológicos quanto pelos de Garner (1959).

Tendo em vista as diferenças e deficiências de material e de informação, e a juventude do assunto, eu considero muito bom o acôrdo entre o esquema de Haffer e o nosso, e penso que já se tem uma base para analisar mais rápida e eficientemente novos casos.”

Veja o pdf do texto original, escaneado, aqui.

Tendo em vista a importância do trabalho de Vanzolini, a edição de uma coletânea de seus textos é mais do que merecida.



Categorias:biodiversidade, evolução

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9 respostas

  1. Excelente post. Ainda não tinha visto a Teoria dos Refúgios recebendo essa atenção por blogs científicos. E quanto às contestações recentes sobre os postulados da TR? Caberia um post também, assim penso.

  2. E eu fiquei curiosa para saber como é que você obteve esse “livro” de Vanzolini… será que em alguma coleção de obras raras? Da biblioteca do Museu de Zoologia, talvez? 🙂

    • Através do sistema de empréstimos inter-bibliotecas da USP, diretamente da biblioteca da ESALQ.

      Número de tombo: 590 V285z 30325

      Tinha certeza que a USP deveria ter pelo menos 1 exemplar desta obra rara. Afinal, Vanzolini foi diretor do Museu de Zoologia durante muitos anos.

      • Houve uma época em que não havia essa preocupação em documentar a produção docente nas universidades. Felizmente, isso mudou. Sorte sua, havia o registro e o depósito dessa obra numa biblioteca da USP! 🙂

        E agora, com a integração do empréstimo-entre-bibliotecas, tudo ficará ainda mais fácil!

        Só um detalhe, Roberto: o número de tombo dessa obra na verdade é apenas 30325. O restante refere-se à classificação para fins de localização na estante: 590, na Classificação Decimal de Dewey, é a classe da Zoologia, e V285z é a chamada de autor Cutter: V285 de Vanzolini/sua identificação numérica, e z, a primeira letra do título.

  3. Curioso para saber mais […]“, “fui atrás do ‘livro’ […]“, “Li algumas partes […] para encontrar a proposta do autor“, et voilà. 😀

    Lembrou-me muito uma passagem em que Umberto Eco descreve sua satisfação ao encontrar um trecho crucial para uma sua dúvida de pesquisa, no já datado (não pelos conselhos em como conduzir uma investigação, sempre úteis, mas pela obsolescência do material de pesquisa indicado – consideremos que o livro foi escrito numa época em que o Google não existia…) “Como se faz uma Tese” (aqui, para download). Ele conta-nos a história do livro do abade Vallet (p.159-160):

    Tinha, pois, um problema. E nenhum dos autores que li me ajudava a resolvê-lo […]. E quando andava de um lado para o outro à procura de textos que me ajudassem, encontrei um dia. […] um pequeno livro […] de um certo abade Vallet […]. Não o tinha encontrado em nenhuma bibliografia. […] começo a lê-lo e […] Continuo a ler e, a dada altura, […] encontro uma referência […]. Eureca! Tinha encontrado a solução!” 😀

    • Me comparar ao autor de “A ilha do dia anterior” e “O nome da rosa” e “Baudolino” e “A misteriorsa chama da rainha Luana” é um luxo.

      Obrigado Sibele.

      Isso é que é elogio!

  4. Olá Roberto!

    Vc por acaso não teria mais essa brochura em mãos teria? Eu não estou no Brasil atualmente, e uma cópia dela seria realmente inestimável para mim no momento! Por sinal, excelente post. Refúgios são um assunto longo, podemos trocar uma idéia sobre a bibliografia também! 🙂 Grande abraço!

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