Qual o caminho?

Novas análises indicam que populações biológicas de espécies tropicais estão diminuindo significativamente, enquanto que a demanda da humanidade por recursos naturais está aumentando para um percentual de 50% a mais do que a Terra pode oferecer – dados fornecidos pelo novo relatório publicado pela WWF (World Wildlife Fund). O relatório bienal – WWF’s Living Planet Report – foi elaborado em conjunto com a Zoological Society of London e com o Global Footprint network. O relatório faz uso do “Living Planet Index” (Índice do Planeta Vivo) como uma medida da “saúde” de quase 8.000 populações de mais de 2.500 espécies biológicas. O índice apresenta um decréscimo de 30% desde 1970, sendo que os trópicos apresentam um declínio de 60% em menos de 40 anos.

Naturalmente que a perda de biodiversidade é mais acentuada em países pobres. Por outro lado, os países ricos vivem uma situação de um paraíso artificial, uma vez que as populações mais ricas tendem a apresentar um consumismo excessivo associado a altas taxas de emissão de carbono. Em algumas áreas de clima temperado houve recuperação de algumas populações biológicas, devido a um maior esforço conservacionista, diminuição da poluição e controle da produção de dejetos. Por outro lado, espécies de água doce de regiões tropicais sofreram uma diminuição de quase 70%, maior do que populações de quaisquer outros biomas, terrestres ou marinhos.

Levando-se em conta que as espécies são os elementos-chave dos ecossistemas, e que a saúde destes é um reflexo direto da abundância de espécies e das populações de diferentes espécies, o desaparecimento de populações e de espécies afeta diretamente os diferentes ecossistemas globais.

A demanda por recursos naturais dobrou desde 1966. Atualmente a humanidade está utilizando um planeta Terra e meio para sustentar suas atividades. A continuarmos neste ritmo, em 2030 estaremos utilizando a capacidade produtiva de dois planetas Terra para sustentar as  demandas anuais da humanidade. Para sustentar uma população mundial com o mesmo estilo de vida do norte-americano médio, seriam necessários 4,5 planetas Terra.

O principal problema da atual sustentabilidade é o consumo das reservas naturais de carbono, que aumentou 11 vezes ao longo dos últimos 50 anos. Os países que apresentam maior consumo de carbono/pessoa são: Emirados Árabes, Quatar, Dinamarca, Bélgica, Estados Unidos, Estônia, Canadá, Austrália, Kuwait e Irlanda. Os 31 países mais desenvolvidos do mundo consomem 40% de todo o carbono produzido; os países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) caminham rapidamente para entrarem deste patamar. A dependência econômica de altas demandas de carbono pode ser um indicativo de um futuro comprometedor para muitos países – inclusive o Brasil, que busca cada vez mais novas fontes de energia, como o petróleo do pré-sal, em vez de iniciar programas de racionalização do uso de recursos naturais, diminuição do uso de fontes de energia não-renováveis (como o petróleo), otimização de processos industriais, diminuição da geração de resíduos, reaproveitamento, reciclagem, diminuição do desperdício e do excesso de consumo.

Mas os países desenvolvidos são aqueles que, de longe, consomem mais recursos naturais, oriundos principalmente dos países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento. Paradoxalmente, contudo, nem sempre os países com maior consumo de recursos naturais são aqueles que apresentam melhor qualidade de vida. Muitos países que apresentam consumo moderado de recursos naturais apresentam melhores índices de expectativa de vida, melhores salários, e melhores níveis de educação para sua população.

A projeção do relatório é que a população mundial ultrapasse 9 bilhões de habitantes em 2050, ressaltando a necessidade urgente da busca de soluções para a sustentabilidade terrestre, que devem incluir mudanças nos padrões de dietas, consumo de energia, bem como esforços crescentes de valorização e investimento no “capital natural”.

A escolha é nossa, e o tempo passa, inexoravelmente.

Veja o WWF’s Living Planet Report, aqui.



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1 resposta

  1. Vou tentar ser realista: não há solução. Artigos publicados em periódicos como Science e PNAS, mostram (não é ‘sugerem’, é mostram) que os habitantes da Austrália e Havaí já dizimavam a natureza muito antes da chegada do colonizador branco. Hans Staden e Saint-Hilaire escreveram relatos semelhantes quando estiveram no Brasil nos séculos XVI e XIX, respectivamente. A ideia de Rousseau do ‘bom selvagem’, é um mito. Por outro lado, o desejo de consumo nos países do Leste Europeu cresceu muito depois de 1989. John Kenneth Galbraith argumentou que um dos motivos da queda dos regimes naqueles países foi a tendência humana para a frivolidade de produtos completamente dispensáveis.
    Na verdade, existe uma alternativa: todos nós vamos abrir mão dos nossos carros particulares, telefones celular e toda a parefernália que faz parte da vida moderna. Quem se habilita?

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