Revistas científicas brasileiras publicam necessariamente artigos piores?

Artigo de autoria do Prof. Rogério Meneghini, publicado na revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research (BJMBR), se debruça sobre este assunto “espinhoso”. Meneghini levanta pontos importantes para substanciar a dúvida, como, por exemplo, a validade da utilização do fator de impacto como medida de qualidade. Outros questionamentos apresentados fazem alusão ao fato que usualmente se considera a publicação em revistas nacionais (brasileiras) como sendo de segunda escolha, depois de um artigo ter sido recusado em revistas internacionais, mais prestigiosas. Em vista disso, a criação do sistema SciELO objetivou valorizar as publicações nacionais, de maneira a melhorar sua visibilidade e, consequentemente, a visibilidade da pesquisa feita no Brasil.

Para o estudo em questão, doze pesquisadores brasileiros notórios foram convidados a submeter artigos para a revista Anais da Academia Brasileira de Ciências (AABC) até março de 2008. O objetivo foi de verificar se estes pesquisadores conseguiriam aumentar o número de citações internacionais observadas para os AABC.

Materiais e métodos

A escolha dos pesquisadores foi feita de acordo com seu desempenho de publicações entre 1994 e 2003 que tenham recebido mais do que 100 citações até 2006. Quatorze pesquisadores foram convidados: 11 de ciências da vida, 2 de física e 1 de química. Dentre os convidados, nove aceitaram o convite [aqueles em negrito sublinhados tiveram seus respectivos CV Lattes facilmente encontrados pelo Google]: O. Augusto, Philip Martin Fearnside, Ricardo Tostes Gazzinelli, Frederico Guilherme Graeff, Ivan Antônio Izquierdo, M. F. Lopes, Maria Rita dos Santos e Passos Bueno, Sergio Schenkman e A. N. E. Vercesi. O número total de citações dos artigos destes autores, publicados nos AABC, foram computados para o período compreendido entre 2008 e 2009, e os resultados foram avaliados de diferentes maneiras.

Resultados

Os artigos publicados pelos autores selecionados receberam mais do que o dobro de citações de outros artigos publicados na mesma revista (AABC), nas mesmas áreas de pesquisa. Artigos publicados pelos mesmos autores em revistas internacionais no mesmo período receberam cerca de 3 vezes mais citações (no mesmo período) do que seus artigos publicados nos AABC. Cerca de 8% dos artigos dos mesmos autores publicados entre 2000 e 2009 são de revistas brasileiras: AABC e BJMBR. Meneghini assume ser provável que estes artigos foram publicados nestas revistas depois de não terem sido aceitos para publicação em revistas internacionais. Os mesmos pesquisadores apresentam uma baixa porcentagem de auto-citações (11,4%) e 78,5% de citações de revistas internacionais em seus artigos submetidos para os AABC. Somente 1,52% das citações destes autores em seus artigos publicados nos AABC são de revistas brasileiras.

Comentários de Meneghini

De acordo com os resultados obtidos, publicar artigos originais de trabalhos de alta qualidade em revistas brasileiras parece ser um sacrifício, uma vez que estas revistas têm menor visibilidade e menor fator de impacto. Por isso, estes artigos tendem a ser menos citados. Meneghini pondera ainda que a publicação em revistas brasileiras deriva de 2 situações negativas: a) que o artigo tenha sido considerado pelo próprio autor como inadequado para publicação em uma revista internacional, e ; b) que o artigo tenha sido recusado para publicação em revista(s) internacional(ais), e por isso o autor decidiu publicá-lo em uma revista nacional. Outro aspecto a se considerar é que os autores tendem a não citar outros autores brasileiros em seus artigos, talvez por achar que desta maneira seus artigos parecerão mais sérios. A citação preferencial de referências bibliográficas internacionais seria um indicativo de melhor qualidade de seus artigos.

De  qualquer forma, segundo o próprio Meneghini os resultados obtidos devem ser cuidadosamente analisados, pois podem influenciar na evolução dos periódicos brasileiros.

Muito interessante o estudo do Prof. Meneghini. Com mais contato com o Journal of the Brazilian Chemical Society (JBCS) faço algumas ponderações sem qualquer base quantitativa. Nos últimos anos, depois que o fator de impacto (FI) do JBCS ultrapassou o valor de 1,00 ocorreu um aumento visível no número de artigos publicados por autores estrangeiros nesta revista. Por exemplo, no último número publicado do JBCS (volume 21, número 12, 2010), 11 artigos dos 25 publicados são exclusivamente de pesquisadores estrangeiros, dos seguintes países: Índia, Chile, Espanha, Cuba, Alemanha, Portugal, Irã (2 artigos de autores exclusivamente iranianos), China, Sérvia, Argentina e Austrália. Já encontrei artigo de pesquisadores de muito bom nível publicado no JBCS (University of Hawaii at Manoa). O que pode estar acontecendo com o JBCS?

As estatísticas da revista indicam que o número de artigos de pesquisadores estrangeiros tem se mantido estável desde 2006: cerca de 45% dos artigos publicados no JBCS são de pesquisadores brasileiros e 55% de pesquisadores estrangeiros. Esta tendência se inverteu a partir de 2005. Fato interessante, o fator de impacto da revista subiu para mais de 1,00 em 2004.

Efeito Tostines?

ResearchBlogging.orgMeneghini, R. (2010). Publication in a Brazilian journal by Brazilian scientists whose papers have international impact Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 43 (9) DOI: 10.1590/S0100-879X2010007500073



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8 respostas

  1. Em suas ponderações sobre tais características da publicação em revistas brasileiras derivar de 2 situações negativas, Meneghini esqueceu-se de acrescentar mais uma, a meu ver determinante: c) a política equivocada de órgãos de fomento como a Capes, que valoriza muito mais as publicações em periódicos estrangeiros para suas avaliações dos pesquisadores nacionais.

    Quanto às ponderações a) e b), parecem mais síndrome de vira-lata.

    “O que pode estar acontecendo com o JBCS?”

    Se seu FI ultrapassou o valor de 1,00 após 2004, então ele adentrou no seleto grupo permeado pela máxima descrita em Mateus 25:29. Nada que lembre Efeito Tostines…

    • Oi Sibele,

      Please, cite Mateus 25:29

      Minha alusão ao “efeito tostines” é a seguinte: depois de ter atingido o fator de impacto 1,00, a revista, como você mesmo disse, adentrou em um seleto grupo de periódicos mais bem conceituados. Desta maneira, atrai artigos melhores, que aumenta o fator de impacto, que atrai artigos ainda melhores, que aumenta ainda mais o fator de impacto…

      • Claro! 🙂

        Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância.
        Mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.
        ” (Mateus 25:29).

        Essa passagem bíblica foi utilizada por Robert Merton (1968) para explicar o padrão de distribuição das leis e princípios bibliométricos, resumidas em “poucos com muito e muitos com pouco”.

        Sua alusão foi uma boa analogia, Roberto. Mas será que o “efeito Tostines” não define uma petitio principii? O invólucro deve ser fundamental para conservar as bolachinhas fresquinhas, concorda? 😉

        MERTON, R. K. The Mathew effect in science. Science, v. 159, n. 3810, p. 58, Jan. 1968.

      • Oi Sibele,

        O invólucro pode ser importante. Porém, se a receita e a qualidade dos ingredientes utilizados para fazer os biscoitos não forem boas, estes não durarão nada e não serão apreciados, certo? Por melhor que seja o invólucro, este não garante o conteúdo 😉

        Tudo de bom,
        Roberto

  2. Então Roberto, esse é o ponto. Do jeito que está o modelo de publicações científicas, dá-se muito mais importância ao invólucro do que aos biscoitinhos propriamente ditos. E o fator de impacto só cristaliza esse modelo.

    Tudo de bom, sempre! 🙂

    Sibele

  3. Dados e boa ciência pouco importam para muitos pesquisadores.
    Querem fama e dinheiro para ter mais fama (científica).

    • Oi Luís,

      Não exageremos. Sem dados e boa ciência, não é possível ter fama e dinheiro. Afinal, o sistema de revisão por pares funciona, e relativamente bem, para separar o joio do trigo.

      abraço,
      Roberto

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