Vale a pena ler blogs de e sobre ciência?

O debate sobre a pertinência de se ler ou não blogs sobre e de ciência ganhou novas dimensões em 2010. Isso porque o editor-chefe da prestigiosa revista editada pela American Chemical Society, Analytical Chemistry, teceu em editorial severas críticas à ciência que é divulgada e discutida em blogs. Segundo Royce Murray, a divulgação da ciência não é feita de maneira muito clara, embora ele julgue que os programas de rádio, de televisão e notícias de jornal apresentem boas notícias sobre ciência. Porém, Murray assinala que estes meios de comunicação têm sofrido reveses econômicos, e por isso têm fornecido menos notícias sobre ciência para o público em geral. Murray considera que a limitação de informação científica é um problema sério porque boa parte da ciência têm financiamento público, e que os cientistas deveriam tomar muito cuidado como informações de caráter científico são divulgadas. Segundo Murray, blogueiros de ciência são vendedores de novidades para os veículos de informação. Considera que tais blogueiros não passam de escritores ocasionais, e que o termo blogueiro não muda em nada a essência de serem “vendedores de novidades”, dispondo de “megafones na internet” que atingem uma ampla audiência. Murray considera que o fato destes blogueiros não terem um empregador que forneça credenciais faz com que os blogs possam apresentar textos sem fundamentação consistente. Desta forma, empresas que fornecem ferramentas para a criação de blogs se proliferam, uma vez que blogueiros não necessitam qualificações formais. Afinal, quem verifica os fatos publicados pelos blogueiros como científicos?, argumenta Murray. Segundo o editor, textos de blogs ditos científicos podem ser publicados com objetivos quaisquer, seu sucesso sendo ditado pelo número de leitores dos blogs, que muitas vezes não conseguem separar o joio do trigo.

Como seria de se esperar, Murray foi bastante questionado, principalmente em blogs (veja-se, por exemplo, aqui). Infelizmente Murray faz uso do argumento de autoridade, ainda que de forma parcialmente escamoteada, para desqualificar blogueiros que apresentam informações científicas e fomentam a discussão, sem que, aparentemente, tenham credenciais para isso. Para citar um único exemplo de como o argumento de Murray pode ser parcial, a jornalista Maria Guimarães “desistiu de ser bióloga”, segundo ela mesma, “por entender que a curiosidade não cabe num assunto só”. Além de trabalhar para a revista Pesquisa FAPESP, mantém um blog no ScienceBlogs Brasil, “Ciência e Idéias“. Em 2010 Maria recebeu vários prêmios por reportagens de sua autoria (veja aqui e aqui). Eu sinceramente gostaria de saber quantos cientistas teriam a capacidade de atingir o grande público desta forma. Afinal, se por um lado fazer ciência é importante, o uso da ciência também é e, consequentemente, tornar a ciência de conhecimento do público em geral. O fato de não ser cientista torna Maria menos apta a divulgar e eventualmente discutir ciência?

O assunto voltou à tona na última semana em editorial publicado pela revista Nature . Indo na contramão da opinião de Murray, o editorial da Nature assinala que

Blogs and online comments can provide valuable feedback on newly published research. Scientists need to adjust their mindsets to embrace and respond to these new forums for debate.

[Comentários on-line e de blogs podem fornecer retorno válido para pesquisa recentemente publicada. Cientistas precisam rever seus pontos de vista de maneira a participar e responder à estes novos fóruns de debate.]

O editorial faz alusão ao artigo publicado na Science sobre a bactéria que faz uso de arsênico (ou arsênio) em seu metabolismo em fez de fósforo. O artigo da Science, e a maneira como os resultados foram divulgados pela NASA, foram muito criticados nos blogs de ciência. Todavia, os autores do artigo  da Science manifestaram-se dizendo que não levarão em conta tais opiniões, por entenderem que qualquer crítica a seu trabalho deve ser fundamentada na revisão por pares. No entanto, o trabalho da Science foi cuidadosamente analisado, revisado e criticado pela profa. Rosie Redfield, geneticista da University of British Columbia, em seu blog RRResearch. Neste ponto, os autores, contentes de terem seu trabalho divulgado na mídia, fecharam-se em copas e deixaram de se manifestar.

Se por um lado o editorial da Nature não diminui, em absoluto, a importância da revisão por pares, por outro lado a Nature mantém blogs de discussão dos assuntos e artigos publicados pela revista. Mas que, segundo o próprio periódico, ainda trazem pequena contribuição para uma discussão mais aprofundada sobre ciência e sobre os resultados dos trabalhos publicados. Os autores de trabalhos científicos raramente dão atenção às críticas e observações apresentadas nos fóruns de discussão. O editorial da Nature assinala que, no entanto, muitos blogueiros trazem uma análise de muito melhor qualidade sobre a ciência que é feita do que os meios de comunicação em geral, e que os jornalistas que divulgaram os pontos de vista da NASA simplesmente passaram despercebidos em toda esta história. Todavia, tiveram um papel fundamental em divulgar a notícia tal como a NASA repassou, sem qualquer análise ou questionamento.

O papel dos blogs que apresentam e discutem ciência está ganhando importância. Se por um lado isso pode ser bom, para que haja uma maior divulgação e discussão sobre ciência, por outro lado é necessário que o público saiba separar a informação fidedigna da fantasiosa. E não há outra forma a não ser tendo um melhor nível de educação e espírito crítico.

A discussão feita neste blog sobre a “bactéria que vive com arsênico” foi bastante breve. Recomendo a leitura dos textos publicados nos blogs Gene Repórter, (aqui e aqui) Brontossauros em Meu Jardim, Chi Vó, non Pó, Geófagos e da Ciência Hoje on-line.

Para um péssimo exemplo de divulgação científica feita na mídia impressa veja aqui.

A foto acima é da Profa. Rosie Redfield (University of British Columbia), à esquerda, e da Dra. Felisa Wolfe-Simon (NASA), à direita. Fonte.

ResearchBlogging.orgMurray, R. (2010). Science Blogs and Caveat Emptor Analytical Chemistry, 82 (21), 8755-8755 DOI: 10.1021/ac102628p

ResearchBlogging.org
Nature (2010). Response required Nature, 468 (7326), 867-867 DOI: 10.1038/468867a



Categorias:ciência, educação

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16 respostas

  1. As novidades vem dos blogs porque o que se sabe se tem nas academias.

  2. Fico cá tentando imaginar como foi a discussão entre os cientistas quando alguns decidiram escrever em língua vernácula e não em latim…

    E mais recentemente, qdo algumas revistas científicas passaram a abandonar a versão impressa e trabalhar só com a eletrônica.

    []s,

    Roberto Takata

    • Talvez a blogosfera esteja começando a assustar os pesquisadores, por verem seus trabalhos escrutinizados em profundidade.

      Eu vejo isso com muito bons olhos. Será um bem enorme para a ciência, acredito.

      abraço,
      RB

  3. Se eu precisava de algum indício de que o Sr. Murray não merece crédito, este me foi fornecido pela ACS. Faz tempo que eu deixei de usar os boletins da ACS como fonte de notícias de ciência, porque a ACS só faz marketing (e de péssima qualidade…) das indústrias patrocinadoras. É claro que blogueiros independentes chateiam os hype-writers da ACS.
    Vindo de quem vem, quanto mais insultos, mais elogios.

    • Caro João,

      Quem der uma olhada na postagem da Profa. Rosie Redfield sobre as bactérias que viveriam com arsênico em vez de fósforo, verá que a postagem já conta com 250 comentários. Sinceramente, eu nunca vi tantos comentários em blogs de ciência no Brasil. Em blogs de política, sim. O P. Z. Myers, do Pharyngula, tem uma média de cerca de 100.000 leitores/dia!! Que revista científica tem tantos leitores assim? Talvez a Science, Nature, PNAS, quando sai uma edição nova. Já a Profa. Rosie Redfield não disponibiliza o número de acessos a seu blog. Como eu 😉

      Fico pensando: será que estes blogs não influenciam estudantes, professores, pesquisadores? Acho que, com certeza, sim. Portanto, não é possível mais se ignorar a importância dos blogs de e sobre ciência.

      abraço,
      Roberto

    • Esqueci de mencionar mais um: o blog do químico medicinal Paul Docherty, Totally Synthetic, no qual ele discute artigos de síntese total de produtos naturais. A postagem mais comentada de Docherty (203 comentários) foi sobre um artigo muito esquisito publicado no JACS, que apresenta o uso de NaH como oxidante (em vez de redutor, como normalmente é utilizado). Docherty escreve mensalmente na revista Chemistry World, editada pela Royal Society of Chemistry, do Reino Unido. Já comentei com pesquisadores norte-americanos sobre o blog de Docherty, que é muito apreciado.

      abraço,
      RB

  4. “Fico pensando: será que estes blogs não influenciam estudantes, professores, pesquisadores? ”

    Conto minha história pessoal. Sou estudante de Educação Física, mas desde que comecei o curso me interessei pela área biológica, principalmente biologia molecular/bioquímica/fisiologia. Como o currículo de EF não dá muita ênfase nessas áreas, e nas poucas matérias da grade relacionadas a elas não há muita cobrança, tive (e estou tendo) que me virar pra aprender sozinho. No começo minha estratégia foi bem simples: mergulhar na literatura básica, apanhando pra entender os fundamentos, lendo livro atrás de livro. Em um ano e meio li dezenas de livros-textos da área, que me deu uma base até boa. Me virava com os recursos da biblioteca e pelos livros que comprava também. É importante dizer que não tinha orientação quase que nenhuma e nem sabia direito se o caminho que tava fazendo era realmente certo.

    Entretanto, no final do ano passado ganhei uma bolsa pra estudar na Dinamarca (que também não era específico desta área de fisiologia), e ficou mais difícil pra utilizar essa estratégia, pq eu não tinha acesso a livros lá. Comecei a procurar por conteúdo online, pra pelo menos manter de lá algum contato com a área, e acabei descobrindo os blogs de ciência.

    Para minha surpresa, encontrei blogs de alta qualidade (o seu incluso) e posso dizer que aprendi um bocado de coisas com os blogs de ciência. Menos pelo “conteúdo” deles em si (que é claro que muitas vezes foram úteis), mas pelo que vou explicar agora. A primeira coisa importante foi o contato que tive com os papers. Até aquele momento, por falta mesmo de encaminhamento, estudava só pelos livros-textos. Aprendi, a partir dos blogs de ciência (das postagens de discussão/apresentação de papers) a entender direito o que eram os papers. Ou seja, minha educação superior foi falha nesse ponto; admito que os blogs de ciência foram um passo importante pra mim, pq foi a partir deles que eu comecei a ter um contato mais científico mesmo, a ver a coisa “acontecendo” a partir dos papers. Acredito que talvez eu começasse a ter contato com papers talvez só lá pela época de monografia ou até mesmo depois, no mestrado, e não duvido que isto seja a realidade pra muitas pessoas. Então os blogs foram importantes pra mim nesse ponto, ajudaram muito na minha autonomia e até encurtaram o caminho.

    Resultado: quando voltei pro Brasil fiz uma assinatura pessoal da Nature e mergulhei agora nos artigos, e tem sido extremamente importante pra minha formação.

    A outra coisa que considero importante que aprendi a partir dos blogs foi uma dica que o próprio Berlinck me deu: receber os alerts de journals de interesse. Uma vez havia indagado ao Roberto como ele tinha contato com artigos que comentava e ele me deu essa dica realmente importante. De prontidão me cadastrei em diversos journals e agora fico de butuca nas novidades e estudos de meu interesse, e descobri que não é nada difícil conseguir um artigo ou até manter correspondência pessoal com os autores… me sinto atualizado assim.

    Tenho oportunidade de conversar com amigos meus mestrandos e doutorandos, e muitos não recebem e-alerts, acredito simplesmente pq não foram ensinados. Sou adepto da livre-informação e não tenho problema nenhum em compartilhar essas coisas. Acredito que tem gente que tem “medo” de estar revelando o ouro ou algo do tipo, mas acho que pra ciência brasileira melhorar, é bom que o ensino nas instituições sejam direcionados pra pesquisa (mesmo que o objetivo não seja formar pesquisador). Isso é agora bem claro pra mim.

    Por isso, escrevo este depoimento com enorme positividade em relação aos blogs de ciência. Acredito que ñ é comum pra vcs que mantém blogs receberem feedback, mas queria deixar meu caso pra ilustrar que pelo menos pra alguém eles foram de utilidade, tanto por aprender com eles, a partir deles, e tb entrando em contato com o pessoal que faz. Outra coisa importante é tomar conhecimento de alguma área interessante, que talvez passasse desapercebida, através da visitação dos blogs.

    Com certeza os blogs influenciam outros estudantes, professores e pesquisadores de diversas maneiras, não tenho a menor dúvida disso.

    • Caro Érico,

      Muito legal seu feedback. Gostei mesmo, e tenho certeza que vários colegas blogueiros de ciência gostarão de saber sobre o teu relato. Eu também acho que vale a pena divulgar o conhecimento e como podemos aproveitar dele para melhorarmos nossa vida pessoal e profissional. Para mim é uma grande satisfação saber que de certa forma o blog te estimulou a crescer. Que ótimo.

      Este foi um dos melhores comentários que recebi aqui, podes crer. Fiquei extremamente contente.

      Grande abraço e tudo de bom para você em 2011.
      Roberto

  5. A internet é o sonho concretizado da crítica livre e aberta. Quem não gosta que se tranque na torre de marfim.

    Abraços,
    Eli

    • Caro Eli,

      “A internet é o sonho concretizado da crítica livre e aberta.” E que deve ser responsável também.

      Acredito que os divulgadores de ciência desempenham um papel importante neste sentido: o de fornecer informações de qualidade para seus leitores.

      Grande abraço,
      Roberto

  6. E digam-me: há maneira mais eficiente, interativa e democrática para fazer um leigo interessar-se pela ciência?

  7. Uau, excelente mesmo, Roberto! Que debate! Obrigada pelo link!

    Destaco duas frases desse post:

    But the “relationship” between the science-blogosphere and science itself is in its infancy”.

    Figuring out how to meld these two universes (science-blogging and science) is a critical contemporary question in science communication – and figuring out how to bridge this orders of magnitude difference in timescales will have to be part of the solution”.

    Muita água ainda vai rolar…

    E sabe, essa coisa toda me lembra muito Ilya Prigogine. 🙂

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